Emicida: “A minha força é conseguir juntar pessoas muito diferentes em torno de um determinado sentimento”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Júlia Rodrigues

Nunca, tanto quanto hoje, foi necessário falar de amor. Nunca, tanto como numa altura em que se pede ao mundo que feche portas, janelas e fronteiras, foi necessário olhar para a empatia, a calma ou a serenidade como recursos imprescindíveis para enfrentarmos o que quer que seja que esteja à espreita numa esquina futura. Uma pandemia ajuda, é óbvio. Mas há muito que o mundo enfrenta outro tipo de epidemias à escala global. A do pensamento assente no ódio é, talvez, uma das mais resistentes. Não há quarentena que a limite ou soluções rápidas que apontem à cura. Para o ódio ou o preconceito, só há evidências de tratamento a longo prazo e as vacinas, sabe-se, encontram-se quase sempre nos livros, na música e nas artes que, directa ou indirectamente, apontam ao diálogo e nos fazem ver outros horizontes. 

“A música é só uma semente”, mas é através dela que, ao terceiro álbum de estúdio, Emicida nos relembra da necessidade de não sermos sozinhos. AmarElo, o trabalho que chega a Portugal cinco meses depois de ser, oficialmente, lançado no Brasil, é um projecto de paz em tempo de guerras onde a maturidade e a aprendizagem se sobrepõem ao imediatismo, tantas vezes inconsequente e irresponsável. 10 anos depois da mixtape que colocaria o seu nome nas ruas, o rapper de São Paulo é, indiscutivelmente, um dos maiores responsáveis por dar novo fôlego ao género no país na última década, quer artisticamente quer estrutural e financeiramente. O exemplo traz a responsabilidade à qual, percebe-se, nunca virou costas, com uma cada vez mais inquebrantável certeza de que a força está no colectivo. 

Marcos Valle, Drik Barbosa, Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar ou até Papillon uniram-se a Emicida para reforçar os elos e entregar um trabalho de 11 faixas com produção a cargo de Nave. Uma audição mais do que essencial para nos devolver a esperança de que o amor pode, e deve, ser tremendamente revolucionário e que o rap, tantas vezes bruto e agressivo, consegue ser o melhores dos veículos. 

Porque nunca, tanto quanto hoje, precisamos de vozes que nos indiquem o caminho, estivemos à conversa com Emicida para o Rimas e Batidas, ao telefone a partir de São Paulo.



Oi!

Tudo bem?

Tudo bem e contigo?

Comigo está tudo maravilhosamente bem!

[Risos] Que bom! É tão raro ouvirmos alguém dizer “está tudo maravilhosamente bem comigo”. Isso é óptimo!

[Risos] Ah, acho que é a forma de ver a vida. Mas está tranquilo! Eu só gostaria que estivesse mais Sol porque aqui é Verão, só que está um Verão falso, esse. 

Não está bom? 

Não! Verão mentiroso. Verão Bolsonaro! 

[Risos] Bem, aqui também não está muito bom… Mas está sol, pelo menos isso. É um privilégio nosso termos sempre muito sol. Muito obrigada por falares connosco, é sempre um prazer ouvir-te, principalmente depois de ouvir este disco tão bonito. Faltam-me as palavras para o descrever, na verdade, só consigo olhar para ele como um trabalho realmente muito bonito. Todo ele me parece a mim uma espécie de sermão, o Sunday Service que o Brasil merece… Como é tu chegas até aqui? O que é que te leva a construir um trabalho onde esta serenidade, paciência e o amor estão no centro?

Há algum tempo que venho sentido que as respostas simples, as respostas superficiais que são oferecidas pelo pensamento que cria o ódio, não vão conduzir a gente para um lugar melhor. A gente precisa de orbitar em torno de algum tipo de construção. Sempre. É daí que vem a melhora. Tanto da gente como seres humanos quanto do mundo. Nesse caminho, para tentar entender até os meus erros como pessoa, como ser humano, eu fui-me aproximando cada vez mais de vários tipos de espiritualidade. Porque eu não tenho uma única forma de me conectar com o universo. Então vão existir momentos em que eu vou estar mais perto do Budismo, outros em que eu vou me comportar como uma pessoa cristã. Vão existir momentos em que eu vou estar mais próximo, religiosamente, do Candomblé e eu acho que essa viagem que eu faço por várias manifestações da espiritualidade estão me trazendo uma riqueza de perspectiva muito profunda. É bem bacana o que você falou de ser uma espécie de Sunday Service brasileiro… É interessante isso porque a gente começou a trabalhar neste álbum já faz uns cinco anos, sabe? Quando a gente viu a parada do Kanye West e o lance do gospel, a força do gospel, a gente entendeu que também tem algo que é o zeitgeist do momento. O Brasil passa por um momento muito perigoso. A percepção das pessoas a respeito do outro é muita perigosa e a gente recorre nesses momentos a instrumentos de união que são muito sagrados. A fé é necessária mas eu não quis restringir a nossa manifestação de fé a uma determinada religião ou uma determinada instituição religiosa. Eu queria que fosse ritmicamente próximo da sofisticação que a música do Candomblé oferece porque eu acho que isso é uma riqueza do Brasil, é uma especificidade brasileira que faz com que a nossa música seja muito interessante. 

Certo.

E aí, misturando essa coisa do espírito e essa coisa da música, foi onde a gente começou a construir o que veio a se tornar o AmarElo.

Quando eu ouvi o álbum pela primeira vez e estava a ouvir a “Principia”, que eu considero uma espécie de gémea da “Levanta e Anda” mas com outra força… Ou seja, é outro tipo de motivação noutro tipo de contexto, não é? Emocionei-me, até, porque senti que estamos muito cansados. A precisar dessa libertação desse cansaço. E se, na “Levanta e Anda”, estávamos nesse momento de força, de “levantar e andar”, agora estamos noutra fase…

Agora a gente está caindo de demais, ultimamente! [Risos] 

Achas que é possível fazer com que essa calma seja um privilégio que não é só da maturidade? 

A maturidade é um privilégio mas ela não é um privilégio inacessível, entende? Você precisa condicionar a sua mente para alcançar esse privilégio. O contexto do qual o “Levanta e Anda” nasceu é um de realização de sonhos. Muito profundo esse momento. E eu não tinha expectativa nenhuma de, por exemplo, tocar fora do meu país. E de repente a gente está tocando no Coachella e viajando para Nova Iorque para finalizar o disco e, aí, eu me senti caminhando dentro de um sonho só que estando acordado. Agora, a “Principia” tem uma outra reflexão, e eu concordo com você no sentido da energia das duas, só que a “Principia” ela tem uma mão que vai buscar a gente numa escuridão muito grande. E isso tem muito a ver com a energia dos últimos dois anos principalmente se você fala directo do Brasil. As pessoas aqui têm perdido as suas motivações. Acreditar. E aí eu gostaria muito de pegar nesses signos e símbolos que eu considero sagrados, que são os sentimentos. O amor é um sentimento sagrado. Nossa capacidade de reflectir sobre a humanidade enquanto sentimento conectado com todos é uma coisa sagrada. Para mim tudo isso é muito valioso e é por isso que eu queria pegar uma música que rasgasse com isso, que fizesse com que a gente se transformasse só em espírito, sabe? E a partir do momento em que todo o mundo é espírito todo o mundo é igual, novamente, sem a carne. “Principia” tem essa intenção. Sem a serenidade, sem a calma, a gente não consegue construir nada. Absolutamente nada. Talvez esse seja meu maior manifesto nesse momento. A gente precisa baixar a guarda e se conectar com a calma de novo. Só assim a gente vai conseguir ter clareza para entender, no meio do turbilhão, que a gente se encontra. 

Tens outros artistas que sinto que estão a reflectir sobre isso neste momento, também, não é? Quando falava com o Zudizilla há umas semanas sobre a importância do silêncio, por exemplo, de precisarmos parar para nos conectarmos, novamente, tanto connosco como com os outros. De ser um privilégio da maturidade mas precisarmos estender isso aos mais jovens, também… Tu tens rituais que segues com frequência? Rodeias-te de livros? Terapia? Vais à Igreja? 

Eu vou te contar uma história muita louca! [Risos] Eu sempre vou na Igreja e sempre fico com preguiça de ir na Igreja e paro de ir e depois volto! Eu queria contar isto mas, na verdade, não é só com a Igreja. É toda a instituição de religião. Eu vou para lá com determinado comportamento e depois penso que isto não tem nada a ver com espiritualidade e saio fora porque sinto que já é um código dos mortais! Eu me afasto mas eu tenho um respeito muito grande pelas pessoas que conseguem se organizar em torno de uma instituição religiosa e se conectar com sentimentos verdadeiros. Nos últimos anos eu descobri a meditação. A meditação é uma coisa que eu nunca achei na minha vida que fosse possível. De verdade.

Tinha alguns preconceitos em relação a isso, é?

É que a minha cabeça não pára! É sempre uma coisa na outra e quando eu vou ver estou no meio de um turbilhão de problemas que não tinham nada a ver com a primeira coisa que eu pensei. Isso é um resumo do que está acontecendo na minha cabeça agora! [Risos] Mas eu passei o final do ano no Vietname. Num templo, especificamente. Um templo budista. E aí conheço a escrita de um monge chamado Thich Nhat Hahn. E ele é um cara que estabelece o caminho da mudança em quatro princípios. E esses quatros princípios, por mais que eu tenha conhecido ele depois do AmarElo, eles são coisas nas quais eu acredito profundamente e estão atreladas à produção e à filosofia do disco. Quais são eles? Paz, clareza, compaixão e coragem. Esses são os quatro pilares da construção. Se a gente consegue oferecer um ambiente de paz, tudo inevitavelmente melhora. É como você dar um copo de água limpa ou um copo de água suja. As pessoas vão ter discernimento se elas estiverem num ambiente que propicie isso. A partir do momento em que elas têm clareza elas escolhem melhor entre o que é certo e o que é errado. Se elas têm essa clareza elas alcançam a capacidade de compaixão, de se colocar no lugar do outro. Então é algo que a gente precisa fazer, aprender a fazer cada vez mais, com muita urgência. E a partir do momento em que a gente alcança essa compaixão a gente chega na coragem para se levantar e tentar mudar a realidade que cerca a gente. Esses quatros princípios eles são sagrados no AmarElo e eles estão perfeitamente alinhados com o budismo, entende? E eu acho o budismo muito semelhante com o Candomblé, em algumas coisas. Os ciclos de respeito, da espiritualidade, da natureza, do fazer parte do todo, são quase que espelhados em muitas das falas das duas liturgias.

Outra coisa que é, também, perceptível é que, há medida que foste crescendo, as participações também foram aumentando e foram-se tornando mais expressivas. É mais claro para mim, hoje, que um álbum do Emicida não pode ser só um álbum do Emicida!

[Risos] Verdade!

E não é só muita gente por ser muita gente… Tem muito a ver com o que falas logo no início. Tudo é nós, não é?

É isso! Eu não acho que seja uma pessoa individual. Eu sou uma pessoa colectiva! A minha força é conseguir juntar pessoas muito diferentes em torno de um determinado sentimento. Para mim me deixa muito lisonjeado poder pegar o telefone e ligar para Pabllo Vittar, Drik Barbosa, Zeca Pagodinho, Fernanda Montenegro ou para o Marcos Valle e receber um sim eufórico deles, empolgadíssimos em poder me ajudar a contar determinada história. Isso é uma honra! São poucos os artistas, principalmente da minha geração, que têm uma mobilidade tão grande e conseguem atrelar esses nomes interessantes para uma construção tão rica. Eu me considero um cara muito sortudo, sabe? A gente tem um pensador, um escritor incrível chamado Ailton Krenak, e ele fala um pouco sobre isso. Ele tem um livro chamado Ideias para adiar o fim do Mundo e ele fala um pouco sobre a existência dessas pessoas colectivas. E eu acredito, de verdade, que toda a vitória autêntica é colectiva. As vitórias individuais não são vitórias. Elas são vitórias do sistema, da estrutura que desprivilegia todos nós. A vitória autêntica ela é plural. Ela é minha e sua, senão ela é meia vitória. Ela está mais perto da derrota, sacou?

Perfeitamente… E cinco anos, disseste-me tu, para criar esta obra. Como é que isso vai acontecendo? Porque, realmente, é um processo que envolve muita gente, muitas mensagens. Quem são as pessoas que estão sempre e como é que tudo isso se vai construindo?

Por mais que tenha um número muito grande de pessoas no estúdio, a pessoa que me ajudou a conduzir isso e foi fundamental foi o Nave, o produtor. Foi na casa dele que, há 11 anos, eu gravei algumas faixas da primeira mixtape. Eu gravei na lavandaria da casa dele. A gente pegou um microfone e, entre uma máquina de lavar e uma secadora, com o computador dele e o Fruity Loops, a gente fez algumas das minhas primeiras músicas naquele lugar. Eu tenho uma gratidão imensa por ele. Não só por ele ser o artista que ele é mas por ter acreditado em mim no momento em que outras pessoas não acreditavam. Eu queria muito demonstrar essa gratidão num momento em que a gente tem grandiosidade e estrutura para poder reconhecer o trabalho dele não só artisticamente mas financeiramente, também, e colocar ele dentro de grandes estruturas para trabalhar com profissionais que eu acredito que vão fazer o trabalho dele reluzir da forma que ele merece. Então o AmarElo segue um processo que tem uma energia profunda de gratidão. Pela primeira vez eu gravei boa parte das coisas em casa. Literalmente, em casa. Agora eu tenho um estúdio em casa que fica de frente para uma horta que eu tenho. Gravei ali, com os meus cachorros… E eu acho que isso é perceptível no disco. O Sol nascendo… A “Ordem Natural das Coisas” é o Sol nascendo lá de casa! O AmarElo, o calor que as pessoas sentem, é o calor que a gente sente quando a gente está em casa. Queria muito construir um disco que fosse um grande abraço, sabe? Uma ocasião na qual você encontra o seu amigo Emicida que faz tempo que você não via ele…

É uma “Casa no Campo”! Amigos, discos e livros e nada mais…

É isso! É essa atmosfera da “Casa no Campo” da Elis. E eu gravei esse disco onde a Elis morava! 

Sério?

Sim! Tem uma praça ali que se chama Praça Elis Regina. Eu moro perto de onde a Elis morava! É a energia da Serra da Cantareira. O mato, as flores, uns macaquinhos correndo solto…

Em termos de estética, e já tínhamos falado um bocadinho sobre isso quando lançaste a “Eminência Parda”, recorres bastante mais ao auto-tune, abraças sem pudores novas sonoridades mais contemporâneas.

Eu acho que são ferramentas que a gente pode utilizar de acordo com a nossa criatividade. Há algum tempo eu queria fazer experimentações mas eu também sou um pouco conservador em algumas coisas. E aí fico pensando em casa… E às vezes não funciona, e eu tenho que estudar um pouco mais… Tentar desenvolver isso. Mas no final das contas não está do meu agrado… Enfim. Eu acho que tinha que desenvolver isso dentro da música que a gente está construído. E no caso do AmarElo fez [sentido]. Daqui a três meses, se a gente gravar um boom bap, eu posso achar que aquilo não faz sentido nenhum. Mas, nesse momento aí, eu acho que o auto-tune é um das características do que a gente pode chamar de rap contemporâneo que fez sentido ali. Acho que a música pedia aquilo e eu fiquei felizão. Casou! E a brincadeira que a gente faz aqui é que ficou uma musiquinha de jovem, né? [Risos] 

Um jovem muito maduro. Muito adulto! [Risos]

Um jovem maduro! É o Benjamin Button! [Risos]

És o Benjamin Button da música brasileira! [Risos]

É isso aí, mesmo! [Risos]

Planos para voltar a Portugal, tens? 

Tenho sim! A gente vai tocar em Amarante no Festival MIMO, em Julho, mas acho que tem mais algumas datas por aí.

Mas podemos esperar-te por aqui este ano, isso é certo, não é?

Sim! Com certeza. Quero ir ‘tou com saudades! Preciso comer pastéis de nata. Não temos os verdadeiros aqui!

É verdade! [Risos] Emicida, muito obrigada. Obrigada por este bocadinho!

Que é isso. Obrigada você!


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto