[Estreia] Em “Cuidei que Tinha Morrido”, Lina e Raül Refree dão nova roupagem ao fado

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Lina, cantora, e Raül Refree, músico e produtor, uniram esforços para construir, a uma voz e duas mãos, um álbum que será editado no início do próximo ano, a 17 de Janeiro, pela Glitterbeat Records. Em primeira mão no Rimas e Batidas, “Cuidei que Tinha Morrido” é a introdução a esse encontro feliz.



A artista deixou que o “artesão” espanhol apresentasse a sua visão do que poderia ser o fado. Ao Rimas e Batidas, Lina explica os contornos desta colaboração:

“Trabalhar com o Refree foi um enorme desafio que me foi proposto pela minha manager, Carmo Cruz, que teve esta visão de me juntar a este grande produtor e fazermos este disco em conjunto. Sabia desde início que o fado levaria uma reviravolta e seria alvo de uma grande mudança pela sua abordagem musical de discos que produziu anteriormente, como por exemplo Los Ángeles de Rosalía. Tive a coragem de arriscar e de quebrar as regras. Não só porque necessitava desta mudança, mas também porque seria algo que me faria sentir livre na minha maneira de cantar e de sentir a música. E o Raul foi sensível e entendeu desde o início como trabalhar o fado e a minha voz com a particularidade da sua criatividade e musical . Foi grande a empatia e tudo fluiu naturalmente.”

Natural é uma palavra repetida pelos dois intervenientes, tanto para a escolha das canções como para a maneira como o processo fluiu. Devota de Amália Rodrigues, Lina revela-nos como aconteceu a aproximação à música da diva nacional e a depuração do alinhamento do disco que aí vem:

“Para mim, Amália é o fado todo. Comecei a ouvi-la desde pequena pela voz do meu pai e pelos discos da minha avó e comecei a entendê-la e a interiorizar mais seriamente as palavras que cantava quando morreu. Todos choravam a sua morte e eu também, sem saber muito bem porquê. A partir daí interessei-me mais pela poesia e comecei a cantar alguns dos fados que me diziam mais. Nunca cantei nada que não sentisse ou que não tivesse a ver comigo. Vesti o papel de Amália no teatro musical e fui sempre apaixonada pelos seu fados e canções.

A escolha foi natural, sabíamos que queríamos gravar fados clássicos de Amália e tínhamos muitos fados de grande riqueza e maturidade por onde escolher. Muitas vezes trauteio fados que nunca cantei ao vivo e tive oportunidade de os cantar neste projecto com o Raül. Fui mostrando um a um dos fados que eu achava que tinham potencial para se encaixar neste projecto e que poderiam agradar ao Raül e agradavam. Às vezes não agradavam tanto e passávamos a outro. Não por ele não gostar do fado, mas por não se adequar à linguagem e à musicalidade que ele queria criar. E criou ambientes e sensações diferentes em cada um deles que provocaram uma metamorfose em mim mesma que há muito queria poder mostrar.”

Deixando de lado as guitarras e rodeando-se de sintetizadores vintage e pianos eléctricos, Refree, dono de um rico currículo que inclui trabalho com a autora de El Mal Querer ou com Lee Ranaldo dos Sonic Youth, comprova, sem que o precisasse de fazer, algo que nos disse assertivamente: “Todas as coisas pequenas no mundo, até uma caixa de sapatos ou um pedaço de metal, têm a alma que o músico quer ou consegue dar. Às vezes acho que os sons que ouço à minha volta na cidade são muito mais apelativos do que canções que ouço na rádio.”

Se existem nomes como Conan Osiris, Pedro Mafama, Mike El Nite e Stereossauro a levarem o género musical, que é Património Imaterial da Humanidade, para fora do seu habitat natural, Lina parece fazer o oposto, abrindo a porta e sentando-se à mesa da casa de fados com o ousado forasteiro.