Pontos-de-Vista

Alexandre Ribeiro

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Black Lives Matter.

É uma morte que não acaba nunca

“Isto parece conversa dum ditado/ Parece inventado mas isto acontece deste lado/ Mais um puto dum bairro degradado assassinado/ Eliminado por um agente do Estado/ Era bandido, era mitra, era n****/ Tinha problemas com a justiça/ Como num estado fascista capitalista/ A história será encomendada a um jornalista/ E a cabra sai matando/ O preto, o cigano, o pobre branco/ E vai matar até quando? Até o circo pegar fogo, mano”

Quem o canta é Allen Halloween em “Bairro Black”, um dos temas centrais de Híbrido, álbum editado em 2015. Desde que apareceu, Allen Pires Sanhá foi um dos grandes porta-vozes daqueles que se sentem desprotegidos por quem os devia defender (o estado e a polícia, neste caso). Fê-lo sempre sem filtros, usando toda a liberdade que a arte lhe pode dar, e puxou milhares (que não devem ter ficado longe dos milhões) para a sua beira e para a frente dos palcos por onde passava, uns por se reverem nas histórias, outros porque fantasiam serem protagonistas de narrativas que nunca serão as suas. Aos segundos, aqueles que podem voltar ao seu conforto quando o pano cai, exige-se que eduquem aqueles que estão ao seu lado, alertem e ajam perante as desigualdades que vêem à sua frente e contribuam para uma comunidade mais justa e com mais equidade. Fechar os olhos é uma forma de cumplicidade que não pode (nem deve) ser tolerada.

Em 2010, Snake foi morto por um agente da PSP, Eric Garner e Michael Brown foram mortos por polícias quatro anos depois e Breonna Taylor e George Floyd juntaram-se, em 2020, à longa lista de pessoas que se arriscaram a tudo quando, no momento do seu nascimento, tiveram o desplante de serem negras e, espante-se, respirarem. São duas condicionantes que surgem a partir do primeiro segundo em que são apresentadas ao mundo.

Floyd não é mais um. Não pode ser mais um número, uma baixa, uma casualidade. Nos Estados Unidos da América, onde morreu, no chão, com um cruel joelho a esmagar-lhe o pescoço impedindo-o de respirar, as pessoas não estão a permitir que seja apenas mais uma vítima de um crime cometido por um agente da polícia (com três cúmplices ao seu lado) de Minneapolis. Na revista Fader, Lawrence Burney fez questão que se soubesse mais sobre o homem de 46 anos e a sua breve passagem — porque abruptamente terminada — por este mundo. Originalmente de Houston, Texas, Big Floyd, era assim que assinava enquanto rapper, foi um afiliado do colectivo do lendário DJ Screw, o Screwed Up Click – podem ouvir duas das suas participações aqui.

Nos últimos dias, as manifestações foram acontecendo por vários locais dos EUA e a escalada de violência tornou-se tema de conversa, tentando-se desviar as atenção do que mais importa (e se andam às voltas com o significado de “looting”, recomendam-se as opiniões de Charles M. Blow no The New York Times,  Peter Gowan na JacobinKareem Abdul-Jabbar no Los Angeles Times e Vicky Osterweil do The New Inquiry). Porém, a pergunta, por mais radical que pareça, só pode ser uma neste momento: será que uma vida vale menos do que a propriedade privada? A resposta, arriscamos nós, é óbvia: claro que não. A retórica deste tipo de narrativa até parece ir ao encontro daquelas que se utilizaram para justificar o tratamento policial que Cláudia Simões levou em Janeiro deste ano ou no caso Marega: do lado de quem acha que o racismo ficou lá atrás (ou, mais grave, que nem sequer é um problema português), existem sempre as palavras “provocação” e “resistência” para tentar apagar a gravidade das situações.

O problema, como bem sabemos, acontece deste lado — se andam completamente alienados, ouçam esta reportagem do Fumaça ou consultem esta peça da Joana Gorjão Henriques. Num assertivo e certeiro texto publicado ontem no Público, Luísa Semedo, docente universitária na Universidade Clermont-Auvergne, mete os pontos nos Is sobre o que se passa por cá:

“Em Portugal, o polícia que brutalizou Cláudia Simões também sabe em que sociedade vive, tem consciência, por exemplo, que na última década nenhum polícia foi condenado por racismo. O deputado André Ventura conhece a sociedade em que vive, conhece o valor das vidas de ciganos e negros em Portugal. Sente-se confortável para exprimir, há anos, toda a sua ciganofobia, porque não somente não foi alvo de qualquer sanção à altura dos seus atos como ainda pôde entrar sorridente pela porta principal da Casa da Democracia. Ventura conhece a sociedade que lhe permite sugerir o regresso de uma deputada portuguesa negra para a sua terra, sem qualquer perda pessoal e política. Pelo contrário, sobe nas intenções de voto. Se o racismo fosse intolerável o deputado racista já teria sido expulso do Parlamento (aliás nunca lá teria entrado) e estaria no banco dos réus por incitação ao ódio racial, da qual a proposta de um plano de confinamento para a população cigana é mais um insuportável exemplo.

Mas o racismo é tolerável dentro do Parlamento, é tolerável na sociedade portuguesa, na americana, na francesa, no nosso mundo. E tolerar o racismo é ser racista. É admitir a existência de cidadãos de segunda, que a justiça não seja igual para todas e todos. É aceitar que não façam parte da família. É permitir que a criança negra ao ser testemunha dos últimos instantes de respiração de Floyd seja também ela transportada para aquele chão e sufoque e chore sabendo que este não é nem o princípio nem o fim do pesadelo. O racismo é terrorismo.”

A educação de um indivíduo pode acontecer em três “lugares”: na escola (que precisa de explicar, contextualizar e retratar mais e enaltecer menos os “feitos” dos Descobrimentos, por exemplo), em casa (não há idade ou passado que justifique o ódio; é importante ser-se o contraponto para o que está errado) e no grupo de amigos (até que ponto é que se deve ser parceiro de alguém que não compreende – nem quer compreender – o quão perigosas são as generalizações relacionadas com tom de pele ou credo religioso).

A nós, todos aqueles que têm o privilégio de correr livremente sem que se ache que estamos a fugir de algo, que andam em grupo sem que se levantem suspeitas ou que podem circular à noite sem que um carro-patrulha faça uma busca intensiva no nosso carro sem qualquer razão aparente, há a exigência de sermos melhores, de não só celebrar a música de PlutonioWet Bed Gang, Landim, Força Suprema, Allen Halloween, Valete, Julinho KSDMynda’GuevaraTristany, NennyChullage ou Dino D’Santiago como também de tentar entendê-la. As histórias que essa música conta, os cenários que descreve, o som de que é feita, as palavras que nela são rimadas. Se “branco ku pretu um gerason di oru” é um mote real para a união ou se a comunhão fica fechada em salas como o B.leza e o Musicbox quando chegam ao fim as sessões das noites Na Surra e Príncipe.

A cada momento que sustemos colectivamente a respiração, existe sempre alguém que fica retido nesse instante para sempre. Por esses que não podem voltar a respirar, resta-nos contribuir para que todos possamos fazê-lo de forma igual, sem constrangimentos de qualquer ordem. E chega de meias-palavras: “quem não é anti-racista é racista ponto final parágrafo end of story”.


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