Do hip hop tuga, com amor. Ass: Raquel Soares

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos

Quem nunca enviou uma música de hip hop português à cara-metade que atire a primeira flecha! O rap tuga sabe ser romântico e não faltam rimas para o provar. Desde “Mulher que Deus Amou” do Educação Visual de Valete em 2003, a “Côr de laranja” de Ace, do mesmo ano, passando por “Princesa (Beija-me outra vez)” de Boss AC em 2005 ou “Jungle Fever” de Sam The Kid na reedição do Pratica(mente). Mais recentemente podemos nomear “As Coisas”, de Valas, “Essa Saia” de Bispo ou “+351 (Call me)” de NENNY. A lista é interminável e até já fizemos uma selecção para este estado de alma aqui. Porém, além do romantismo claro e assumido, há quem seja capaz de ver amor em muito mais.

É o caso de Raquel Soares. A designer, fã de hip hop nacional, transformou rimas dos poetas nacionais em obras de arte que são a prenda ou a partilha perfeita para este Dia de São Valentim, que é já amanhã. O Rimas e Batidas esteve à conversa com a artista que acredita que “palmadas no ass não são problema se todos os envolvidos acharem que são uma bless”. Deixamos-vos os Random Kitsch Postcards. Usem-nos bem, identifiquem a artista e “façam o favor de ser felizes”.



Como surgiu a ideia?

A ideia de fazer estes postais surgiu após falar sobre algumas letras do hip hop português numa conversa entre amigos e de como a língua portuguesa permite um misto de sensualidade sexual como mais nenhuma. O primeiro postal foi já feito em 2019, o postal com o excerto da “Dr. Bayard”, e a discussão que gerou no meu círculo de amigos sobre o mesmo motivou a edição alargada de 2020.

Porquê ligar hip hop tuga com arte clássica?

Acredito que parte da criatividade é olhar para coisas que à partida não têm ligação e criar essa ligação. Visualmente, são imagens que sendo facilmente reconhecidas permitem ao texto ter um peso muito maior (e talvez levar alguém que reconheça a Mona Lisa a conhecer também Papillon). 

Consideras que existe romantismo no rap tuga? Como é que o descreverias?

Diria que o rap tuga é dos estilos liricamente mais ricos em Portugal, e que por isso aprofunda e fala mais aberta e sinceramente sobre vários temas do que qualquer outro género (um óptimo exemplo disto é a “Lágrimas” do Slow J e a discussão que pretende promover sobre o aborto espontâneo) . Acho que a importância lírica é inerente ao hip hop e que por isso o que se faz por cá espelha isso mesmo. Acho difícil descrever o romantismo do rap tuga de um só modo, pois há exemplos do mais boémio ao mais clássico. 

Nos dias que correm, em que tudo é qualquer “ismo” e as sensibilidades estão mais à flor da pele do que nunca, tu sendo mulher acabas por brincar com estas linhas muitas vezes pouco queridas às mulheres. Porquê? É importante levar pouco a sério algumas “bocas”?

A cultura hip hop está directamente relacionada com a glorificação e normalização da misoginia e da objectificação da mulher, e, infelizmente, são inúmeros os exemplos disto. Acredito porém que é possível trazer consciência e mudança para a mesma, e que a própria cultura tem já exemplos de que se pode reinventar e que pode “ensinar-se” a si mesma, podemos olhar para exemplos como “Lágrimas / Nada É Garantido” dos GROGNation, que fala sobre o que é esperado de um homem e diferentes perspectivas sobre esse mesmo estereótipo. Acho que a melhor forma da cultura evoluir é falando sobre o assunto, e acho que o aproveitar estas linhas é uma pequena forma de o fazer. Mais que levar ou não a sério, é potenciar a conversa sobre o assunto: palmadas no ass não são problema se todos os envolvidos acharem que são uma bless.


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos