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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

No conforto do lar com André Henriques, Elisa Rodrigues, DOMI, Boss AC, Samuel Úria e Branko.

Festival Eu Fico em Casa – Dia 1: a aprender novas maneiras

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
Às 17h30, depois da inauguração astronómica por Bárbara Tinoco, tocavam os sinos para André Henriques. O membro dos Linda Martini tencionava cumprimentar o Capitólio para lançar o seu álbum de estreia; teve que se contentar com um festival remoto. Resta saber:‌ conta como treino ou espectáculo em si mesmo? Quando a indústria telenovelística de Portugal se gaba nacional, não esconde a costela brasileira. Aliás, o maior êxito da década passada foi um remake de Dancin’ Days, novela que incendiou a Globo em 1978. No ano seguinte, não menor foi o sucesso da novela Pai Herói: importada na altura, mas, até ver, nunca recriada. Coube a André Henriques revisitar a história do patriarca André Cajarana, de quem herdou uma alcunha na escola primária. Essa é a mais breve história em Cajarana, disco abarrotado de tramas, traumas e personagens. E só tem tempo de viver no título, porque cada outro milímetro quadrado se reporta a uma narrativa orgânica e vívida.  Só um exemplo: da fantasia romântica numa bomba de gasolina, nasce uma tragédia:‌ “E de Repente” é o primeiro tema invocado pelas mãos na guitarra acústica, a voz expandida e contraída em voo. Garganta clareada, os olhos para baixo, a face serena absorta no bege da casa. “Estou há seis dias em isolamento social”, antecipa Henriques a partir da sala de estar, salvaguardando a família pelo caminho:‌ “[Esposa e filhos] estão no quarto ao lado, para não invadirem de forma selvagem o nosso momento.” Um isolamento do isolamento. Esse primeiro, produto de crise certa, faz com que os egos caiam perante a necessidade primal de segurança. E o que é a família senão a mais delicada batalha de egos, precisamente porque se têm de negar a si mesmos? “Uma Casa na Praia” é esse toca-e-foge com a persona do novo pai que já não pode voltar ao estado original de ser. “Tecido Não Tecido” é jogar às escondidas e perder tantas vezes quanto se ganha. Henriques bebe duma chávena e sorri. É febril ver este álbum ser tocado do conforto do lar, um cenário que monta e (mais vezes) desmonta em fúria criativa. Como tal, o veredicto é previsível: sem os floreados percussivos (talhe de Ricardo Dias Gomes) que fazem de Cajarana um delírio, o disco descarna-se com o poder visual esperado. Antes de pousar o instrumento, ainda há-de desfilar por “Platão Pede um Gin”, “As Melhores Canções de Amor” e “De Tudo o que Fugi”. E, claro, envia “um abraço aos pais que estão juntos com os seus filhos durante este período de quarentena.”

– Pedro João Santos


“O Dinis já está a chorar. Conseguem ouvir?”, perguntava minutos depois Elisa Rodrigues. Engavetou provisoriamente o soul e os blues enquanto esperava o filho — e reparem em como já tem idade para interromper o concerto da mamã!‌ Não foi em 2020 que o seu cartão de visita foi desempoeirado: foi finalista do Festival da Canção com uma canção ligeira como ar, orelhuda como uma vencedora. Quando acaba o seu stream com um a cappella da graciosa “Não Voltes Mais”, vinca um contraste — quase de alívio. A primeira vez que a vemos é uma pérola da cinematografia Instagram: cara dentro dum espelho incrustado, ao lado dum candeeiro de franjas; os versos de Caetano Veloso para “Sonhos” a jorrarem dela sem contenção. É kitsch, meus senhores. Para a morosa “In and Around You”, destaque do seu CD As Blue As Red, abre um portal transmodal: convida por Skype o guitarrista Feodor Bivol, que se deixa ficar para “You Don’t Know What Love Is”. Velho standard de jazz, novas modalidades de espectáculo. “Isto é tão estranho. Este é o meu primeiro directo da vida”, vai dizendo (com variações) pelo seu quarto, aos mais de 4000 espectadores. O parceiro e assistente João Barradas deixa de ser operador improvisatório de câmara para cuidar do bebé. “Temos de cuidar do nosso mundinho, do nosso universo pessoal”‌, roga Elisa, que se divide entre essa jardinagem emocional e a tarefa de propiciar “algum consolo” ao exterior. A combinar ambas as missões, não as cola com cuspo, e abraça o humor no voyeurismo.

– Pedro João Santos


O algarvio DOMI, jovem esperança com ligação contratual à Universal, foi o primeiro representante da cultura das rimas e das batidas a assumir o seu  lugar no “palco” do #EuFicoEmCasa. Apresentou-se sentado a uma secretária, com microfone e auscultadores, replicando, certamente, o contexto em que costuma criar em privado. O cenário era deliciosamente informal, sem um enquadramento “bonito” que evidenciasse algum aspecto decorativo da sua casa mais rebuscado. Informal, mas ainda assim funcional. Apesar de se apresentar sentado, DOMI não deixou de incentivar a audiência, que se cifrou em vários milhares, a meter os braços no ar, deixando claro que lá por estar separado do seu público não iria dispensar a típica interacção que dá um sabor distinto a esta cultura. Tocou os singles, claro, e mostrou que não precisa de hypeman para se aguentar sozinho ao microfone (até largou uma ou duas “bocas” sobre isso…), contando, em directo, com o feedback dos seus seguidores, de Portimão e mais além, que o impulsionaram durante toda a actuação. DOMI também compreendeu o propósito último deste espectáculo e não deixou também de usar o seu slot para reforçar a mensagem de que todos precisamos de ter cuidado, de seguir as recomendações da DGS e de combatermos lado a lado a pandemia em que estamos envoltos. Nas suas rimas não faltam esperança e encorajamento, ideias expressas em barras fluídas e desembaraçadas que têm garantido que o jovem MC algarvio tem todas as condições para se ir afirmando de forma cada vez mais intensa. A recompensa, e sinal desse espaço de crescimento, foram os significativos números de novos seguidores que acumulou durante a sua performance. Vamos certamente voltar a encontrar DOMI no Instagram.

– Rui Miguel Abreu


“Já somos 20 mil na Casa Arena”, exclama Boss AC sensivelmente a meio de “Sexta-feira (Emprego Bom Já)”, comparando a audiência que assiste ao seu concerto via Instagram com aquela que rebentaria com as costuras da emblemática Alice Arena caso o seu concerto tivesse acontecido no Parque das Nações. É de louvar, de facto, o elevado número de pessoas que centrou a sua atenção nesta importante iniciativa. Momentos antes de iniciar a sua actuação, AC alertou para a fase “sem precedentes” que estamos a viver, que só poderá ser vencida com um esforço colectivo, acrescentando que temos que levar isto “muito a sério” e destacando ainda o mar de pessoas, onde o próprio se inclui, que ficou sem emprego. O rapper voltaria a abordar este mesmo assunto no final do tema. “Esta música doeu-me porque vamos ter mesmo todos que arranjar um emprego bom”, lamentou. Sentado à mesa como um professor a leccionar a matéria (não esquecer que estamos perante um dos mais relevantes elementos do corpo docente do hip hop nacional), Ângelo César Firmino atravessou alguns pontos da sua carreira, por vezes exclusivamente acompanhado pelo instrumental, outras vezes com a guitarra ao colo, com a qual se atirou a partes de “Boa Vibe”, “Lena (A Culpa Não é Tua)” e “Tu És Mais Forte”, com esta última a merecer uma reinvenção da letra – aos invés do verso “não tenhas medo, sai à rua e abraça alguém”, AC cantou, primeiro nas cordas e depois com a ajuda do beat, “não tenhas medo, fica em casa que eu fico também”. Um excelente apontamento que terá certamente merecido entusiásticos aplausos do lado de cá do ecrã dos dispositivos móveis. Houve também momentos de descontracção e boa disposição. Primeiro, com o devorar de um prato de cachupa ao som de “Catchupa Sab”, que resultou numa avalanche de comentários na janela da aplicação; segundo, com o seu ternurento coro caseiro, constituído pelas suas duas filhas, que, além de se terem mostrado naturalmente conhecedoras do repertório servido, ainda foram intervenientes acidentais no desvio da concentração do pai, chegando, inclusive, a aterrar no seu colo em “Queque Foi”. A família é das principais estruturas da existência do ser, mas é situações como a que actualmente vivemos que se torna mais importante que nunca. E que belo exemplo de união e afecto se sentiu na casa de Boss AC.

– Manuel Rodrigues


Pelas 22h30 chega a vez de Samuel Úria se apresentar, neste festival sem atrasos e sem correrias entre palcos, em que saltamos de concerto em concerto deslizando o dedo pelo ecrã do telemóvel, só pedimos que a Internet não nos falhe e que os servidores por esse mundo fora não colapsem com a sobrecarga a que a estes dias têm estado sujeitos – esta é a hora da tecnologia nos mostrar o seu melhor. Também rodeado de alguma tecnologia, microfone e headphones, o cantautor explica-nos que a aparelhagem montada serve para atenuar o barulho e não incomodar os seus vizinhos idosos que por esta hora já estarão a descansar. Numa altura em que todos estamos em casa, o civismo, o respeito e a boa vizinhança são, mais do que nunca, essenciais. Welcome to my crib!”, saúda-nos, antecipando um concerto de discos pedidos sob o olhar vigilante do “pai” Bob Dylan lá atrás na parede. “Mãos”, do EP Marcha Atroz, a primeira do alinhamento, oferece o seu título para nos reforçar uma das campanhas mais importantes desta quarentena: lavem as mãos! Porque nesta quase distopia em agora vivemos, o mundo, refere Úria, parece ter-se transformado de repente “numa turma de segunda classe com péssimas notas a meio físico e social”. “Fica Aquém”, estreada no final do ano passado, segue-se a pedido do manager, correndo o risco de se transformar numa “berraria desgraçada” — e é bem capaz que tenha agitado algum dos vizinhos de Samuel Úria, mas a nós, pelo menos, agitou-nos o pensamento: “andamos rentes ao terreno/ é escrupuloso o nosso plano/ o povo em bruto é tão sereno/ fica aquém”. Mas que não nos faltem também momentos doces e a cover para “Lately” de Stevie Wonder, com tradução para português, mesmo com os seus falsetos traiçoeiros, faz explodir a nuvem de corações no live do Instragram. Esta cadeia de comentários nos lives é uma das experiências mais curiosas deste formato de festival, onde os nossos olhos inevitavelmente se distraem a tentar seguir o rol de mensagens de carinho e apreço para com os artistas, por entre um misto de futilidades, perguntas, conversas privadas e piadas, em que todos querem intervir — toda a experiência social de um concerto normal, condensada num mesmo canal virtual ou, como alguém comenta com desdém: “Malta que vem falar para concertos” e sim, aqui pode também ser por vezes disruptivo, mas em tempos de isolamento ajuda-nos a sentirmo-nos parte de algo comum. A meio do alinhamento uma estreia absoluta: “Um Muro” é tocada pela primeira vez e fará possivelmente parte do novo disco, com datas de apresentação marcadas para o final de Abril, que por aqui queremos acreditar optimistas que se irão manter. Aproximamo-nos do final desta meia hora, com uma dedicatória sentida à memória de Xico da Ladra, com “É Preciso Que Eu Diminua” e um desabafo de Úria: “este está a ser um ano muito difícil…”. E por momentos as palavras perdem a figura de estilo, ganhando toda a literalidade dos tempos que vivemos: “já não caibo numa casa, onde o espaço é todo meu”. É urgente que voltemos à metáfora. A despedida faz-se com a sempre bela e nostálgica balada “Barbarella e Barba Rala” e ainda alguns minutos de encore para “Em Caso de Fogo”. Este concerto de Úria fará certamente parte dessa “memória colectiva”, da sua parte boa, destes tempos estranhos e difíceis, que todos queremos olhar com distância o quanto antes e com a certeza de que juntos somos sempre melhores.

– Vera Brito


Branko foi o derradeiro artista a entrar em “palco” neste que foi o primeiro dia do Festival #EuFicoEmCasa. Munido da sua habitual parafernália de equipamento, o produtor entregou algumas das músicas que compõem o seu ainda fresco Nosso, que completou no passado dia 1 de Março a sua primeira volta ao sol. “Queria agradecer o facto de termos ficado todos em casa”, partilha nos primeiros instantes da actuação, sublinhando a importância de todos respeitarmos esta quarentena imposta pela doença COVID-19. “Reserva Para Dois” é a primeira a saltar dos altifalantes do telemóvel, numa versão que, como o próprio indicou momentos antes, foi “pensada para este formato”. Com novos elementos rítmicos e melódicos, secundados pela sempre belíssima e envolvente voz de Mayra Andrade, João Barbosa viaja por entre as nuances de um dos seus mais emblemáticos singles, socorrendo-se de um kit de pads — os quais aborda com um par de baquetas — para acrescentar apontamentos live à versão sequenciada. Acompanhado por uma iluminação simples de tons azuis e lilás, que rapidamente nos transportou para o ambiente de clubbing de, por exemplo, um Lux Frágil, Branko continuou a sua missão com a ajuda de temas como “MPTS”, “Agua Con Sal” e a novíssima “Vinte Vinte”, editada numa altura em que o novo coronavírus ainda se encontrava a consideráveis milhares de quilómetros dos nossos limites geográficos. Contudo, é em “Tudo Certo” que a celebração nas mensagens mais se sente, com vários a entoarem digitalmente o nome Dino D’Santiago e a partilharem as palavras “vai dar tudo certo”. E vai mesmo tudo dar certo. Basta paciência e disciplina. E sobretudo ficar em casa e só sair por razões estritamente necessárias.

– Manuel Rodrigues

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