Dr. Dre: uma sinfonia de génio em 10 movimentos

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Dr. Dre é um veterano. Completou 50 anos em Fevereiro último e é natural que já não sinta a mesma fome que anima jovens leões como Drake ou Kendrick Lamar. E talvez essa seja a explicação mais lógica para que Detox nunca venha, afinal de contas, a ver a luz do dia. Foi aos microfones do seu programa na Beats 1, a “rádio” do novo serviço de streaming da Apple, que Dre explicou que a espera de 16 anos chegará ao fim já no dia 7 de Agosto quando Compton: A Soundtrack for editado.

Trata-se de um disco inspirado por Straight Outta Compton, a biopic que leva ao grande ecrã a carreira dos míticos N.W.A., grupo de Dre, Ice Cube, Mc Ren, Eazy-E e DJ Yella (e Arabian Prince durante para aí cinco minutos…). As revelações foram feitas durante o programa The Pharmacy que Dr Dre mantém na rádio que carrega o nome da sua outra grande invenção, a famosa marca de auscultadores que se transformou em mina de ouro nas suas mãos e acabou por motivar um negócio de muitos milhões com a mega corporação Apple: “Vai ser o meu grande final. O disco é incrível”, garantiu o produtor. Com estas revelações, Dr. Dre colocou igualmente um ponto final nas especulações que rodeavam o seu há muito anunciado, mas eternamente adiado Detox, o disco que deveria ter sucedido a 2001, o seu último trabalho de originais que já data de 1999.

O novo disco promete: capa excelente, alinhamento de luxo com participações de Eminem, Kendrick Lamar, Xzibit, Ice Cube, Snoop Dogg ou Jill Scott, entre outros (mas nenhum sinal de The Game ou 50 Cent, por exemplo), mas nada sabemos sobre a sua qualidade. No final o disco poderá até ser um fiasco artístico (embora essa seja uma possibilidade real, quero acreditar que seja igualmente remota…), mas isso não nos deve fazer esquecer que Dr. Dre é um gigante. E para garantir que não nos esquecemos, eis 10 cápsulas para nos aguçarem a memória: cinco samples em que Dre pegou transformando depois passado em presente, memória em acção, samples em royalties chorudos. Cinco samples que deram cinco clássicos. 10 rebuçados. 10 cubinhos de açúcar para os ouvidos.

 


 

[LEON HAYWOOD] “I Want a Do Something Freaky With You”
>> [SNOOP DOGG FEAT. DR. DRE] “Nuthin’ But a G Thang”

De Leon Haywood até Snoop, de uma acetinada jam para derreter calcinhas, para uma bomba g-funk.

 


 

[DAVID MCCALLUM] “The Edge”
>> [DR. DRE FEAT. SNOOP DOGG, KURUPT & NATE DOGG] “The Next Episode”

De David Axelrod, génio produtor e arranjador que na década de 70 inundou estúdios de classe vergando orquestras inteiras a uma visão absolutamente original da música, transportando estrelas de jazz, de séries de televisão ou até de rock psicadélico até à eternidade, de David Axelrod, dizíamos, até mais uma bomba com os doggs Snoop e Nate que é mais Califórnia que miúdas de bikini dentro de descapotáveis a circularem à sombra de palmeiras…

 


 

[PARLIAMENT] “Mothership Connection (Star Child)”
>> [DR.DRE] “Let Me Ride”

Dos aliens da mothership Parliament comandada por George Clinton para um clássico que é mais gangsta do que Al Capone em dia de massacre de São Valentim.

 


 

[LABBI SIFRE] “I Got The…”
>> [EMINEM FEAT. DR. DRE] “My Name Is”

De Labi Siffre para Eminem, de um par de segundos de arranjo genial, para um monólito hip hop quase sem precedentes: só um génio seria capaz de descobrir uma bomba de origem britânica e fazê-la detonar em Detroit com um rastilho acendido em Los Angeles. Fosse todo o terrorismo assim…

 


https://www.youtube.com/watch?t=84&v=FWOsbGP5Ox4

 

[JOE COCKER] “Woman to Woman”
>> [TUPAC FEAT. DR. DRE] “California Love”

De Joe Cocker para Tupac vai a distância que separa, vá lá, o futebol dos matraquilhos sendo que aqui, claro, Tupac é o Eusébio da metáfora e o recentemente desaparecido Cocker – paz à sua alma – aquele bonequinho sem braços preso a uma barra de ferro no jogo parado à porta do café de bairro. Como é que se pega num tema chamado “Woman to Woman” e se transforma isso num clássico maior do que a vida de título “California Love” acrescentando Roger Troutman à receita? É preciso, lá está, ser-se um génio…

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu