DJ Marfox e as políticas da dança (II): a integração pelo ritmo e a transformação de Portugal

[FOTO] Ricardo Miguel Vieira

 

A força presente de DJ Marfox é inegável: figura de proa da Príncipe, liderou no passado dia 26 a embaixada da Batida de Lisboa, como lhe chamou Nídia Minaj, que o Boiler Room difundiu para o planeta internet e na noite seguinte teve honras de fechar a programação do MED, festival de músicas do mundo de Loulé, com um devastador set que se seguiu a uma actuação incrível dos Ferro Gaita, um dos expoentes máximos do funaná cabo-verdiano. Há mais: Marfox será igualmente nome importante nos cartazes dos festivais Bons Sons e O Sol da Caparica, dois eventos que erguem a bandeira da música portuguesa e da lusofonia como marca distintiva da sua oferta musical. E é tempo de parar e de pensar um pouco no que tudo isto implica, no que tal agenda pode significar.

Não é de todo um delírio pensar no que uma singela invenção musical cozinhada no Bronx há 40 anos pode ter a ver com o que borbulha neste momento na periferia de Lisboa. Quem pense que o crescimento do hip hop e a sua imposição como linguagem global nada tem que ver com essoutra fórmula musical que há já alguns anos vem a ser apurada nas margens da nossa capital porque a escala dos mercados é igualmente muito distinta, pode parar um pouco para pensar no que ocorreu com outra cultura musical desenvolvida noutra periferia: refiro-me, claro, à música jamaicana e ao seu impacto global nas últimas quatro décadas. Se é verdade que a escala do mercado americano ajuda a explicar o sucesso do hip hop, tal argumento não pode ser invocado em relação à Jamaica, minúscula economia de menos de três milhões de habitantes que ainda assim logrou exportar com sucesso uma ideia, um som, uma prática e uma cultura. Poderá o mesmo acontecer com a Batida de Lisboa?

Não é uma questão de somenos, a ideia de exportação de um som e de uma cultura musical puramente lisboeta. E até se pode verificar que esse processo já está em marcha: DJ Marfox viaja constantemente, a Warp edita música da Príncipe e conceituadas publicações internacionais procuram medir o pulso a esta música que se vai infiltrando nos circuitos globais. Nem só de fado terá que viver a nossa balança comercial musical.


Nem só de fado terá que viver a nossa balança comercial musical.


Mas importa agora pensar um pouco mais fundo nas implicações internas do crescimento da Batida de Lisboa. Na plateia do palco Matriz, o mais importante no cartaz do MED, tal como de resto na mais concentrada plateia do Musicbox, misturam-se classes e cores como talvez em nenhum outro momento da nossa história musical urbana. Haverá outros fenómenos musicais que concentrem atenções de diferentes classes sociais – o fado é o exemplo mais directo – e outros géneros que apelem a gente de diferentes tons de pele – o hip hop é aí o exemplo óbvio -, mas talvez só agora surja um género que seja transversal a esses dois diferentes vectores sociais: o do estrato económico na sociedade e o da origem cultural.

Os grooves fundos, cortantes, electrónicos e sinuosos de DJ Marfox fazem sentido em Cascais e na Quinta do Mocho, em Loulé e em Lisboa, e essa é, provavelmente, uma situação inédita no nosso país. Dr Dre também percebeu há muito tempo que o gangster rap dos N.W.A. apelava com idêntico fervor a brancos e a negros e apoiou nessa simples constatação uma ideia que lhe permitiu erguer um império cuja consequência presente é a sua integração na corporação Apple. Mais ainda: o que o hip hop fez pela sociedade norte-americana desempenhou um papel decisivo na chegada de Barack Obama à Casa Branca (e por isso mesmo nem é de estranhar que haja hoje quem pense que o hip hop deveria ser proscrito na América). Poderá idêntica transformação social ocorrer em Portugal?

Estamos, claramente, no princípio de um longo caminho. E há outros factores históricos que tornam o caso português demasiadamente particular para se poder extrapolar algum tipo de conclusão a partir da análise de culturas diferentes. Mas a verdade é que o que se sente na plateia do MED – com gente de ambos os sexos, de todas as cores e com marcas exteriores claras que identificam diferentes classes a dançar em total harmonia e sem qualquer tipo de separação – é algo que nunca antes se experimentou em Portugal. E todas as árvores começam por ser sementes.


A Batida de Lisboa poderá ser a banda sonora de uma transformação profunda, como a soul foi na América durante o período do Movimento dos Direitos Civis ou o hip hop no período pós-Reagan.


A Batida de Lisboa poderá ser a banda sonora de uma transformação profunda, como a soul foi na América durante o período do Movimento dos Direitos Civis ou o hip hop no período pós-Reagan. E essa Batida, informada pela história do house e do techno, pela experiência cultural africana dos subúrbios erguidos sobre os escombros do império, por décadas de escolas públicas onde toda a gente se cruza, pelos fluxos permitidos pela internet e pela democratização do acesso às ferramentas da era digital, é uma Batida diferente, criada por gente diferente e que pode ajudar a erguer um futuro diferente.

Certo, certo, é que os próximos capítulos desta história que continua a ser escrita todos os dias vão ser excitantes e impossíveis de perder. Venha então o futuro.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu