Dead End sobre Pure Vanilla: “Não gosto de rótulos nem de estar confinado a uma fórmula”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Margarida Carriço

Pure Vanilla é o título do álbum de estreia de Dead End pela Saturate Records. O projecto, que aterrou há dois dias no Bandcamp, compila oito faixas originais e quatro remisturas assinadas por DJ Ride, Subp Yao, Yunis e Ankou.

Quando a qualidade abunda a escalada torna-se mais fácil e rápida. Carlos Salgueiro tem vindo a estabelecer contactos com a Saturate Records durante o último par de anos e não demorou muito até que a sua editora predilecta do circuito bass lhe acenasse positivamente à proposta de lançamento de algum do seu material. Após um punhado de faixas editadas e uma curta aventura pela Sound Museum, uma sub-divisão mais recente do selo alemão, o produtor da Amadora estreia-se agora com um álbum a solo pela label que tem carimbado música de alguns dos melhores talentos do beatmaking moderno à escala internacional, entre os quais militam os portugueses Razat, Holly ou DJ Ride.

Pure Vanilla sucede a Disruptive / Sleep Cycle / Street Cred, lançado em Fevereiro pela Sound Museum, e risca um dos objectivos mais importantes na lista de planos pessoais de Dead End, ele que já havia feito parte da comitiva da Saturate Records na edição deste ano do Fusion Festival, na Alemanha.

O Rimas e Batidas trocou algumas impressões com Carlos Salgueiro acerca do seu mais recente feito, abordando o método de concepção deste Pure Vanilla e antecipando ainda aqueles que serão os seus próximos passos editoriais.

No dia 5 de Outubro, Dead End sobe ao Porto para se apresentar no Beat Palace, que terá lugar no Maus Hábitos, acompanhado de Stereossauro, DJ Ride e Nery.



Já tinhas editado material pela Sound Museum, uma sub-divisão da Saturate Records, e deste agora o “salto” para uma das editoras que acompanhas com mais afinco no universo SoundCloud. Como surgiu este convite?

Não houve propriamente um convite directo. Foi a ordem natural da evolução tanto da minha parte, enquanto artista de música, como na relação que fui criando com as pessoas das labels. O que aconteceu foi que desde há dois anos para cá tenho enviado faixas atrás de faixas à Saturate Records de forma espontânea, pois sempre tive o objectivo de lançar música com eles. O Tuomas, que é o head manager da label, foi gostando da música. Desde aí fomos criando uma relação e durante estes últimos dois anos fui lançando faixas tanto na Saturate, como na Sound Museum, porque o grupo de pessoas que as gere acaba por ser praticamente o mesmo. Eles entenderam que havia espaço e qualidade para se lançar mais música e, com algum aconselhamento do Tuomas, fomos construindo este projecto.

O que significa para ti teres um álbum a solo neste catálogo riquíssimo e tão vasto a nível de nacionalidades?

Estou extremamente feliz. Sei que é apenas mais um degrau no meu caminho e há ainda muito para fazer, mas quem submete música constantemente a labels internacionais sabe o quão difícil é este percurso, sempre cheio de respostas negativas e algumas das vezes falta delas. Tens que estar em constante produção e a enviar material de qualidade, que pode até nem chegar a ser ouvido porque é um mercado já muito saturado. Eu ambicionava há muito tempo fazer parte deste lote de talentos, conseguir destacar-me e figurar num catálogo que contempla artistas de várias nacionalidades e que neste momento são considerados relevantes na música electrónica mundial. É algo que me dá alento e motivação para continuar a produzir mais e melhor.

Mantiveste-te fiel à tua sonoridade mas notei aqui algum cuidado adicional com as texturas melódicas, algo que é mais flagrante na “Ascent” ou na “Nostril”. Que cuidados procuraste ter para deixar bem vincados neste teu primeiro disco pela Saturate?

Tentei que fosse um disco congruente e que fizesse sentido no seu todo, mas que além de explorar a parte mais técnica do sound design fosse mais “ear friendly”, não fugindo às bases gerais do tipo de som que me caracteriza. Eu gosto de ter várias abordagens à música e procuro lançar sempre coisas diferentes. Não gosto de rótulos nem de estar confinado a uma fórmula que sei que vai resultar sempre ou a um certo tipo de ritmos e sons que me limitam a criatividade. No entanto, sei que mais melodia na música acaba por se tornar mais prazeroso ao ouvido comum. Apesar do meu último projecto pela Sound Museum ter uma sonoridade mais “industrial”, procurei evoluir esse som de maneira a aliar as técnicas de sound design a linhas mais melódicas de sintetizadores e samples que guiassem algumas destas faixas. No fim, a minha música ganhou muito com isso. Além disso, as labels caracterizam-se por géneros de som específicos e, como gosto de tentar fazer diferentes coisas, ao dar a minha visão tento ao mesmo tempo adaptar-me ao público que fomenta a label, como aos criadores da mesma, sem fugir da minha identidade.

Existiu algum conceito que te guiasse durante a concepção destas oito faixas? Surgiu alguma alteração àquele que é o teu processo standard na altura de criar nova música?

Neste projecto específico o que aconteceu foi que na primeira abordagem criei um conceito diferente daquele que foi lançado agora, com cinco faixas e com um principio, meio e fim, como por norma faço nos meu projectos independentes. Na altura, quando enviei para eles, a recepção foi positiva, no entanto, o som fugia para um lado experimental e não se enquadrava naquilo que eles sabiam que eu também era capaz de fazer e que ia mais ao encontro do que eles esperavam de mim, pelos lançamentos que fiz anteriormente. O Tuomas escolheu duas faixas daí e pediu-me para ir produzindo e ir enviando mais material, de maneira a que fosse um trabalho conjunto entre mim e ele. Depois de algumas demos enviadas fomos construindo um projecto que funcionasse no seu todo e que fluísse bem ao ouvir. No fim dei-lhe razão porque o disco ganhou mais qualidade e isso obrigou-me a sair da minha zona de conforto, a ter outra perspectiva e a criar num processo diferente do que eu estava habituado. Foi enriquecedor porque tive a oportunidade de trabalhar e fazer uma avaliação em parceria, quando normalmente este é um processo solitário.

Explica-me a escolha deste título: que paladar é este de Pure Vanilla?

Tive a ideia de escolher Pure Vanilla a partir de um sample na faixa “Tasty” e acho que fez todo o sentido chamar-se assim. A baunilha é um sabor bastante doce, isso contrasta completamente com a sonoridade do disco e o que eu quero passar com este titulo é que este tipo de som, mais headbangin’, mais agressivo, mais virado para uma electrónica com som detalhado e fracturante, é onde eu me sinto melhor. Ou seja, é Pure Vanilla para os meus ouvidos.

Nas faixas-bónus constaste com remisturas de alguns dos teus heróis, como o Subp Yao ou o DJ Ride. Como surgiram estas parcerias e de que forma olhaste para os produtos finais que te foram apresentados?

Eu já conhecia bastante bem o trabalho dos produtores que convidei e, aliás, como dizes, são pessoas que admiro e com quem já há muito tempo ambicionava trabalhar. Tive a oportunidade e a honra de este ano ter sido um dos convidados para uma noite de Saturate Records Takeover, no Fusion Festival, na Alemanha, com o Ride, o Subp Yao e o Yunis, e consegui finalmente conhecê-los pessoalmente. São pessoas muito boa onda, open-minded, sempre dispostos a ajudar. Foi uma noite incrível e consegui criar um laço de amizade com eles. Quando chegou a altura de falarmos em remixes, eu já tinha as escolhas na minha cabeça e felizmente eles aceitaram de forma natural, tal como o Ankou, que é um produtor em ascensão na label. As remisturas estão muito boas, conseguiram mostrar a visão deles, completamente distintas da minha, e esse era o objectivo. Fiquei muito feliz por eles terem apoiado o projecto e dedicarem o seu tempo a partilharem todo o talento que têm comigo.

Se pudesses escolher, quem mais imaginavas a remisturar a tua obra numa release futura?

É difícil escolher uma única pessoa porque tenho vários favoritos, mas se pudesse apontar sem restrições seriam talvez Amon Tobin, Noisia ou Ivy Lab. Num futuro mais próximo gostava de ter remisturas do Stereossauro, Tsuruda, Chee, Eprom, Steelan, etc. São tantos os produtores e tão bons que é uma escolha complicada e com certeza ficam a faltar bastantes nomes.

Aproximamos-nos agora do último trimestre de 2019. Tu que tens sempre primado por um elevado ritmo de trabalho, que cartas guardas na manga para o que ainda resta deste ano? Ou já andas de olhos postos em 2020?

Tenho muita música para lançar e que está a ser trabalhada neste momento, desde faixas soltas, a colaborações, EPs, etc. Possivelmente o próximo lançamento será um EP pela Moriko Masumi, num registo muito mais calmo e contemplativo, bastante oposto ao projecto que lancei agora. Não sei se será para o fim deste ano ou para 2020, depende sempre da minha satisfação com o produto que tenho para apresentar. Mas posso-te garantir que música é algo que não falta e que vou procurar lançar com mais frequência, dependendo também dos constrangimentos de datas das labels e dos artistas com quem estou a trabalhar. Vou continuar a enviar mais faixas para outras labels, como tenho feito, à espera de ter outras oportunidades. Entretanto continuarei a lançar na Saturate porque foi a primeira editora internacional que me apoiou, com a qual mais me identifico e onde me sinto completamente integrado.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira