Papillon sobre Deepak Looper: “Quero transmitir o que aprendi”

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Filipe Feio [VÍDEO] Luís Almeida

A esta hora muitos terão tido oportunidade de carregar no play para ouvir o novíssimo Deepak Looper. Depois de criar um percurso sólido com os GROGNation, Papillon decidiu aventurar-se a solo e o resultado já está disponível para ser dissecado por todos.

O Rimas e Batidas teve igualmente a oportunidade de ouvir o álbum e ainda de conversar com o rapper de 27 anos que tem já muito para contar. “Não sei o que vou pensar quando tiver 37 ou 40 anos, mas para já eu aprendi alguma coisa e o que eu aprendi está aqui, é uma perspectiva nova”, sublinha Rui Pereira. Acrescenta ainda que “se for útil para quem estiver a ouvir, ainda bem”, caso contrário “é só boa música”.

Tendo contado com o apoio e com as mãos de Slow J, Papillon garante porém que é o cérebro por detrás deste trabalho e, como referiu na entrevista anterior, há muito sangue seu nas letras que percorremos com o músico. Também por isso garante que foi “premeditado” o lançamento de “Impasse” como single. Rui sabe que muitos consideram que “o som é muito Slow J e pouco Papillon”, mas que não queria que o colocassem em alguma das caixinhas do hip hop. “Eu sou o Papillon e fiz este som”, rematou ao referir que “toda a gente tem a ganhar: eu porque me consigo exprimir em qualquer direcção, as pessoas que ouvem porque eu vou ser sempre honesto, não vou estar a fazer boom bap ou trap só porque sim ou só para agradar”.

São portanto 13 faixas de uma espécie de manual da vida ou, como sublinha, “dois capítulos de um manual” que vamos poder ver ao vivo pela primeira vez no dia 13 de Abril, uma sexta-feira, no Mercado Time Out. Keso e Fumaxa juntam-se também à festa de apresentação.

Um “deep loop” de aprendizagem que Papillon quis transmitir com a certeza de que “se morrer isto é para sempre”. De resto, só mesmo as palavras dele poderão explicar como criou o seu primeiro álbum, por que deu estes títulos e esta ordem às canções e escolheu os beats de Slow J, Holly, Fumaxa, Lhast e FreshBeats para lhe carregarem as ideias.

 



Para quem só “come, caga e dorme” está aqui um grande trabalho. Como é que isto aconteceu?

Surge em primeiro lugar da minha vontade de me expressar e de afirmar a minha própria identidade e que de certa forma isso não se confundisse com outras coisas, acima de tudo. Eu sinto que o projecto foi uma cena bué pessoal e eu nunca fiz nada tão pessoal porque também nunca se justificou fazê-lo. Eu olho para o projecto como algo do tipo: “estás sozinho no teu quarto e não tens ninguém a olhar para ti, podes ser tu próprio”. Neste caso o “comer, cagar e dormir” não era para ser levado à letra, é mais aquilo a que fui exposto. Acho que quase todos os jovens passaram por isso, eventualmente, quando tens um período em que as coisas na escola não estão a correr bem ou não arranjas trabalho ou whatever e estás a viver na casa dos teus pais. Ou tens essa sensação de que não fazes nada ou os teus pais dão a entender algo assim quando dizem “já está na hora de te fazeres à vida, de te fazeres à estrada”. Foi um bocado isso! Eu sinto que ao longo da minha vida ou me vi confrontado com esse feeling ou deram-me a entender isso. Eu sempre fui um gajo de ir à luta, independentemente das coisas, mas por A mais B isso acontecia sempre.

No álbum parece que tentaste fazer uma espécie de manual da escola da vida e que a cada faixa mostras o teu crescimento. Foi isso que quiseste transmitir?

Acima de tudo quis transmitir a quem precisa aquilo que eu aprendi ao longo do tempo. Com 20 e poucos anos de idade é o que eu consigo transmitir a um jovem como eu ou mais novo. Eu não consigo adivinhar o futuro, não sei o que vou pensar quando tiver 37 ou 40 anos, mas para já eu aprendi alguma coisa e o que eu aprendi está aqui, é uma perspectiva nova. Se for útil para quem estiver a ouvir, ainda bem. Se não for, é só boa música. Mas foi mesmo intencional e premeditado querer transmitir o que eu aprendi. Não sei se é bom, não sei se é mau. No final do dia vai sempre ficar ao ouvido de cada um. E não sei se é querer escrever um manual da escola da vida, porque eu acho que para escrever um manual eu tinha que viver um bocadinho mais, o espectro tinha de ser um bocado maior. É tipo dois capítulos de um manual.

Reparei que no alinhamento dos nomes das músicas começas com “D”, acabas em “M” e pelo meio todas começam com “I”. Isso tem um significado?

Sim, sim. Não é tanto o “D” nem o “M”. Eu tentei fazer, em termos de narrativa do álbum, como se estivesses a ver um filme. No início do filme tens a abertura com o título e a introdução do conceito do álbum. Por isso é que a primeira faixa se chama logo “Deepak Looper”.

A última é a “Metamorfose” e essa é outra das ideias que quero deixar assente. Eu, sendo o Papillon, que significa borboleta em francês — nome que para um MC de batalhas pode parecer uma falha ou uma imperfeição — para mim é a cena que eu acho que tenho mais forte, o meu nome. Para mim tem um significado de evolução, que foi algo que sempre quis representar. A última faixa chama-se “Metamorfose Fase II” porque eu sinto que é a fase da metamorfose em que estou. Isso bate também certo com a capa do álbum, sendo que a borboleta tem três fases — larva, casulo e borboleta — e eu sinto que estou a meio da viagem, estou ali no casulo.

Pelo meio, todas as palavras começarem pelas mesmas letras, o significado está no facto de ter feito o álbum de uma forma muito intrínseca, muito eu a olhar para mim próprio, tentar compreender o que acontece à minha volta, mas olhando para mim próprio e confrontando-me com os meus próprios feelings e os meus medos. Quis deixar explícito que era “I’m”, isto é o que eu sou. A segunda faixa é até uma pista para isso, chama-se “1 AM” ou “Iam”, foi um trocadilho que fiz. As palavras têm quase todas duplos sentidos, mesmo o próprio nome do álbum tem múltiplos significados.

Qual é então a explicação para o nome do álbum? Tem alguma coisa a ver com o médico Deepak Chopra? E o filme Looper?

Em primeiro lugar, de certa forma criei ficticiamente uma escola da vida, a minha escola da vida, e se eu tivesse que lhe dar um nome era esse o nome que tinha. Além disso, Deepak Looper é a junção de dois nomes que têm só por si triplos signficados. Muito rapidamente, Deepak de Deepak Chopra que é o médico e filósofo com quem me identifico bastante. Li um livro que me ajudou a reconhecer aquilo em que eu já acreditava, ajudou-me a ficar com as ideias mais assentes. Deepak também significa luz e é importante para mim que este álbum termine com uma nota positiva. Além de tudo isso, tem a palavra deep lá dentro.

O Looper é uma história muito engraçada porque álbum foi inspirado em eventos repetidos da minha vida e no facto de para aprender ter tido de passar pela mesma coisa mais do que uma vez. Normalmente não escrevo em papel, vou tirando apontamentos e escrevo as minhas rimas todas no telemóvel porque para mim sempre foi muito mais prático. Primeiro porque a minha caligrafia é muito fraca, tipo quinto ano, e risco bastante, engano-me imenso. Problema, não faço backups e já aconteceu por duas e três vezes ficar sem as minhas letras todas. Mesmo no processo do Nada é Por Acaso fiquei sem as minhas letras todas a meio do álbum. No inicio era a cena que mais me incomodava, mas aprendi a aceitar isso. Tinha cenas escritas para este álbum que desapareceram também e eu tive que aceitar. O pormenor interessante do Looper é que houve um bacano, meu amigo, que se chama Nelson Looper e trabalhava na Apple na altura. Eu tinha o meu iPhone e um dia vi que tinha zero notas, quando na verdade tinha centenas de notas escritas. Ele disse-me, “olha, mano, eu posso tentar arranjar forma de recuperar as tuas notas” e eu fiquei mesmo tipo “bro, obrigado! Se me safares as notas eu faço um álbum com o teu nome”. Ele pensava que eu estava a brincar, mas sou maluco o suficiente para fazer isso, basta arranjar uma forma interessante. (risos) Outra cena é também o facto de ter loop lá dentro. O álbum um deep loop e é o que eu acho que aconteceu na minha vida para poder aprender as coisas.

 



A “Impasse” já muita gente ouviu por isso gostava que, mais do que a música em si, contasses como viste a recepção que teve. O que é que sentiste?

Duas coisas. Primeiro senti que foi um feedback muito positivo, felizmente. Está a correr muito bem. Sinto que, dentro do feedback, sendo honesto, há ali uma linha de pessoas que acham que o som é muito Slow J e pouco Papillon o que eu compreendo porque eu nunca me apresentei neste registo e o facto de eu trabalhar com o Slow J também ajuda ao som ser o que é. Porém, o som é muito “Eu”. Tanto que nós, no início do processo deste álbum, fomos ouvir sons antigos, sons que eu ouvia quando era puto. Eu ouvia Limp Bizkit e ouvia Coldplay e Muse. Sons que tinham uma carga épica com muito power em que tu podias não estar a perceber a letra, podias não saber o que estão a dizer, mas sentias a carga épica e a energia que transmite. Foi um bocado por aí. Eu e o Slow J em conversas chegámos à conclusão de que nós fazemos música um bocado diferente da música que ouvíamos ou que nos dá força de certa forma. Eu gosto muito de rap, rap é a minha cena, vou ser sempre rap acima de tudo, mas acho que é importante às vezes expandirmos o espectro das coisas. Se eu tinha de me apresentar da forma mais honesta eu tinha que mostrar esta faceta minha, de que eu gosto bastante e que eu sinto que é importante para quem gosta de música. Depois, por outro lado, houve pessoas que gostaram bastante e que me deram os parabéns. Pessoas que se calhar nem nunca tinham ouvido falar de mim e foi aquela a minha primeira abordagem. Também tive pessoal mais hip hop head que estava à espera de uma coisa mais lírica.

No final do dia acho que foi um feedback muito positivo, mas tem sempre aquele nível de estranheza porque eu apresentei-me num formato de que ninguém estava à espera e isso foi premeditado da minha parte. Eu quis mesmo fazer isso para de certa forma não entrar logo directamente para uma caixinha. Eu faço hip hop e escrevo rap e adoro, mas eu tinha plena consciência de que se fizesse um som de boom bap apresentando-me a solo eu ia ser o Papillon do boom bap. Se o meu primeiro som fosse de trap eu ia ser o Papillon do trap. Como eu não quis entrar em nenhuma das caixinhas do hip hop ou da música eu preferi entrar desta forma. Eu acho que agora não sou o Papillon de nada. Eu sou o Papillon e fiz este som! Enquanto criativos o que nos dá poder é termos liberdade para criar o que quisermos. Enquanto eu tiver a liberdade de criar o que eu quiser, não há limites para isto. Acho que toda a gente tem a ganhar: eu porque me consigo exprimir em qualquer direcção, as pessoas que ouvem porque eu vou ser sempre honesto, não vou estar a fazer boom bap ou trap só porque sim ou só para agradar.

Falando dos beats, convidaste o Holly, o Fumaxa, o Lhast e o FreshBeats. Mas como dizias na primeira entrevista, 85 por cento dos instrumentais têm a mão do Slow J. Estas escolhas foram tuas, foram do Slow J?

Foi tudo muito orgânico. Em termos de percentagens não sei bem se é 85 por cento, mas é por aí. Houve uma grande parte dos beats que foram feitos pelo Slow J, construídos mesmo aqui. Fomos criando alguns de raiz, outros beats ele já tinha e eu curtia bué e entrei. O som com o Lhast foi o Slow J que ouviu o beat, perguntou-me, “Papi, o que é que achas disso?”, e eu disse “é exactamente isso”. Escrevi e depois foi só o processo de arranjar detalhes, arranjos super rápidos. Os beats do Fumaxa já tinha numa pasta antiga, trouxemos aqui para o estúdio e demos uns toques, quase nada, só para nos certificarmos de que ficava com a vibe certa.

Os beats do Holly surgiram quase de uma conversa. O Holly foi o produtor que mais em estúdio esteve comigo e com o Slow J, convivemos bastante tempo e foi natural que algum beat dele tivesse entrado. Aliás, o “Imagina” surge por causa de uma conversa que estávamos a ter aqui. Estávamos a ouvir beats do Holly, a conversar sobre várias coisas e bateu exactamente no ponto em que ele estava a falar de um amigo dele que nunca viu os pais beijarem-se, que a relação que tinha com os pais era meio distante. Foi dessa conversa que comecei a formular o “Imagina”. Tenho um beat do Freshbeats que é um produtor super talentoso e de certa forma recente aqui no panorama. Mandou-me os beats para ouvir e eu curti muito de um.

Como é que fizeste: criaste o conceito, escolheste os beats e depois escreveste? É esta a ordem?

Pode ser essa a ordem, sim. Eu sempre fui muito fã de rappers que escrevem bem e de quem as músicas te dão qualquer coisa. Seja um feeling, seja imagens na tua cabeça, seja algo para aprenderes, uma nova forma de ver as coisas. Eu sempre fui muito fã de artistas assim. Muitas das vezes quando estou a fazer música penso: o que é que isto vai dar à pessoa que vai ouvir do outro lado? Então começo por aí. Penso nisso e depois se ouvir um beat começo a pensar em ambientes, se tem o ambiente certo para aquilo que quero dizer. Aí começo a escrever e a ver se resulta ou não. Muitas das vezes resulta, mas pode não resultar. Portanto, sim, acho que a ordem é essa que disseste: conceito, beat, letra.

Disseste na primeira entrevista que entre ti e o Slow J houve influência de parte a parte. Tanto tu nos beats como ele nas rimas. Houve discussões também? Já me podes contar melhor como foi todo o processo?

Houve um bocado de discussão, mas não foi discussão propriamente dita, houve troca de influências [risos]. Não todos os beats porque houve alguns em que o Slow J já tinha feito praticamente tudo, mas por exemplo no da “Deepak Looper” eu cheguei ao Slow J e disse, “quero algo assim”. Como ele é as mãos e eu, de certa forma, sou a cabeça por detrás do álbum, ele executou e ficou clean. Pegámos num sample da Lura, neste caso, e ficou exactamente o que eu queria. Ele adicionou umas guitarras, eu meti uns vocals e ficou mesmo lindo, até podia ter sido um som e era para ser um som só que depois no processo criativo acabou por ficar aquilo como produto final. Por outro lado, o Slow J intervinha, às vezes, não tanto na cena escrita porque a escrita foi cem por cento eu, mas mais a nível da execução. Estávamos aqui a gravar e às tantas eu tinha um terminação com uma certa entoação e ele sugeria experimentarmos de outra forma. Eu aceitava. Ou seja, havia espaço tanto para eu dizer que na produção se calhar queria mais para outra direcção, como para ele me dizer o que fosse necessário. Basicamente foi ele dar-me espaço e vice-versa, espaço para a criatividade de ambos crescer.

Sentes que cresceste como músico?

Claro, sem dúvida. Só o facto de sair da minha zona de conforto, de estabelecermos estes espaços para receber e dar feedback era logo de caras que íamos aprender um com o outro. Eu ia aprender com ele e acredito que ele tenha aprendido alguma coisa também.

Tens alguma dica para as pessoas que vão ouvir este álbum? O que é que esperas das pessoas?

Eu espero que oiçam com carinho, se não for para ouvir com carinho não faz sentido, mais vale não ouvirem. E oiçam em loop, faz sentido ouvir em loop. O álbum tem várias sonoridades para vários momentos da nossa vida, nem sempre vai fazer sentido ouvires o álbum todo. Às vezes vai fazer sentido ouvires só duas músicas, outras vezes cinco músicas, outras vezes só uma. Mas acho que é sempre importante ouvirem com carinho e ouvirem em loop.

Sobre o concerto já podes revelar alguma coisa?

O concerto vai ser no dia 13 de Abril no Time Out. Estamos a tentar apresentar um espectáculo engraçado. Vai ter mais alguns convidados e vai ser uma noite partilhada com outros artistas. Estamos a tentar que seja uma noite bonita.

DJ ou banda?

[risos] É melhor irem ver. Se forem, vão descobrir.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos