Diálogos entre som e espaço: Porto Sonoro, cidade revisitada

[TEXTO] Ricardo Nogueira Fernandes [ILUSTRAÇÃO] Riça 

Não existe um espaço vazio ou um tempo vazio. Há sempre algo para ver, algo para ouvir. De facto, por mais que tentemos fazer ‘um silêncio’, não podemos.

Um artigo publicado na ScienceDirect analisa a influência do ruído ambiente dos espaços urbanos no canto das aves. Na procura de companheiras e na defesa do território contra rivais os machos ajustam as suas melodias de forma a serem ouvidos na presença de ruído. Vários estudos apontam que, em populações de aves urbanas, os machos, em locais mais ruidosos, tendem a cantar em frequências mais altas do que aves em áreas menos barulhentas. Isto dever‑se‑á ao facto de que a maior fonte de ruído na cidades, o trânsito, concentra‑se maioritariamente em frequências baixas. Logo, as aves com melodias de alta frequência terão vantagem nas cidades, visto o seu canto sofrer uma menor diluição no ruído urbano.

No âmbito da profusão sonora dos espaços urbanos, o produtor Pascal Wyse explora a necessidade de, no futuro, o espaço das cidades poder vir a necessitar de um desenho sonoro devido ao crescimento exponencial de fontes de ruído. O compositor R. Murray Schafer defendia que o combate à poluição sonora não se deveria centrar na redução no ruído, mas sim no tornar a acústica ambiental num programa de estudo, levando à escolha de que sons queremos preservar, incentivar ou multiplicar. Neste ponto evoca‑se o poder da nostalgia dos sons que, à semelhança de outras nostalgias, cresce na mesma medida em que o motivo se encontra em perigo de desaparecer. Como tal, é necessário uma audição activa, à semelhança dos projectos nova-iorquinos Soundseeker, Sound Transit, ou o londrino London Sound Survey.

O músico Gustavo Costa confessa que sempre teve um fascínio pelo som. Som como matéria prima para criar e compor. Não vê os sons como musicais e não musicais. A distinção faz­-se pela forma como utilizamos esses sons. Gustavo acredita que a identidade das cidades também tem um som. As cidades têm um som próprio. Dessa fusão do seu interesse pelo som e pela cidade do Porto, nasce o projecto Porto Sonoro. Um arquivo de sons da cidade do Porto. O projecto foi iniciado para o Festival Manobras no Porto no final do ano de 2010 onde se reuniu uma equipa de aficionados do som. O objectivo principal era pensar sobre a matéria. Segundo Gustavo, quando se vai ao Centro Histórico do Porto ficamos deslumbrados com a paisagem, mas muitas vezes esquecemo-­nos de ouvir. Logo, o projecto pretendeu motivar o acto de sair à rua e ter atenção ao som e como é que este nos pode ajudar a melhorar a nossa vida. Como é que o ruído ambiente de uma cidade condiciona a nossa forma de estar. Desta feita, e equipa saiu à rua à procura dos sons que poderiam caracterizar a cidade do Porto. Após a recolha, organização e análise, notaram que o som que descrevia muito bem a cidade era a voz. A musicalidade que está inerente ao sotaque do Porto.

Este testemunho evidencia a riqueza documental do som. Permite não só caracterizar os elementos que vivem o espaço da cidade; desde a fauna urbana, os movimentos dos transportes e pessoas, mas também as características culturais e sociais de determinado contexto. A contextualização dada pelas descrições dos trechos sonoros permite uma análise mais aprofundada acerca do contexto sociológico dos espaços em questão. Apesar de não se tratar propriamente de um instrumento estatístico, este documento, para além da referida análise, permite uma visão estética e artística dos espaços da cidade. Apesar de os dados não deverem ser abordados de forma unívoca, a possibilidade de fazer um estudo comparativo entre gravação no mesmo local, com um certo espaçamento temporal, possibilitaria a análise da evolução de determinada zona.

O ponto de vista de Schafer tem tido algumas propostas tímidas mas de referência importante. Wyse como exemplo a escultura de Si Applied Ltd e Keiko Mukaide, The Cutting Edge (2007), na Sheaf Square, na cidade de Sheffield, em Inglaterra, cuja estrutura em aço inoxidável actua como uma barreira entre os peões e o tráfego, amenizando‑o com o som criado pela água que desliza na sua superfície. Aponta também uma estrutura de tubos de acrílico que formam um espaço acessível onde o som proveniente do exterior é “afinado” pela selecção de determinadas frequências que os referidos tubos fazem. Esta escultura de Francis Crow e David Prior esteve situada perto da Saint Paul’s Cathedral, em Londres, no ano de 2011. Por fim, refere o projecto de Bill Fontana, Harmonic Brides que, em 2006, transmitiu a ressonância da Millennium Bridge para dentro da galeria do Tate Modern, Londres.

Para concluir, é de notar que o projecto Porto Sonoro lançou o mote para uma intervenção efectiva nos espaços em que pretende trabalhar. Sob o nome PHONOAMBIENT, surge como uma expansão do projecto e da aprendizagem proporcionada pelo Porto Sonoro. Partindo do Centro Histórico do Porto para cidades como Braga, Guarda, Tondela, Fundão, Castelo Branco e Abu Dhabi, trata‑se de um projecto de documentação e transformação artística do património sonoro contemporâneo. Este arquivo fica disponível no site para consulta e utilização em contextos criativos ou científicos, como composições electroacústicas, sonoplastia, reflexões teóricas, que serão posteriormente divulgadas na base de dados. A isto acresce a partilha de software desenvolvido, diversas técnicas de gravação, composição. A equipa fixa da Sonoscopia deslocar‑se‑á a diversas regiões do país e estrangeiro onde, além de apresentar o trabalho desenvolvido no Porto, irá trabalhar com equipas locais que poderão dar continuidade aos projectos desenvolvidos durante o período laboratorial.

 


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