Elza Soares: “Viver é um perigo eterno”

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Inês Ventura

Chegámos cedo à Livraria da Travessa, inaugurada recentemente no Príncipe Real (mais uma ponte aberta entre Portugal e Brasil) para uma pequena conversa com Elza Soares que, para além do concerto no Capitólio, tem também uma nova biografia para apresentar. Intitulada simplesmente Elza e escrita por Zeca Camargo, com quem partilhou casa durante quase um ano, mil histórias de uma vida tão incrível quanto trágica, que nem o guionista mais impiedoso seria capaz de imaginar. Cometemos o erro de não pegarmos imediatamente num exemplar para levarmos connosco. Quando mais tarde regressámos à livraria, não existia nem um livro para venda, e as longas filas para os autógrafos fizeram-nos recuar. Afinal, já tínhamos falado momentos antes com A mulher do fim do mundo, e ela é de todos. É preciso saber partilhar.

Elza Soares pode não ser uma pessoa a quem jorram as palavras, mas todas as que nos diz são honestas. De cabeleira dourada frondosa, camisola canarinha ao peito, maquilhagem impecável, um misto de deusa e mulher de pé no chão, a sua presença majestosa, no entanto, intimida-nos a voz e a primeira pergunta sai-nos sussurrada. Elza não ouve e pede para repetir: “pode falar, pode abrir a boca e falar à vontade!”. A sua descontracção faz-nos respirar de alívio — afinal, ela é de carne e osso como nós. E é por aí que começamos.



Queria começar por lhe agradecer por nos receber e lhe dizer que são muitos os motivos que nos trazem até aqui. Primeiro, a admiração e espanto que a Elza constantemente nos suscita.

Obrigada, meu amor.

Depois, a oportunidade e privilégio de poder ter esta pequena conversa antes do seu concerto e, também, o lançamento desta biografia, pela pena de Zeca Camargo, que me traz à memória uma frase que a minha mãe diz constantemente: “a vida é mais larga do que é comprida”.

Lógico.

E a vida da Elza, parece-me, amplia ainda mais esta expressão, em todos os sentidos. Como é que cabe uma vida assim como a sua em páginas de um livro?

É que a minha vida é comprida também, né? Ela é larga mas é muito comprida também e por ser comprida tem que se correr muito. Tem que se andar muito! E eu continuo andando, caminhando pela vida longa.

Como é que surgiu esta parceria com o Zeca Camargo, como é que se conheceram? Já percebi que viveram juntos durante quase um ano para fazerem este livro.

A parceria surgiu pelo Pedro Loureiro e o Juliano Almeida, os dois foram buscar o Zeca. Porque haviam outros escritores mas aí a gente lembrou do Zeca. Eu falei: eu quero o Zeca, eu gosto muito dele, muito mesmo! Particularmente falando, além do escritor, do jornalista, o Zeca é uma figura humana incrível. Mas foram os dois meninos, o Pedro e o Ju, que foram buscar o Zeca para escrever esse livro e eu fiquei muito honrada e muito feliz com isso.

Já leu?

Já li um pedaço. Mas a minha história eu já conheço tanto… [sorri]

Como é que foi reviver todas estas memórias, acha que o tempo às vezes nos prega partidas? 

A vida nos prega histórias e você tem que saber lidar com elas, né? Porque elas são às vezes cruéis demais. E às vezes você dribla também e sai fora dessa questão tão perigosa que é viver. Viver é um perigo eterno, né?

Agora pegando mais no Deus É Mulher, disco desta digressão, e que abre corajosamente com a afirmação: “minha voz uso pra dizer o que se cala, o meu país é meu lugar de fala”. Quão importante é, nos dias de hoje, poder dar voz a quem não a tem, no Brasil?

Olha, eu procuro dar a minha voz a todos. Tendo ou não, a minha voz está no meio dessas questões de ter ou não ter. Mas acho que é muito importante você poder dizer: “o meu país é o meu lugar de fala, minha voz uso para dizer o que se cala!”, entendeu? Eu li ontem uma frase do Martin Luther King dizendo que: o que está errado, se você não denunciar é porque você também faz parte do que está errado. E eu procuro muito não fazer parte do erro. Procuro muito denunciar sempre. O que possível for. 

E com a sua exposição internacional sente também a responsabilidade de passar a palavra lá para fora, de virar os olhares do mundo para o Brasil?

Lógico! Você tem que virar os olhares. Tem que fazer força para que isso aconteça. Olhar. Firmar o olhar e dizer e estou aqui. Estou vendo, eu quero falar.

Para além de falar abertamente e com coragem daquilo que muitos calam a Elza, neste seu disco e agora em relação à segunda música, fala também da importância de sacudir a poeira da educação. Eu confesso que sei muito pouco sobre orixás por isso fiquei curiosa em saber melhor quem é Exú…

Exú nas escolas, né?

Exacto, quem é Exú?

Exú é uma entidade que abre as estradas, que abre caminhos de todo o mundo. Muita gente tem medo do Exú porque ele é valente, porque ele é forte. Quando o Kiko Dinucci, que é o compositor, escreveu essa música, na época estavam roubando as merendas das escolas. As crianças não tinham mais as merendas. Era uma vergonha, entendeu? Então estávamos pedindo Exú nas escolas, porque a escola não pode ser só de uma religião. São todas as religiões que têm direito à escola, ao pedido de ser ou não ser. Então Exú nas escolas é um alerta, é um pedido, para que abra caminho, para que afaste os malignos e que traga de volta a comida das crianças das escolas.

A Elza, que é uma activista contra todos os tipos de preconceitos, acha que uma nova educação pode ser também o caminho para acabar com o preconceito?

O preconceito é uma palavra horrorosa, né? É horrível. A gente teve uma vitória agora muito grande com a [criminalização da] homofobia, né? Homofobia hoje é crime. Para mim isso foi uma vitória muito grande, porque eu sou contra qualquer tipo de preconceito. Homofóbico, de raça, de cor, de religião…

Esta música tem também o Edgar com a sua voz única e tem, também, alguns dos versos mais desafiantes deste disco… 

Versos muito fortes, que vão ser ditos lá no show.

Ele vai estar presente?

Não vai estar, mas tem outro menino, o Rubi, que vai fazer essa parte. Esses versos que são muito fortes de serem ditos.

A mim deixou-me a pensar bastante a frase: “se Jesus Cristo tivesse morrido nos dias de hoje com ética, em toda casa, ao invés de uma cruz, teria uma cadeira eléctrica”. Parece-me tão certeira na hipocrisia de como tanta gente vive, hoje em dia, a religião. Como é que é a sua relação com a religião? Com Deus?

Eu sou de Deus e pronto. Basta eu ser de Deus e você já é a religião de tudo. Eu jamais enriqueceria por uma religião. Cristo foi tão pobre a vida toda. Então não sei, preciso seguir Cristo.

Ainda a propósito de Edgar e de outros músicos que a acompanham nesta digressão, como o Kastrup, lembrei-me de uma recente entrevista à banda portuguesa PAUS, não sei se conhece, que estiveram em São Paulo há pouco a gravar um EP com ambos, e em que eles diziam que uma das coisas que mais os impressionou, nos dias que passaram no Brasil, foi ver a forma corajosa como as pessoas estão a reagir em tempos que nunca foram tão perigosos, como agora, para se afirmar a diferença. A Elza, que sempre se debateu pelos mais marginais, vê também essa força a surgir no povo brasileiro neste momento?

Deixa eu dizer uma coisa: eu acho que o povo hoje está muito calado. O povo já foi mais activo. Hoje eu vejo o povo meio reticente, meio perdido, meio longe da realidade. Na minha época eu via os estudantes nas ruas, buscando os seus direitos, e hoje eu não os vejo. Não tem mais. Acabou. O povo não vai mais à rua. E então quando o povo começa a brigar dentro de casa, eu digo: “vai para a rua!”, porque é na rua que você vai buscar os seus direitos de reacção.

Creio que ao longo da sua vida já foi muitas vezes ameaçada por defender as ideias. Já sentiu medo?

Não sei se tive. Para chegar onde eu cheguei nunca tive medo, então não tenho medo não. Eu sigo a minha vida em frente, entendeu? Não estou fazendo mal para ninguém. Mas sempre digo que tenho pessoas que me cercam, que é o Pedro [Loureiro] e Juliano [Almeida], e tenho também o menino que cuida de mim literalmente, o Wesley Pachu, que cuida da roupa, do cabelo, da maquilhagem, então eu tenho um trio hoje que me protege muito. Não tenho medo não, estou com eles.

Está rodeada de muito amor.

Estou sim. Obrigada, viu? [sorri]

Agora tentando antever o que é que poderá ser o concerto, eu já pude assistir a dois concertos seus cá…

Você viu o Deus É Mulher?

Não, esse ainda não vi.

Então vai ver.

Sim, esse vou ver. Mas estive no concerto d’A Mulher do Fim do Mundo, no Coliseu em 2016, e eu vi, ninguém me contou, pessoas ao meu lado a chorar, com muita emoção mesmo. Acho que nunca assisti a um momento de tamanha força assim num concerto. A Elza tem essa noção do poder da sua música nas pessoas?

Como acabei de relatar [numa entrevista anterior], eu sou muito simples, muito humilde. Eu nunca parei para ver quem é Elza. Porque na hora que eu parar para ver quem eu sou, vou deixar de ser. Então não sei, sinceramente, por Deus não sei. Prefiro ser assim.

Foi muito bonito de se ver, posso-lhe garantir. De Deus É Mulher, o que é que podemos esperar para este concerto?

Espero que você veja com bons olhos. O show em Ovar [na passada sexta-feira] foi muito forte, graças a Deus. E estou sempre agradecendo ao Valter Hugo Mãe [com quem esteve em Ovar] que é uma pessoa linda, emotiva, sincera, maravilhosa e tenho muita honra de participar da vida dele. Fico muito orgulhosa de ser uma figura citada nas leituras dele.

Acha que no concerto vamos poder todos nos reconectar à mulher que existe em cada um de nós…

Completamente.

E quem sabe encontrar Deus?

Quem sabe… Está dentro de nós! A mulher dentro de cada um não quer mais silêncio não.


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