EARTHGANG // Mirrorland

[TEXTO] Moisés Regalado 

As comparações com os OutKast chegam tarde, mas o aguardado álbum de estreia pela Dreamville, depois de uma série de EPs e sem contar com o longo percurso independente, também podia ter vindo mais cedo. A identidade do duo, um dos seus grandes trunfos, já não é surpresa e o desafio da estreia é agora mais difícil do que nos últimos anos, ainda na ressaca do acordo que em 2017 os juntou à equipa de J. Cole, que entretanto já tinha assegurado a presença de J.I.D no plantel.

E foi precisamente ao lado do autor da saga DiCaprio, ou pelo menos num paralelo constante, que os EARTHGANG deram nas vistas e convenceram Cole a alinhá-los na sua equipa. O burburinho levantado por Strays With Rabbies e especialmente pelo single “Momma Told Me” não foi falso alarme e teve continuidade em “Meditate”, também com J.I.D, ou “Robots”, ambos sob alçada da label. Entretanto, J.I.D deu um salto de gigante entre The Never Story e DiCaprio 2 e tornou-se um dos meninos bonitos, mais até do que Bas, completamente solidificado no roaster, ou Cozz, assinado desde 2014.

A dupla de Atlanta também entrou bem — muito bem até — mas o tempo não lhes tem dado razão. Como nos EPs que o antecederam, também Mirrorland tem as prioridades invertidas. A exímia técnica dos rappers já não está, como nos idos de 2015 ou 2017, ao serviço da música, essa linguagem universal que ainda nos vai unindo, acontecendo exactamente o oposto, num alinhamento que parece construído única e exclusivamente para servir as sucessivas tentativas levadas a cabo pelos MCs para sobressair.

Tudo está bem quando acaba bem; só que não é esse o caso. Há excepções entusiasmantes, como “Avenue”, destacadíssima do resto, “Wings” ou mesmo “Swivel”, repescada da mais recente Revenge Of The Dreamers e que aqui até sobressai mais do que na tracklist original. E em Mirrorland nem há OutKast por aí além, quem sabe antes houvesse, mas há uma boa dose de Chance The Rapper ou mesmo Mos Def, como em “Blue Moon”. Pena é que haja pouco, muito pouco de EARTHGANG, esses mesmos que quase sem querer prometeram o mundo (e que agora parecem carregar a responsabilidade sem lhe conseguir aliviar o peso).

As egotrips, que tão úteis podem ser na hora de unir intérpretes e ouvintes, levou a melhor e afastou-nos ainda mais de Johnny Venus e Doctur Dot, que em conjunto respondem pelo nome de EARTHGANG. Talvez a política de edições da Dreamville não seja tão apurada quanto a de contratações, ou talvez a liberdade criativa, essa característica tão essencial para artistas e editoras independentes, tenha desta coisas.


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