Diálogos entre som e espaço: A audição activa de Lawrence English

[TEXTO] Ricardo Nogueira Fernandes [ILUSTRAÇÃO] Riça 

Para o urbanista Kevin Lynch, os elementos móveis de uma cidade, especialmente as pessoas e as suas actividades, são tão importantes como as suas partes físicas e imóveis. Defende que não somos apenas observadores deste espectáculo, mas sim uma parte activa dele, participando com os outros num mesmo palco. Lynch acrescenta que a nossa percepção da cidade não é íntegra, mas sim bastante parcial, fragmentária, e que a imagem desta é composta pelo envolvimento de quase todos os sentidos.

No seu trabalho, o músico Lawrence English propõe esta reflexão através do som. Um estudo intrinsecamente sensorial mas essencialmente político e sociológico. Muito do som com que English trabalha vem do meio ambiente, de field recordings. Logo, ao visitar uma cidade pela primeira vez, apercebe-se de que existem sons particulares que não existem noutros países. Em todos os sítios que visita, ouve a forma como o meio soa, e isso tem impacto na forma como compõe a sua música. O interesse de English foca-se em absorver diferentes culturas, diferentes tipos de ambiente e na forma como os pode sintetizar em peças musicais.

 



English interessa-se pelo modo como este tipo de trabalho reflecte sobre o meio directo, sobre a relação entre os artistas e os espaços com os quais entram em contacto. Dá o exemplo de um grupo de músicos japoneses, denominado Onkyo, que se expressava com um som minimalista, reducionista, visto que em Tóquio é tudo tão ruidoso, tão abafado, os artistas despiram aquele plano para dar uma sensação de espaço e abertura, interrogando o público acerca do contraste entre o interior e o exterior, entre o pessoal e o público.

O músico aponta que o som de determinado lugar ou uma gravação em particular fala-nos da sua natureza e pode alterar a percepção do mundo. Esse acto revela espaços ou ambientes sonoros com os quais ainda não entráramos em contacto. English destaca os sons acidentais que aparecem em ambientes urbanos e naturais que o afectam de forma primitiva quando os ouve, despertando uma dimensão mitológica que a visão não suscita.

No workshop “The Radical Listener”, realizado no Mosteiro de Tibães, English propôs uma reflexão acerca de uma postura de audição activa através das experiências de field recordings. Adiantou que, por exemplo, salvo numa câmara anecóica, é possível ter uma percepção da configuração geométrica e material de um espaço por intermédio das características da sua reverberação.

Contudo, alertou para a necessidade de uma audição supra-atenta, que não seja selectiva, mas que abranja todo o espectro sonoro de determinado local. Note-se que, enquanto o acto de desenhar um enquadramento visual se trata de uma série de escolhas, de decisões, decorrentes da necessária depuração na representação da realidade (salvo em representações hiper-realistas), a gravação da componente sonora de uma paisagem não permite essa matriz, visto não ser possível silenciar os sons que não se pretendem registar.

Neste âmbito, English aponta que o que estamos a ouvir não se traduz necessariamente no que estamos a escutar. Para exemplificar, propõe que se pare e realmente se reconheça todos os sons ao seu redor que estão sub-conscientemente a ser filtrados — o zumbido suave do computador, a televisão nalgum lugar próximo, alguém na sala ao lado ou um cão na rua. Logo, reconhece que o horizonte de escuta não é fixado de maneira linear como o horizonte da visão. É dinâmico e sempre em fluxo, é promíscuo e não é governado pelas mesmas condições que o espectro da luz.

A criação sonora de English engloba uma dimensão de pesquisa constante, dadas as oscilações contínuas do seu campo de estudo. De acordo com Lynch, a cidade não é apenas um objecto perceptível por milhões de pessoas das mais variadas classes sociais e pelos mais variados tipos de personalidades, antes o produto de muitos construtores que constantemente modificam a estrutura por razões particulares. Se, por um lado, podem manter-se as linhas gerais exteriores, por outro, há uma constante mudança no pormenor. Não existindo assim, um resultado final, mas somente uma contínua sucessão de fases.

 



English entendeu o seu último álbum, Cruel Optimism, como uma análise das relações entre o poder e a condição humana, um protesto contra a ameaça imediata de futuros possíveis, e com a consciência do presente, como a necessária luta pela igualdade racial, sexual, ou os conflitos bélicos e consequentes crises de refugiados. Neste domínio, English explora a utilização do som como arma ao longo da história da humanidade, visto a audição ser vulnerável e carecer de rapidez de resposta ao desconforto sonoro. Ao contrário dos olhos, os ouvidos não têm pálpebras que permitam uma protecção instantânea.

O artista estudou desde referências bíblicas como a destruição das muralhas de Jericó com trombetas, até à mais recente utilização de dispositivos bélicos contra civis no controlo de multidões em manifestações em espaço urbano. Nesta esfera, relata que, em Setembro de 2009, em Pittsburgh, EUA, durante um protesto aquando de uma reunião do G20, foi accionado o dispositivo Long Range Acoustic Device (LRAD), que emitiu um sinal sonoro capaz de provocar danos auditivos. Este equipamento foi criado para os marines com o pressuposto de possibilitar a comunicação a longas distâncias. Testemunhos de 8 protestantes comparavam o impacto deste dispositivo com tortura psicológica e indicavam que preferiam ser dispersados com os métodos de confronto físico, dada a possibilidade do LRAD provocar danos permanentes na audição.

Por conseguinte, para Cruel Optimism, English rodeou-se, pela primeira vez, de uma série de músicos para compor uma sonoridade densa e impenetrável — como são os conflitos de poder — que tem o seu culminar nas apresentações ao vivo. Numa performance em Nova Iorque, English propôs ao público que se deitasse no chão de forma a sentir as vibrações do som com o corpo, e emitiu uma versão opressiva mas não dolorosa do sinal do LRAD. Aqui reside a dualidade do trabalho de English. Se nos field recordings tem a consciência de que quer o que produto reflicta a sua audição de determinado lugar em determinada altura, ao vivo pretende saber a forma como o corpo se encontra com o som e o modo como o ocupa.

Com efeito, apesar da base de trabalho de English serem field recordings, a sua aplicação não é documental ou inerte. Como a História, serve de reflexão acerca dos espaços físicos, que são necessariamente políticos e sociais e são uma contributo para a consciência da dimensão colectiva do ser humano. Esta intenção pode ser resumida nas palavras que partilhou com o público antes da sua performance no Theatro Circo:

Come as closer as you can to the stage, this is about sound and your body. Everybody will have a different experience (…) even though we’re all different we’ve come together to share this experience, this is solidarity through sound.”

 


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