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Egyptian Lover: “Se guardei a minha TR-808? Claro que guardei! Todas as seis!”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos reservados

Egyptian Lover é uma figura de culto no underground de Los Angeles, um dos pioneiros do som electro da Costa Oeste que continua no activo até aos dias de hoje. A Stones Throw de Peanut Butter Wolf prepara-se para lançar uma histórica antologia que reúne matéria originalmente produzida entre 1983 e 1988 e que evidencia o carácter singular do estilo de Egyptian Lover: beats com boom suficiente para fazerem tremer a terra, robóticos, plenos de funk, orquestrados em grande parte graças ao poder da TR-808.

Greg Broussard, de seu verdadeiro nome, aceitou falar ao Rimas e Batidas sobre estes novos lançamentos, sobre a sua carreira, sobre a música que o inspirou. Filho de Prince e Kraftwerk, pai de Dam-Funk e de tantos outros nomes contemporâneos da electrónica mais suada, Egyptian Lover é uma lenda viva.

Como é que surgiu este projecto com a Stones Throw?

Quando conheci o Peanut Butter Wolf ele disse-me que era um fã e que tinha vindo a um dos meus concertos quando era miúdo mas que não conseguiu entrar porque estava esgotado. Por isso sentou-se lá fora e ficou a ouvir a música. Ficámos amigos e uns anos depois começámos a falar sobre fazer uma antologia para os meus novos fãs. Eu achei que era uma boa ideia para manter o meu nome fresh para a nova geração enquanto dava aos meus fãs originais algo que nunca tinha sido lançado. Por isso juntámos uma colecção fantástica dos meus primeiros temas.

Consegues ver uma ligação entre o teu espírito independente na Egyptian Empire e uma operação como a Stones Throw?

Sim, claro que consigo. Ter uma editora independente é um sonho. Tenho estado a viver o meu sonho há mais de 30 anos. Acabei de lançar um novo álbum na Egyptian Empire chamado 1984 e com esta Anthology na Stones Throw ainda estou a viver o sonho da label independente. É muito bom vê-los tão focados na sua editora como eu estou na minha.

egyptian lover box

Recordemos o início dos anos 80. Qual era a música que ouvias e que despoletou o teu próprio desejo de fazer música?

Comecei a rappar quando ouvi a “Rappers Delight” e nunca parei. Eu fazia mixtapes com rap por cima desde 1979 e vendia muitas. Esgotava sempre. As pessoas adoravam mixtapes com rap, algo que era raro. Depois ouvi o Planet Rock e apaixonei-me pela percussão. Quando descobri o que eles usavam, comprei aquela caixa de ritmos e nunca parei de fazer beats com ela. Kraftwerk, Prince e Afrika Bambaataa são todos grandes influências na minha música.

Costumavas ir a festas em Los Angeles na altura? Consegues descrever o som, o ambiente?

Eu era, aliás, o DJ principal da maior crew de dança, a Uncle Jam’s Army. Nós fizemos festas por toda a cidade, tão grandes como na L.A. Sports Arena, com 10 mil pessoas. O som era freak, freak, freak. Música freak, pessoas freak, comportamentos freak. Dançávamos tão perto uns dos outros, a roçar, que as pessoas não podiam esperar pela próxima.

Tu vendias cassetes (as mixtapes originais) antes de fazeres os teus primeiros discos, certo? Como era uma playlist típica destas cassetes?

Cameo – Shake your Pants

Kurtis Blow  – The Breaks


 

 


 

Michael Henderson – Wide Receiver

Brass Construction – Get Up

Bounce, Rock, Skate, Roll Instrumental comigo a rappar por cima! Mixes feitas com o botão de pausa do gravador de cassetes e que chocavam toda a gente (incluindo a mim)! Basicamente tudo o que era novo e ainda não passava na rádio. Eu era bom a encontrar as boas canções em álbuns.

Falemos de ferramentas do teu ofício: quando foi a primeira vez que pegaste na TR-808?

Fui a uma discoteca chamada Radio e estive com o Afrika Islam. Ele disse-me o que eles tinham usado para fazer o Planet Rock. Fomos à loja de música no dia seguinte e comprei uma. Foi no início do verão de 1983, programei-a cheia de beats a toquei-a na L.A. Sports Arena e a multidão ficou maluca com eles. A maioria das pessoas pensou que eram discos a serem tocados, mas era apenas eu e a minha 808.

Estas máquinas trocam de mãos por uma quantia elevada nos dias de hoje. Guardaste a tua durante estes anos todos, certo?

Guardei pois. Todas as seis!


 


 

Os teus primeiros discos, como Egypt, Egypt, pareciam traduzir uma nova era tecnológica. Havia imensos filmes de ficção científica nos cinemas e os computadores domésticos estavam a começar a tornar-se uma realidade acessível. Esse ambiente influenciou a tua música?

Sim, eu adoro ficção científica e o pensamento de que computadores podiam fazer coisas que não conseguíamos imaginar. Essa foi a melhor época. O futuro estava muito aberto para ideias. Vi muitas coisas mudarem e muitas coisas tornarem-se melhores e melhores. Fui sugado para isso quando ouvi o álbum Computer World dos Kraftwerk.

Dirias que o teu fascínio pelo Egipto estava ligado a uma certa tradição da música negra, de Sun Ra a Earth Wind and Fire, onde o Egipto transmitia um certo orgulho negro?

Eu admirava o faraó Tutankhamon, um jovem faraó que liderou o seu próprio império. Eu queria fazer isso mesmo. Foi por isso que comecei a Egyptian Empire Records e geri-a eu próprio. Desde criança que me interesso por todas as coisas egípcias.

Podes falar-nos da Uncle Jamm’s Army? Vocês atuavam para multidões enormes.

Os Uncle Jamm’s Army já eram grandes antes de eu começar a ser DJ com eles, mas as minhas skills de DJ levaram-nos a sítios que nunca tínhamos esperado. O Rodger Clayton era um génio sobre quais discos tocar e em que momento tocar. Ele conseguia programar uma festa que fazia em que dançasses toda a noite. Ele ensinou-me isso e juntamente com as minhas skills de mistura tornei-me o DJ número um de Los Angeles. Tocar na L.A. Sports Arena foi um sonho tornado realidade para nós e fizemos lá 3 ou 4 atuações. Falei com o Rodger sobre fazermos um disco desde que tive uma caixa de ritmos e fizemos. Chegou à rádio e as pessoas ficaram doidas. Uncle Jamm’s Army era agora um grupo com discografia enquanto a Uncle Jam’s Army era uma crew que fazia as pessoas dançar ao vivo. Soletrado de maneiras diferentes.

Olhas para o teu trabalho na altura como um abrir de portas para projectos como os World Class Wreckin’ Cru ou o Ice T? Sentes-te um pioneiro?

Estava apenas a fazer aquilo de que gostava. Quando toda a gente gostou e começou a copiar o meu estilo não fiquei muito contente mas, pronto, eu fiz a mesma coisa com o Prince e os Kraftwerk. Tentei criar uma nova sonoridade para existir sempre. Como o que o Dean Martin fez. Independentemente do ano em que fez um determinado álbum, o Dean soava sempre como o Dean. Foi por isso que inventei a minha própria sonoridade e mantive-a. Até hoje o meu novo álbum soa como o meu primeiro. Egyptian Lover style.

Tu lançaste 1984 o ano passado e mantiveste-o old school, usaste as mesmas ferramentas e tudo. Como é que o álbum foi recebido?

As pessoas adoram-no e ainda o estão a comprar. Os meus fãs, novos fãs, DJs. Estou feliz por eles perceberem o que estou a fazer. Eles percebem que é o Egyptian Lover Style e que isso me deixa feliz. Eu gosto de fazer o que adoro e ainda assim poder atuar em festas e ser pago por isso. É incrível!


https://www.youtube.com/watch?v=ISTNqBQK7jc


Consegues ver uma ligação entre aquilo que fizeste e o que pessoas como o Dâm-Funk estão a fazer nos dias de hoje?

Sim, fazer o que amas e aquilo por que tens paixão. Não há nada como isso. Ele tem trabalhado com alguns dos melhores e ele próprio é uma estrela. Estou orgulhoso do que ele tem feito e daquilo que o futuro vai trazer dele. Além disso, é um bom tipo. Um amigo. Talvez um dia o Dâm-Funk e o Egyptian Lover façam algumas malhas freaky e funk e lancem um álbum. #DFEL

Finalmente, que artistas estão aí hoje em dia com quem gostarias de trabalhar?

Quaisquer mulheres lindas com talento. DJs com grande imaginação. Aquele gajo que está mesmo ali mas não consegue dar o salto. Eu trabalho com imensa gente e também faço remixes e remakes para eles. Tento ajudar muitas pessoas. Era tão difícil fazer tudo por mim quando comecei. Por isso ajudo os outros!


https://www.youtube.com/watch?v=ESbQc3FqHvQ

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