Dreamville // Revenge of the Dreamers III

[TEXTO] Moisés Regalado

A teoria diz-nos que tudo está bem, até porque esta compilação parece ser apenas e só sobre rap; sobre instrumentais erguidos sem grande ciência, assinados por nomes relativamente desconhecidos; sobre posse cuts em formato quem-mata-quem, com direito a rimas em catadupa e quase sempre direccionadas à concorrência; e, acima de tudo, sobre a fome com que J. Cole mantém a Dreamville.

Cole não é o primeiro nome grande a erguer uma estrutura de respeito e certamente não será o último, só que nem por isso se pode comparar esta com outras ilhas que tão bem conhecemos. Ao contrário de Dr. Dre ou Jay-Z, o compromisso maior de J. Cole não é com a indústria ou com a compra e venda de percentagens. Por oposição a Drake e à sua OVO, cujos associados parecem funcionar como meros operários ao seu serviço, há na Dreamville uma genuína intenção de alavancar os artistas da casa.



Por isso mesmo, não será de estranhar que os grande momentos da compilação pertençam ao homem de DiCaprio 2, aqui chegado para se afirmar em definitivo como menino bonito da label. Claro que J. Cole, relativamente discreto ao longo do alinhamento, puxa para si todas as atenções quando se aproxima do microfone, e a determinação com que trancou os versos de “Oh Wow” ou “Rembrandt” não está ao alcance de qualquer um — afinal, estamos a falar do homem que tirou 2018 para se especializar na arte de matar featurings –, mas J.I.D. é um daqueles intocáveis que só aparece de tempos a tempos.

Sem a sua presença haveria pouco a dizer sobre o terceiro volume de Revenge of the Dreamers e temas como “Down Bad”, “Costa Rica” ou “Ladies, Ladies, Ladies” não teriam argumentos para sobressair, mesmo com Bas e T.I. ao barulho. Na verdade, só os autores de “Off Deez” é que trouxeram consigo o brilho que normalmente os caracteriza — a dupla Earthgang ficou aquém, Bas e Cozz não deram sinais de grande vitalidade (a genérica “Don’t Hit Me Right Now” não faz justiça ao talento de nenhum deles) e Saba, Smino ou DaBaby não conseguiram dar continuidade à excelência que recentemente os distinguiu.

A aposta vencedora em J.I.D. ficou novamente provada, e já ninguém duvida dos dotes de Cole para fazer música em equipa, mas as consequências fizeram-se notar e o fosso que os divide do restante plantel ficou definitivamente destapado. Embora a filosofia de Jermaine Cole não se tenha confirmado mais válida que a de Jigga, Dre ou Drake, seja feita justiça: o que separa J.I.D. dos seus camaradas não é, na essência, uma questão de talento, e a validade da Dreamville não depende do maior ou menor sucesso dos trabalhos colectivos. Pelos vistos, e embora a teoria nos dissesse que tudo estava bem, nem sempre pode ser apenas e só sobre rap.


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