No seguimento de um novo (e já bastante antecipado) álbum, os Expresso Transatlântico apresentaram-se no Capitólio no sábado passado a uma Lisboa que abraçou a “ressaca” que o grupo nos entregou em 2023. Trópico Paranoia é, para a banda, um reflexo da decadência que cada vez mais está à nossa volta e, parafraseando o que Sebastião Varela afirmou ao público durante o concerto, surge de uma necessidade de fazer, porque a resistência é precisamente isso, fazer, mesmo apenas tendo esse único objetivo. Esta afirmação, no desnorteamento natural do improviso, não deixa de ser, infelizmente, reveladora da história de um concerto demarcado por um álbum que, embora mantendo a qualidade dos projetos anteriores do grupo, não deixa de revelar a ausência de uma vontade tão proeminente de dar passos em frente. Por sua vez, quando demonstra tentar avançar, tropeça na inércia do seu trabalho passado. E como o tempo não espera por nós, quem fica inerte (ou avança aos solavancos) corre sempre o risco de ser ultrapassado.
Rescrevendo as palavras de Paulo Pena na sua reportagem do concerto de estreia de Ressaca Bailada em 2023 para o Rimas e Batidas, os Expresso sempre souberam ser “transatlânticos”, e nada melhor que o título de uma das canções do seu álbum anterior para o explicar. A sua sonoridade saltita entre um “Western à Lagareiro” e um fado clubbing, passando pela energia do rock que acentua a modernidade que o grupo injeta no tradicional, tal como vários projetos no ecossistema alternativo contemporâneo português. Já tal direção criativa era facilmente identificável no EP homónimo da banda, além de extremamente bem concretizada. Canções como “Primeira Rodada” ou “Azul Celeste” entraram rapidamente no consciente coletivo dos melómanos portugueses, e isso deve-se a quão bem estas explanam a portugalidade a uma sociedade cada vez mais interessada na mesma, talvez como resultado de uma desconexão com a nossa herança cultural na amálgama do mundo global.
Crucialmente, nesse EP o grupo conseguiu, nos seus melhores momentos, ao recontextualizar o fado, manter a característica que melhor o distingue do resto da tradição musical ibero-árabe: a sua tensão melancólica, ou de outra forma ainda mais portuguesa, a saudade que transmite, a contradição em celebrar o sentimento da perda de algo, porque ao menos isso lá esteve no passado. Aliás, até se poderá dizer que potencializou esse sentimento com recurso ao baile, num recuperar de imagens tão nossas como, por um lado, a romaria, ou por outro, o arraial. Ressaca Bailada pegou nesse começo e limou-o, sem sombra de dúvida, mas deu igualmente ligeiros indícios de um afastamento das características mais sombrias do fado, ao descentralizá-lo em benefício da adição de outras variadas influências, e ao dar mais peso ao segundo termo do seu espírito fado clubbing.
Descrever o projeto de 2023 como um álbum desconexo, no entanto, seria desinformado. A mudança de tom foi um risco que deu frutos, pela capacidade exímia da banda neste projeto de respeitar a sua denominação. No entanto, é sem dúvida um álbum que bebe consideravelmente mais da amálgama do mundo global aformencionada. Ao fazê-lo, compromete-se necessariamente a não se manter tão fiel às características mais imperativas da sua principal raiz. O caminho que decidiram tomar, embora natural, expectável e, neste primeiro capítulo do seu “diário de bordo”, atraente, podia de forma igualmente lógica levar a banda a um beco sem saída criativo se prosseguissem sem pensar duas vezes.
Trópico Paranoia, embora já deveras distante na linha temporal, é o dito e feito desta potencial consequência, e a prova “número um” é uma Lisboa também algo inerte na primeira metade deste concerto de apresentação, levando inclusive Gaspar Varela a dar chamadas de atenção à plateia, o que, em defesa da banda, a acordou. Mesmo num Capitólio já famoso por ser bem abafado, o calor humano só se começou a fazer realmente sentir em “Bombalia”, a canção que abre Ressaca Bailada, e que no concerto abriu também o seu âmbito para além deste novo álbum. A partir daí, sim, a pergunta que a banda lançou aos espectadores (“’Bora lá fazer a festa?”) antes de começar a tocar a música que dá nome ao álbum, na terceira posição do alinhamento, recebeu resposta positiva. E seria injusto afirmar que a presença, precisamente, expectante do público se deveu a uma falta de vontade do mesmo de responder aos pedidos do grupo. Trópico Paranoia, na sua plenitude de influências, ainda mais vastas do que nos esforços anteriores de Expresso Transatlântico, rapidamente soa desfocado e sem rumo, como que um malabarista que adiciona uma bola a mais do que as que consegue manipular.
Por outro lado, seria demasiadamente severo argumentar que todas as qualidades aliciantes da banda se perdem neste seu último projeto, e que as suas performances ao vivo não continuam a ser experiências valiosas. Tal como o grupo tem vindo a provar ao longo do tempo, a alta voltagem potencializa a sua sonoridade, pela qualidade de cada elemento enquanto instrumentalista, além do desbloqueamento de um novo nível de intensidade por meio de uma distorção controlada e nunca assoberbante, que também se deve à qualidade da mixagem, não obstante a presença de alguns descuidos na mesma, que foram rapidamente corrigidos sempre que apareceram. Além disso, o seu carisma acaba por triunfar na relação com o público, destacando-se as invasões da plateia por parte de Gaspar Varela. No que toca ao próprio álbum, ele continua a ser bastante dançável, embora muito mais à moda de projetos da diáspora árabe contemporânea, como por exemplo os Sababa 5, que passaram por Portugal em 2024.
Dá que pensar o que aconteceria se o trio (que em palco evolui para quinteto) se apegasse de maior forma ao legado de uns Dead Combo (apesar de já o fazer até um certo ponto). Talvez uma maior presença dessa distorção que se revela em palco no seu trabalho de estúdio desse mais nuance a um projeto que, simultaneamente, dispara em demasiadas direções, e onde várias das músicas acabam por não demarcar uma separação entre si. Além de “Avalanche”, que se afigura como a canção do álbum com mais “personalidade”, diga-se, torna-se algo fácil confundir as várias faixas umas com as outras, até pelo uso recorrente de alguns motivos ao longo do LP. E embora em concerto esta névoa seja afastada por vezes, ao valorizar cada vez menos a tutela das raízes principais do som que os viu ganhar reconhecimento, os Expresso Transatlântico tornam-se cada vez mais gimmicky na sua utilização do tradicional, e vão lentamente perdendo a sua personalidade.
Trópico Paranoia é, acima de tudo, um simulacro daquilo a que os Expresso Transatlântico se propuseram a trazer para a mesa redonda da cultura portuguesa quando surgiram em 2021. Da mesma forma, a postura do público que assistiu à apresentação deste álbum também pareceu simulada: o seu entusiasmo é mais resultante de uma inércia que respeita àquilo que o nome desta banda já carrega por culpa do seu percurso, revelando uma alienação ao que estava, efetivamente, a ver. Se é injusto afirmar que aquilo a que assistimos no Capitólio no passado dia 14 de Março pode ser classificado como um “mau” concerto, porque não o foi, tendo em conta a capacidade do trio enquanto instrumentalistas, e a sua presença contagiante, também consistiria numa imprecisão comparar em pé de igualdade este concerto a outros anteriores do grupo. Relembrando, a título de exemplo, o concerto da banda no Primavera Sound Porto de 2024, sob chuva aguerrida, num palco menor, mas com uma intensidade, energia e, acima de tudo, resposta por parte do público muito mais positiva, é relativamente fácil perceber que não vimos os Expresso Transatlântico no seu melhor.
Se é o público, ultimamente, quem dita a qualidade, então a questão crucial é outra: qual o porquê desta diferença? Embora isso seja sempre debatível e pouco consensual, quando a mudança principal entre um concerto e outro, além da sua distância no tempo, é o reportório, esse é o local mais óbvio onde ir procurar respostas. Trópico Paranoia não é Ressaca Bailada. Há diferenças consideráveis na sua direção criativa, que alteram a experiência auditiva e a própria atmosfera do álbum, indiciada pela descrição da banda sobre este novo trabalho. No entanto, em Trópico Paranoia, os Expresso Transatlântico deixaram-se levar pelo mesmo caminho que os levou a Ressaca Bailada, aumentando o seu leque de influências e paisagens sonoras, não deixando de reinserir a cultura e a herança musical portuguesa a nível imagético, mediados em especial pelo fado. A grande diferença, neste caso, é que quanto mais tentam transmitir, menos inteligíveis se tornam, misturando-se com outros projetos que se munem de outras referências, perdendo assim as particularidades que os trouxeram até aqui. É caso para dizer que o astrolábio os levou ao engano e, talvez numa embriaguez que adveio dos louros merecidíssmos que receberam com o álbum anterior, sofrem, agora sim, com a ressaca que prenunciaram. Há duas escolhas neste alto mar que navegam: tentar voltar atrás a terreno mapeado, ou encontrar o caminho pretendido de novo pelo desconhecido. A hipótese mais interessante, e que os Expresso Transatlântico devem (e sem dúvida vão) tomar, pela qualidade que já demonstraram ter, é certamente a segunda.