Faixa-a-faixa: o álbum de estreia de Papillon explicado pelo próprio

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [VÍDEO] Luís Almeida [FOTO] Filipe Feio

Quem nunca desejou, principalmente nas aulas de português, que o próprio Fernando Pessoa tivesse rabiscado umas notas sobre o que significa cada um dos seus poemas? Sem conseguirmos mudar o passado, cabe-nos fazer um futuro diferente e, quem sabe, isso passe por questionar os poetas contemporâneos acerca dos seus versos.

Não querendo tirar a magia do que cada um possa absorver de Deepak Looper, perguntámos a Papillon tudo o que quis transmitir. Faixa-a-faixa. Sem querer “spoilar” quem ainda não teve tempo para ouvir “com carinho”, como o próprio pede, podem ler e ver no vídeo as respostas.

 



Reparei que no alinhamento dos nomes das músicas começas com “D”, acabas em “M” e pelo meio todas começam com “I”. Isso tem um significado?

Sim, sim. Não é tanto o “D” nem o “M”. Eu tentei fazer, em termos de narrativa do álbum, como se estivesses a ver um filme. No início do filme tens a abertura com o título e a introdução do conceito do álbum. Por isso é que a primeira faixa se chama logo “Deepak Looper”.

A última é a “Metamorfose” e essa é outra das ideias que quero deixar assente. Eu sendo o Papillon, que significa borboleta em francês, – nome que para um MC de batalhas pode parecer uma falha ou uma imperfeição -, para mim é a cena que eu acho que tenho mais forte, o meu nome. Para mim tem um significado de evolução, que foi algo que sempre quis representar. A última faixa chama-se “Metamorfose Fase II” porque eu sinto que é a fase da metamorfose em que estou. Isso bate também certo com a capa do álbum, sendo que a borboleta tem três fases – larva, casulo e borboleta – e eu sinto que estou a meio da viagem, estou ali no casulo.

Pelo meio, todas as palavras começarem pelas mesmas letras, o significado está no facto de ter feito o álbum de uma forma muito intrínseca, muito eu a olhar para mim próprio, tentar compreender o que acontece à minha volta, mas olhando para mim próprio e confrontando-me com os meus próprios feelings e os meus medos. Quis deixar explícito que era “I’m”, isto é o que eu sou. A segunda faixa é até uma pista para isso, chama-se “1 AM” ou “Iam”, foi um trocadilho que fiz. As palavras têm quase todas duplos sentidos, mesmo o próprio nome do álbum tem múltiplos significados.

Podes contar um pouco o que é cada uma das faixas? “1 AM”?

É o estado inicial do álbum e o estado inicial da personagem principal do filme. Podemos imaginar que eu sou essa personagem principal e aí sinto-me mais na mó de baixo por em vezes repetidas me confrontar com coisas negativas ou obstáculos. Isto é verídico: eu queria ser jogador de futebol, mas tive uma lesão e essa lesão foi o que me fez entrar para a música de certa forma. Foi uma fase muito dark da minha vida. Depois o querer ir para a faculdade, fiz o primeiro ano, mas depois pelo meio já não tinha guita para pagar as propinas. Mais um obstáculo. E depois o facto de por intuição nos compararmos com as outras pessoas, com os nossos amigos, e mesmo os nossos pais dizem “já viste o teu amigo, o que é que ele está a fazer” – o que eles pensam que nos motiva é o que nos desmotiva. Pus-me nesse estado em que te confrontas com essa espiral negativa até ao ponto em que já não queres estar aqui, estás completamente depressivo e vais fazer aquilo que é mais errado de se fazer que é tirares a tua própria vida. A punch line aqui para mim é tu de certa forma morreres nos teus sonhos, mas acordares para a vida. Como se no último segundo em que te atiras do prédio e vais a cair te arrependes e pensas “eu faria isto tudo diferente”. Acordas e percebes: suicidei-me no meu sonho, mas tenho aqui mais uma oportunidade para fazer as cenas acontecer. De certa forma é confrontar a ideia de o meu pai, entre aspas, – é entre aspas, mas não é porque é real -, me passar a ideia de que eu só comia, cagava e dormia, com o facto de no final do dia ser só mesmo isso que queremos. Nós trabalhamos para nos reformarmos, ou seja, trabalhamos para comer, cagar e dormir. Trabalhamos 60 anos da nossa vida para depois nos últimos 10 anos fazermos exactamente isso.

A terceira faixa é a “Impulso”. Foi essa que ouvimos pela primeira vez no Festival Iminente ou tenho má memória?

Sim, sim (risos). O “Impulso” é um convite a ouvir o álbum e a entrar na vibe e na história, seja essa pessoa quem for. Seja rico, pobre, preto, branco, beto, chunga, mulher, homem. “Com pouco ou nada, coroa e cara, só não pára é mesmo assim”, ou seja, o que tu és traz para aqui que nós vamos fazer a festa, partilhar histórias e aprender uns com os outros. De certa forma seguir esse impulso, que eu acho que é uma cena muito natural que todos temos de nos conhecermos uns aos outros e de partilharmos. E eu próprio de seguir o meu impulso natural de ser feliz.

“Imediatamente”?

É uma reflexão sobre um desses pontos da minha vida em que de certa forma eu fiz uma espécie de clique. Eu nunca fui um gajo de sair muito à noite, acho que está explícito no álbum. Mas vais sair à noite e quando vens da farra para casa o teu pai está a sair para ir trabalhar. Isso foi uma cena que aconteceu, que me caiu mal e fez pensar “c’mon, isto não está certo” e justificava aquilo que ele me andava a dizer. É também a reflexão sobre a minha geração em que eu imaginei a vida de dois jovens como eu, que passam pelas mesmas coisas, mas lidam com isso de forma diferente. Eu sinto que a nossa geração dos noventas, dos millenials, tem muitas características parecidas e formas de lidar com a ansiedade, com a atenção, com o querer ser feliz também muito parecidas. Isso nem sempre nos leva para o caminho certo. Eu nunca fui muito de sair à noite mesmo, a primeira vez fui porque descobri que existiam festas de hip hop. Antes nem saía muito porque pensava que só havia festas de dançar kizomba e eu não danço muito fixe, nem bebo, bebo muito pouco. Se eu não bebo nem danço não vou fazer nada a sair à noite. Esta música é a junção dessas duas perspectivas com o facto de num dia em que saí à noite tudo correr mal. Aliás, eu também nunca saí muito à noite porque sempre tive um bocado receio de que as coisas corressem mal, ansiedades minhas com as quais me tentei confrontar neste álbum. Há aqui todo um entrelaçar de histórias e tentei criar um storytelling com o qual o ouvinte ficasse envolvido e tentasse retirar qualquer coisa para si próprio.

“Imbecis”?

O “Imbecis” é na prática o confronto de gerações. Em que tu tens uma geração mais velha que de certa forma não aceita o que a geração mais nova é até ao ponto em que essa geração mais nova vira a mais velha e passa a não aceitar o que a mais nova é. Ou seja, é o loop do confronto de gerações que existe sempre. Tanto que eu nesse som tenho uma frase que diz “o velho louco é esquecido, hoje comanda o país ontem era puto estúpido”. As pessoas que agora nos querem educar num ponto da vida delas foram putos mal educados. A música sou eu a olhar para esse confronto de gerações sem hipocrisia e tentar criar uma ponte de entendimento. Eu sei que vou ser mais velho e que os conselhos que nos dizem têm sentido, mas os mais velhos também têm de saber que sou mais novo e que tenho de aprender com os meus erros. Eu tenho o direito de errar, eu tenho o direito de ser puto estúpido e de aprender com a minha estupidez, com o facto de ser imbecil.

Repetes na música “se eu morrer isto é para sempre”. Esta frase também tem a ver com o álbum, com aquilo que queres deixar como legado?

Exactamente. “Se eu morrer isto é para sempre” para mim é a expressão que significa: se no que eu estou a fazer for eu próprio então eu não me importo de morrer amanhã. Enquanto eu seguir o meu coração eu não me importo de morrer, por mais erradas que sejam as minhas decisões. Sei que esta se calhar não é a forma mais saudável de se estar na vida, mas eu olho para isso de uma forma construtiva e acho que é importante olhar para isso de uma forma construtiva e não destrutiva para nós próprios. É só a afirmação de ser eu próprio acima de tudo e não seguir o que o outro acha que é melhor para mim porque eu é que sei o que é que é melhor para mim. Afeta-me mais se chegar à altura da morte e eu sentir que não fui eu próprio.

“Íman”?

O Íman é exatamente isso, quando tu te confrontas com a ideia de querer ser tu próprio a única coisa que tens que usar, de certa forma, é o teu íman interior, é aquilo que te atrai. Sendo que um íman tem dois polos e há um que atrai e há um que repele, tu tens de certa forma que respeitar esse teu íman interior e vai haver coisas que te atraem e outras que naturalmente vais repelir. O próprio som explica o que é que eu considero bom e negativo para mim e é a minha reflexão sobre isso.

A “Impasse” já muita gente ouviu por isso gostava que, mais do que a música em si, contasses como viste a recepção que teve. O que é que sentiste?

Duas coisas. Primeiro senti que foi um feedback muito positivo, felizmente. Está a correr muito bem. Sinto que, dentro do feedback, sendo honesto, há ali uma linha de pessoas que acham que o som é muito Slow J e pouco Papillon o que eu compreendo porque eu nunca me apresentei neste registo e o facto de eu trabalhar com o Slow J também ajuda ao facto de o som ser o que é. Porém, o som é muito Eu tanto que nós no início do processo deste álbum fomos ouvir sons antigos, sons que eu ouvia quando era puto. Eu ouvia bue Limp Bizkit e ouvia Coldplay e Muse. Sons que tinham uma carga épica, com muito power, em que tu podias não estar a perceber a letra, podias não saber o que estão a dizer, mas sentias a carga épica e a energia que transmite. Foi um bocado por aí. Eu e o Slow J em conversas chegámos à conclusão de que nós fazemos música um bocado diferente da música que ouvíamos ou que nos dá força de certa forma. Eu gosto muito de rap, rap é a minha cena, vou ser sempre rap acima de tudo, mas acho que é importante às vezes expandirmos o espectro das coisas. Se eu tinha de me apresentar da forma mais honesta eu tinha que mostrar esta faceta minha, de que eu gosto bastante e que eu sinto que é importante para quem gosta de música. Depois, por outro lado, houve pessoas que gostaram bastante e que deram-me os parabéns. Pessoas que se calhar nem nunca tinham ouvido falar de mim e foi aquela a minha primeira abordagem. Também tive pessoal mais hip hop head que estava à espera de uma coisa mais lírica.

No final do dia acho que foi um feedback muito positivo, mas tem sempre aquele nível de estranheza porque eu apresentei-me num formato de que ninguém estava à espera e isso foi premeditado da minha parte. Eu quis mesmo fazer isso para de certa forma não entrar logo diretamente para uma caixinha. Eu faço hip hop e escrevo rap e adoro, mas eu tinha plena consciência de que se fizesse um som de boom bap apresentando-me a solo eu ia ser o Papillon do boom bap. Se o meu primeiro som fosse de trap eu ia ser o Papillon do trap. Como eu não quis entrar em nenhuma das caixinhas do hip hop ou da música eu preferi entrar desta forma. Eu acho que agora não sou o Papillon de nada. Eu sou o Papillon e fiz este som! Se calhar o próximo som vai ser completamente diferente deste. Enquanto criativo o que nos dá poder é termos liberdade para criar o que quisermos. Enquanto eu tiver a liberdade de criar o que eu quiser não há limites para isto. Acho que toda a gente tem a ganhar: eu porque me consigo exprimir em qualquer direcção, as pessoas que ouvem porque eu vou ser sempre honesto, não vou estar a fazer boom bap ou trap só porque sim ou só para agradar.

 


Papillon sobre Deepak Looper: “Quero transmitir o que aprendi”


“Impressões”?

O “Impressões” vem na sequência do “Impasse”. O “Impasse” é quase aquela incapacidade que tens de ultrapassar as dificuldades e a vontade de quereres ultrapassá-las. O “Impressões” é o primeiro passo nessa direcção e sou eu de certa forma a vincar mais um bocadinho essa ideia de ser eu próprio e a ser um bocado mais específico com as coisas com que realmente me via confrontado a ser e eu não queria ser. É isso junto numa música com várias sonoridades.

“Imito”?

Para mim é uma das faixas mais importante do álbum porque mostra uma das cenas que eu aprendi ao longo da minha vida: as perspectivas. E a importância da perspectiva do outro, neste caso. Todos nós, principalmente a minha geração, crescemos com a ideia dos heróis e dos vilões, do nós contra eles, do nós somos os bonzinhos e eles é que são os maus. Acho que isso por um lado é algo positivo, que incute alguns valores, mas por outro lado pode ser misguiding, pode enganar-nos. Se nós estivermos a fazer constantemente dos outros vilões, sem entender a razão pela qual eles não concordam connosco ou porque estão do outro lado da cerca, podemos entrar em conflito desnecessário. Eu não sei se as outras pessoas do outro lado da cerca não querem exactamente o mesmo que eu. Se calhar estamos a falar do mesmo só que de perspectivas diferentes… e vamos entrar em conflito. É uma das coisas que me faz muita confusão, no mundo, é o conflito. Principalmente quando cresces e percebes que a grande maioria dos conflitos é muito desnecessária ou por coisas que são desnecessárias. É a minha reflexão sobre isso. Agora olho para as pessoas e não julgo, tento ao máximo não julgar as outras pessoas, porque eu sei que quando te vês confrontado com a ideia de conheceres a pessoa e de entenderes o que ela é realmente vais sempre encontrar muito mais coisas em comum do que aspectos que nos diferem. Acho que se todas as pessoas tivessem oportunidade de experienciar isso raramente haveriam conflitos na sociedade. Juntando às punchlines de cada verso. A punchline do herói que diz “da próxima vez que tiveres que salvar alguém salva-te a ti” – é algo que eu também aprendi ao longo do tempo. E a dos vilões que diz “da próxima vez que tiveres que matar alguém mata-te a ti”, ou seja, se aquilo em que tu acreditas é o suficiente para para matares outra pessoa acho que tu é que estás errado, tu é que és a pessoa que não devia estar aqui.

“Imagina”?

É o som com mais carga pessoal minha, é mesmo quase um espelho do meu psicológico ao longo dos anos. Como quase todas as músicas. É sempre importante não levar tudo à letra, mas o feeling está lá e as histórias são muito reais. De certa forma, sem querer estar a entrar muito deep na questão, foi um dos pontos baixos que me fez aprender outra coisa. Quando chegas a um ponto em que bates no fundo e te vês confrontado com a morte de um parente teu muito chegado pensas sobre a morte de uma forma diferente. Muitas das vezes convivemos com a morte todos os dias, mas de uma forma muito afastada, vês nas notícias “não sei quantos morreram num atentado, acidente não sei onde”. Muitas das vezes perdemos a sensibilidade disso, até que nos calha o dia de sermos as pessoas das notícias e isso faz-te reflectir. A mim fez-me reflectir na direcção em que percebi que isto da vida é a coisa mais efémero que existe e eu posso ser a próxima pessoa a estar num caixão. Olhando para a minha vida no momento em que eu estou ali a viver aquilo, sendo honesto comigo próprio, eu não estava satisfeito com muitos aspectos da minha vida. E se eu tivesse morrido naquele dia eu ia morrer não contente, não satisfeito, muito pouco realizado. Sinto que isso foi a moeda necessária para começar a jogar a sério na máquina. Imagina que a vida é tipo uma máquina de jogos e esta foi a moeda em que eu digo: agora vamos caminhar como deve ser, vamos caminhar para a realização, para a felicidade, vamos aproveitar o momento da forma mais produtiva. Sinto que desde esse momento a minha missão ficou muito clara e foi muito do tipo “já não quero perder tempo com cenas que não são necessárias na minha vida”. O meu objectivo agora é só ser a melhor versão de mim próprio e com o meu exemplo tornar as coisas à minha volta melhores.

“I’m the Money”?

É outra das aprendizagens que eu também tive – a da minha relação com o dinheiro. Eu sinto que este som é o fim de uma trilogia de sons que fiz: o som com o ProfJam em que falava sobre dinheiro, o nome do som era “Money”; o do Slow J em que falava sobre o dinheiro que é o “Pagar as Contas”. Sinto que este é o encerrar desta trilogia. De certa forma, passando pelo meu próprio processo espiritual de eu sou o dinheiro, o dinheiro que me chegar é apenas resultado daquilo que eu sou. Eu sinto que o real valor está em mim e não no dinheiro. Sinto que a relação que tenho agora com o dinheiro é mais peaceful, não estou na busca porque eu sei que vai chegar entretanto.

“Impec”?

O “Impec” é quase chegar à recta final em que já começas a ter alguma resolução, já começas a ver as coisas de uma forma mais positiva. E a perceber que todos nós somos imperfeitos e vamos ter sempre incompatibilidades com alguém. O que importa mesmo é nos respeitarmos uns aos outros, entender-mo-nos e, acima de tudo, sabermos que aquilo a que chamamos de inferno ou paraíso somos nós que fazemos aqui. Eu sinto que nós é que criamos as dinâmicas sociais, nós é que criamos os maus ambientes e ao mesmo tempo somos responsáveis por isso. É olhar para mim próprio, mais uma vez, e certificar-me de que eu tenho responsabilidade de tornar as coisas à minha volta melhores. Quero ver toda a gente bem, portanto eu tenho de estar bem e influenciar as pessoas à minha volta para estarem bem também.

“Iminente”?

O Iminente é o som de festa, o expoente máximo do divertimento, do bem estar e do te sentires bem. Esse som por acaso tem um simbolismo bué interessante para mim que é: eu cresci a gostar de música africana, mas com um certo pé atrás. Eu estive em imensas festas quando era miúdo e às tantas vês-te confrontado com a cena de teres que ir dançar. Eu nunca fui de dançar, mas eu gosto de dançar. É muito curioso, há aqui uma dança bué engraçada, dança metafórica neste caso, que é: eu não gosto que me obriguem a dançar, mas eu gosto de dançar. Gosto de me mexer livremente, mas não gosto que digam “tu danças bem ou tu danças mal”. Quando te obrigam a ir dançar e estás exposto aos olhares de toda a gente se por acaso dás um toque mais wack… isso era uma cena que não curtia quando era puto e então não ia para o meio da dança. Porém, obrigavam-me e eu comecei a crescer com o complexo de ir dançar. Mesmo ao crescer a cena de sair à noite com os amigos para uma noite africana qualquer e teres que dançar kizomba ou não sabes dançar kizomba e ficas de parte, ficas a ver. Todo esse mundo incomodava-me um bocado. Foi aí que comecei a curtir mais de hip hop do que propriamente de música africana, quase comecei a criar um mecanismo de defesa. Sentia que não me enquadrava e esse som tem esse simbolismo, quase das pazes comigo e com a música africana. E de me exprimir dentro desse registo. Além disso, sinto que esta música é tipo a parte do final feliz do filme.

O Plutónio sentia a mesma coisa que tu sentias, foi por isso que te juntaste com ele?

Sim, claramente. O Plutónio fez melhor do que o que queria, conseguiu trazer exactamente o que eu queria para o som, trazer a vibe dele de festa, a vibe dele africana. Nós falámos sobre isso antes de avançarmos com o som e é muito importante quando estamos a falar uma colaboração que o outro artista entenda a faixa. Ele entendeu e interpretou na perfeição, fez exactamente o que é suposto fazer.

Da “Metamorfose Fase II” já falámos um bocadinho…

“Metamorfose Fase II” cumpre dois papéis. Primeiro acho que vai ajudar o ouvinte a mapear o que aconteceu ao longo do álbum e entender a razão pela qual o álbum seguiu o caminho que seguiu. Por outro lado, voltando a falar do álbum como um filme, esta faixa é o som dos créditos. Além disso, é a representação da força que eu sinto que tenho actualmente e do meu poder de decisão perante as coisas que forem aparecendo no meu caminho. Sinto que agora estou mais capaz que nunca, mais forte que nunca, mais rápido que nunca. E sinto, sinceramente, que não há nada que não consiga fazer se me focar. Tenho isso mesmo muito vincado dentro de mim e sinto que esse som é a representação disso. Sinto que sou neste momento a minha melhor versão e o objectivo é continuar a sê-lo. Com toda a força que isso tem e que quero transmitir para o ouvinte, em algum momento ele vai sentir que está no máximo das capacidades e que tem o mundo ao seu dispor para seguir para onde quiser.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos