Diggers Dozen: o paraíso do diggin’ ao alcance de um clique

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

Operado por Maxwell Pastor, o Diggers Dozen é um projecto muito simples: pretende, obviamente, chamar atenção para aquelas pérolas em vinil que todos os diggers – sejam eles coleccionadores, músicos, dealers, DJs ou produtores (ou até tudo ao mesmo tempo, veja-se o caso de Malcom Catto) – procuram e desejam e consegue-o através de uma plataforma em que junta o resultado de uma série de desafios lançados a diggers de pergaminhos inquestionáveis. A ideia é cada um pegar em 12 discos, em vinil original (não valem bootlegs, compilações ou reedições) e dessa forma pintar um retrato: de si mesmo, dos seus gostos, de uma época, de uma sonoridade.

 



No Mixcloud há uma incrível colecção de sets a cargo de notáveis, os mais recentes dos quais datados de Outubro passado. Gente como Chris Menist (da Paradise Bangkok), Dj Food (Ninja Tune), Jonny Trunk (Trunk), Mr. Thing (da BBE) ou, entre tantos outros, Ollie Teeba (Herbaliser, Soundsci) já respondeu ao desafio da Dirty Dozen. E ouvir cada uma dessas respostas significa mergulhar num universo de samples e breakbeats, de malhas obscuras de funk, krautrock, library music, exotica, soul, disco, gospel, jazz, afrobeat e o que mais vier à baila. Claro que, obedecendo ao código de secretismo que impera no universo do diggin’ mais sério, a informação é escassa. Mas como muito bem sabe quem procura discos regularmente, a busca é metade da aventura.

 



Além de toda a música facilmente acessível no Mixcloud, o site Diggers Dozen oferece também uma loja recheada de pérolas originais em vinil: rock psicadélico, exotismos variados, rodelas de library, jazz, funk e breaks a rodos é o que se pode esperar da selecção de vinil da Diggers Dozen. Uma espécie de boutique crate com discos da melhor estirpe seleccionados por quem muito sabe da arte de encontrar os mais raros pedaços de música impressos em vinil.

Mas há igualmente uma série de CDs com live sessions assinadas por Malcolm Catto, Dj Format, Dom Thomas, DJ Danny Dan The Beat Man e Mr Thing que se podem adquirir à razão de 8 libras cada. Trata-se de CDrs de produção limitada, embalados em caixas especiais e com artwork próprio.

 


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E valem bem a pena: DJ Dan the Beat Man é o responsável pela fantástica série Dusty Fingers, conjunto de lançamentos não oficiais que em finais dos anos 90 permitiu aos comuns mortais que não dispunham de orçamentos de estado para adquirir discos sintonizarem-se com algumas das mais raras pérolas deste universo. Muitos e incríveis beats de hip hop dessa era aconteceram porque os seus produtores possuíam alguns dos volumes de Dusty Fingers. Pertence-lhe a ele o quinto e mais recente lançamento desta série de CDs, apresentado apenas há um par de semanas.

 


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DJ Format dispensa apresentações: autor de entusiasmantes colaborações com gente como Phill Most Chill ou Abdominal, Format já trabalhou com Edan e é conhecido pelas suas elaboradas colagens de samples, resultado de uma ética de diggin’ a toda a prova que lhe tem permitido desenterrar as mais valiosas e obscuras peças para uma colecção que é frequentemente descrita como “fabulosa” e “lendária”. Music for The Mature B-Boy ou If You Can’t Join ‘Em… Beat ‘Em ou ainda European Vacation são criações imprescindíveis para todos os apreciadores da arte do sampling e da colagem.

 


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A entrada de Malcom Catto é igualmente fundamental. Este baterista esteve ligado ao primeiro momento do renascimento do funk com os Soul Destroyers, gravou em nome próprio para a Mo ‘Wax, colaborou com o projecto Quantic e criou e guiou os importantes Heliocentrics, talvez o mais avançado combo de funk do presente, com uma discografia imensa espalhada por etiquetas como a Now Again, Strut e agora também pela Soundway. Só pérolas na participação de Catto nesta série.

 


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Dom Thomas é um grande coleccionador e produtor natural de Manchester, ligado ao universo Finders Keepers de Andy Votel através da sua Brutal Music. Cruzando rock psicadélico, disco de vocação cósmica e música experimental de múltiplos quadrantes, Thomas tem construído um universo particular que nesta entrada na série de CDs da Diggers Dozen revela alguns tesouros capazes de abalar o universo. Tanta coisa incrível para samplar aqui…

 


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Finalmente, a primeira entrada na série de CDs da Diggers Dozen, datada já de 2014 e que pertence a outro pilar da cena, o DJ Mr. Thing: com ligações ao universo Who Sampled, Mr. Thing é também autor de várias compilações para a BBE, incluindo a recente The Library Archive, criada a meias com Chris Read, ou Strange Breaks & Mr. Thing. Integrou os lendários Scratch Perverts, colectivo com que acumulou vários títulos internacionais, e pisou o palco com alguns dos maiores nomes do hip hop como DJ Premier ou os Beastie Boys. É um mestre. E este CD uma lição intensa.

Vale mesmo a pena mergulhar no labirinto de beats, samples, breaks e loops que o Diggers Dozen nos propõe. As lições são mais do que muitas e o que se aprende através da escuta de toda esta música que ali se abriga não tem valor, especialmente se são produtores em busca do próximo sample para aquele beat que vai fazer toda a diferença do mundo. Experimentem. Boa viagem e não se percam…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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