Senhores passageiros, o Expresso Transatlântico chegou à terceira paragem. Depois do EP homónimo (2021) e do álbum de estreia, Ressaca Bailada (2023), eis que o trio composto pelos irmãos Sebastião e Gaspar Varela e por Rafael Matos nos presenteiam com Trópico Paranóia.
Editado a 30 de Janeiro, com produção de Paulo Furtado (aka The Legendary Tigerman), prossegue a jornada sónica dos Expresso Transatlântico rumo a novos sons e estéticas, mantendo as linhas centrais do projecto.
Para assinalar o lançamento do novo álbum e antecipar os concertos de apresentação — marcados para 13 de Março na Casa da Música, no Porto; e para 14 de Março no Capitólio, em Lisboa — a banda concedeu uma entrevista ao Rimas e Batidas.
Qual foi o ponto de partida ou a abordagem inicial para este segundo disco? Havia a intenção de explorar estéticas ou sonoridades diferentes?
[Sebastião Varela] Queríamos pegar naquilo que já tínhamos feito e tentar ver como é que podíamos chegar ao que tínhamos na nossa cabeça, a sonoridade que queríamos encontrar… O ponto de partida foi perceber: Vamos fazer isto com quem? Vamos fazer isto sozinhos, não vamos? Para onde é que vamos? Vamos para algum lado? Tentar delinear assim um bocado o projecto todo.
E quando entraram na fase do processo criativo, foi muito diferente do primeiro álbum?
[Gaspar Varela] No anterior só compusemos em Lisboa, entre a casa do Sebas e a do Rafa, onde não era muito fácil estar a tocar bateria no terceiro andar de um prédio… Desta vez optámos então por fazer residências e sair de Lisboa. Fomos para Manteigas, para a Foz do Arelho e acabámos a gravar em Brotas, ao pé de Montemor-o-Novo. E tudo isso acho que influenciou muito o processo criativo, não é? Do nada estás fechado uma, duas semanas só a compor, só a tocarmos todos os dias sem aquelas distracções do dia-a-dia, do “olha, agora vamos beber um copinho ali” ou “vou jantar com uns amigos”. Acho que foi muito importante para estarmos mais à vontade a tocar o nosso som sem termos que estar preocupados com o barulho.
Obviamente, vocês fizeram muita estrada entre o primeiro disco e este álbum, ou o momento em que o começaram a criar. Houve coisas que nasceram, sei lá, em ensaios, nesses momentos de concerto? Ou criaram mesmo tudo nas residências artísticas que fizeram?
[Rafael Matos] Acho que a parte de tocar ao vivo é sempre importante para guardares alguma experiência para esse processo criativo, para a composição. Sei lá, dá-nos mais estaleca, ficamos mais músicos a tocar ao vivo. A questão é essa. Por acaso não sei se neste disco alguma coisa surgiu durante ensaios de concertos, lembro-me de que no primeiro surgiram bastantes, mas acho que fomos guardando algumas… Como é que hei-de explicar? Algumas emoções de cada concerto, aquele lado mais festivo do pessoal, vermos o pessoal a dançar em algumas malhas, acho que isso nos influenciou bastante para o processo de criação.
E como é que chegam ao título e conceito do Trópico Paranóia?
[SV] É um reflexo daquilo tudo que está à nossa volta, não é? Um mundo em decadência, um país em decadência, uma sociedade cada vez mais estranha. E é a nossa necessidade de tentarmos sair o máximo que conseguimos dela durante este processo, abstrair-nos, tentarmos olhar de fora com a sabedoria de ter estado lá. Perceber que era fixe ir um bocadinho para fora. É uma observação.
Ou seja, as residências também foram importantes para terem essa perspectiva, para se afastarem da azáfama do dia-a-dia e conseguirem olhar melhor para a sociedade e o mundo?
[SV] Sim, e digo mesmo de fora de nós próprios, fora das nossas cabeças quase, do dia-a-dia. Acho que isso também faz com que consigas, de certa maneira, olhar de fora. Se bem que nunca é um olhar de fora, é um olhar de dentro que tenta olhar para fora, por fora… É também uma certa tristeza e um quê de chatice e de não entendimento para com os tempos em geral, sabes? Começámos a fazer isto há dois anos. Temos uma Palestina a ser dizimada, constantemente nos nossos telemóveis. Vemos governos a marimbar-se para isso, vemos a subida da extrema-direita. Isto tudo são coisas que nos afectam diariamente, como é óbvio, porque fazem parte dos nossos alicerces morais, sociais, aquilo que quiseres chamar. Ver tudo isto a acontecer à nossa volta só nos dá vontade de tentarmos perceber onde é que nos encaixamos dentro disto. Acho que este álbum e a feitura deste álbum foi um bocado essa procura, esse confronto.
E diriam que houve mesmo a intenção que a música do álbum retratasse isso que descreveste? Ou inevitavelmente isso iria sempre acontecer, tendo em conta a maneira como vos afecta…
[SV] Acho que é a segunda opção, não fomos à procura disto. O que estou a dizer é um bocado olhar em retrospectiva. Estávamos os três um bocado aí, e as pessoas que estavam a tocar e a gravar connosco também. Acho que é difícil ficar indiferente e de ânimo leve perante estas coisas todas.
[RM] Até porque a paz reinava nos locais onde fizemos este disco e temos músicas muito densas, mesmo estando nesses locais…
[SV] Locais completamente idílicos.
[RM] Estávamos mais em paz do que estamos na cidade, mas esse lado não saiu de nós. Não consegues fugir daquilo que se está a passar, na verdade.
Claro, seria sempre inevitável que isso influenciasse aquilo que estavam a criar. E porquê trabalhar com um produtor neste disco? E porquê o Paulo Furtado?
[GV] Bom, sentimos que precisávamos de uma ajuda extra. Não só no que toca à composição… Nos discos anteriores convidámos sempre alguém para participar num tema. Desta vez sentimos que precisávamos de um produtor para trabalhar connosco, para nos ajudar a explorar as nossas ideias. E somos os três fãs do Paulo. Eu já o conhecia, mais ou menos, o Sebas e o Rafa nem por isso, a nível pessoal. E decidimos chamá-lo porque todo o universo artístico que ele tem foi uma coisa que nos interessou explorar. Felizmente correu super bem porque o Paulo conseguiu ajudar-nos imenso, ajudou-nos a explorar o nosso som. É uma pessoa mais velha do que nós, mas tem o nosso pensamento, enquadra-se. É uma pessoa que defende aquilo que também defendemos. Isso foi logo, à partida, um ponto hiper mega positivo para “vamos fazer isto juntos, estamos todos no mesmo sítio”. Acaba por ser muito lindo, na verdade. Somos três a compor, mas chega a um momento em que é preciso entrar alguém e dizer “vá, está bom, já chega, está tudo certo”.
E se calhar foi um processo que vos fez perceber que, daqui para a frente, podem repetir esse modelo, seja com o Paulo ou com outra pessoa. Trabalhar com alguém que tenha esse papel.
[GV] Pá, eu gostava.
[RM] Acho que depende da forma como quisermos fazer os próximos discos. Mas é o que o Gaspar estava a dizer. Chega a um ponto em que é muito importante teres uma pessoa que te consiga fazer ver a música de outra maneira. Porque já estamos tanto dentro dela que chegamos a um ponto em que já não conseguimos ver mais nada. Então, o Paulo ajudou-nos bastante nisso, e a encontrar os nossos sons. Nós já queríamos experimentar algumas coisas electrónicas na nossa música. O Paulo foi uma pessoa que percebeu muito bem esse lado. Desde usarmos alguns dos sintetizadores modulares dele até triggarmos partes da bateria… Mesmo alguns riffs de guitarras também puxam para esse lado mais electrónico.
[SV] Fez o trabalho que um produtor tem que fazer. Não é “agora façam isto e aquilo”. É mais: “De que é que precisam? o que é que querem encontrar?” Foi uma posição muito mais… “Ok, tu estás connosco.” Obrigadão, Paulo.
Servir a vossa intenção artística e o propósito do projecto, não impor a sua visão.
[SV] Sem dúvida.
[GV] E tudo o que tem a ver com estética, o Paulo também tem a sua estética muito presente, já vai haver coisas em que se nota que há um toque do Paulinho. Também há um propósito para o termos chamado.
Vocês falavam dessa questão de explorarem o vosso som. O primeiro álbum já tinha uma identidade bastante sólida, mas a identidade também está sempre em transformação e existem sempre coisas diferentes para explorar. Mas sentem que ainda estão nesse processo de descoberta do som que melhor vos representa? Ou, como é algo que está em constante transformação, isso vai acontecendo naturalmente de disco para disco?
[SV] Acho que dizes bem. Essa transformação é que é a cena fixe, é o que nos dá vontade de tentar e fazer o próximo. Porque se fosse uma fórmula, um dado adquirido, também não tinha interesse, não havia piada nenhuma em estar a fazer. E é um sinal de que estagnou. Não há interesse artístico em pegar numa coisa que já sabemos o que é à partida. A parte bonita é irmos à procura do som, da ideia, da maneira que for necessária, e às vezes somos surpreendidos. Por isso, tem que estar em constante transformação, mesmo que isso não signifique grande coisa para fora.
Embora haja elementos que são centrais na vossa identidade.
[SV] Claro, depois há o que nos junta aqui os três, que é fazermos isto nestes moldes. Juntarmos uma bateria com uma guitarra portuguesa e uma guitarra eléctrica, metermos uns teclados por cima, um baixo, isso acaba por ser sempre a base. Mas se calhar um dia vai-nos apetecer lançar um álbum só de triângulos, não sei.
[RM] Quem me dera [risos].
E sobre a capa do disco? Também espelha uma certa decadência, mas inclui elementos diferentes, a bola de espelhos, aquele manto vermelho na figura que aparece…
[SV] O que tentámos com a capa foi pegar nisto que temos estado a falar e transpor para uma imagem. Mas não sei quão mais consigo ou até me quero aprofundar nisto… Tentámos pegar neste sítio que imaginámos, este Trópico Paranóia, e passá-lo para uma imagem. Agora, também é giro deixar um bocado em aberto em relação a imagéticas e referências que possam existir dentro da imagem.
Agora vão apresentar o álbum no Porto e em Lisboa. Vai ser um concerto de apresentação na íntegra do disco, também vão tocar faixas do projecto anterior? Como serão esses concertos?
[GV] Na verdade, ainda estamos a prepará-los, mas, sim, é muito possível que se toque o álbum na íntegra. Pelo menos mais instrumentos vamos ter. Vai haver coisas novas para se ouvir, sem dúvida.
[SV] Mais camadas também.
[RM] Porque o álbum também as tem.
[SV] Acho que é toda uma ideia de espetáculo nova. À semelhança do que estávamos a dizer em relação aos álbuns, também é uma cena nova. Mas com base naquilo que gostamos de fazer.