#EuFicoEmCasa e não me importo de pagar para ver o meu artista favorito

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Ontem arrancou o Festival #EuFicoEmCasa com a actuação, pelas 17 horas, de Bárbara Tinoco. Mais de seis horas depois, Branko fechou o cartaz do primeiro dia que contou com actuações de gente muito diversa, de André Henriques e João Pedro Pais a Boss AC e Diogo Piçarra. O festival prossegue hoje e prolonga-se até ao próximo dia 22, alinhando quase oito dezenas de artistas num gesto de consciencialização das pessoas e apelando-lhes, precisamente, a que sejam parte activa do amplo esforço de contenção da propagação do novo coronavírus ficando em casa.

Já sabemos que o mundo que vai surgir no dia depois de amanhã, aquele que se seguir ao momento em que forem oficiais os anúncios de derrota desta pandemia, vai ser diferente. Nas últimas semanas assistimos, muitos de nós atónitos e bastante preocupados, ao cancelamento de – e falando apenas do nosso país – dezenas de eventos culturais, ao adiamento e/ou cancelamento de concertos e festivais, ao fecho de clubes, teatros, salas de espectáculo, bares e restaurantes. Os prejuízos para os profissionais que dependem desse circuito são avultados e ainda não se pode sequer dizer que tenhamos perfeita consciência de tudo o que já se perdeu e ainda se vai perder devido a este autêntico cataclismo. O que sabemos, e isso é inegável, é que o tal dia depois de amanhã será necessariamente diferente.

Ontem, o Festival #EuFicoEmCasa mostrou, no entanto, uma luz ao fim deste longo e escuro túnel. As pessoas estão dispostas a adoptar outros hábitos, a considerarem novas formas de relação com os seus artistas favoritos.

Não tenho dúvidas de que não hão-de estar muito distantes novas plataformas, como já existem para o streaming de música e vídeo, que ofereçam aos artistas ferramentas para lidar com a particular actividade das apresentações ao vivo. Imagine-se uma aplicação, paga, que possibilite aos artistas vender bilhetes para espectáculos que serão transmitidos via streaming e que permitam aos fãs adquirir ingressos de vários valores que depois se traduzam em diferentes níveis de acesso à experiência: desde o bilhete ultra-vip que dê acesso ao local real de onde o concerto será transmitido, com uma pequena audiência a contribuir dessa forma para que a performance do artista em palco seja mais real, até aos bilhetes que ofereçam aos fãs a possibilidade de interagirem com o artista (pedindo canções específicas ou votando para a construção, em tempo real, do alinhamento) ou ainda, nas modalidades mais simples, desfrutar, tranquilamente, do concerto.

Mas isso será um cenário a médio prazo e a presente situação de emergência obriga a procurar soluções mais imediatas, de fácil implementação e com potenciais efeitos reais que ajudem os artistas a atravessar esta fase. Ontem percebeu-se que isso é possível com ferramentas de que já todos dispomos.

Tomem-se, como exemplo, dois artistas de dimensões e estéticas muito diferentes: Diogo Piçarra e André Henriques. O primeiro conseguiu atrair 55 mil pessoas no auge da sua actuação, o último 7 mil, números que espelham o tipo de circuitos em que cada um se move e o alcance na plataforma Instagram – Piçarra conta mais de 450 mil seguidores ao passo que André Henriques está prestes a atingir os 10 mil. Imaginemos agora que ambos, tendo gostado da experiência, decidem anunciar concertos via Instagram para breve, mas concertos de que possam tirar proveitos financeiros. Como fazê-lo? Cruzando as potencialidades do Instagram com a de uma plataforma como o Patreon, por exemplo.

Tomando como ponto de partida os números ontem alcançados por estes artistas num evento de acesso gratuito  (relembro: Piçarra – 55k; Henriques – 7k), imaginemos que 10 por cento desses fãs responderiam positivamente ao repto de se inscreverem via Patreon para um concerto a ser transmitido numa conta de Instagram privada, a que só teriam acesso os patronos devidamente inscritos via Patreon. E imaginemos que esses 10 por cento aceitariam pagar 1 euro por tal experiência. Estamos a falar de 5500 euros no caso de um artista como Diogo Piçarra, de 700 no de um como André Henriques. Mas esse seria apenas o primeiro valor. Como bem sabe quem conhece o Patreon, esta é uma ferramenta de crowdfunding que permite diferenciar níveis de engajamento dos fãs, dividindo-os por tiers de diferentes valores que se traduzem depois em diferentes recompensas. Se aos 10 por cento de fãs dispostos a pagar 1 euro adicionarmos 5 por cento de outros fãs que não se importariam de despender 3 euros para, no final, receberem uma gravação áudio de alta qualidade da performance, a coisa ganharia outro sentido: seriam mais 8250 euros que se somariam ao cachet do primeiro artista, mais 1050 euros no caso do segundo. Claro que outras “recompensas” poderiam ser propostas aos patronos por valores mais altos: receberem um CD com a gravação da actuação, um CD e uma t-shirt, um CD, uma t-shirt e um bilhete para um concerto íntimo numa pequena sala, 1 CD da gravação, uma t-shirt e o mais recente álbum do artista devidamente autografado, etc, etc. Não será um delírio absoluto projectar um resultado de 15 mil euros no primeiro caso, de 2 mil para o segundo.

Há neste momento artistas que precisam de perceber como vão pagar a próxima renda e esta poderá muito bem ser uma potencial solução para tão premente problema. Claro que concertos via Instagram não hão-de substituir a experiência real de partilhar com outras pessoas – numa sala, numa arena, numa ampla plateia de um festival – a vibração particular que se desprende da performance do nosso artista favorito. Mas poderão proporcionar outras coisas: em primeiro lugar a sensação de uma contribuição directa para o bem-estar de pessoas que admiramos, depois o acesso a conteúdos diferentes, a possibilidade de ajudarmos a escolher alinhamentos, de ganharmos registos íntimos de canções que conhecemos com outras roupagens, etc, etc. Para muitos, o acto de ficar em casa será mais recorrente no futuro e para esses o que ontem começou com este #EuFicoEmCasa poderá vir a ser a nova realidade.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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