De La Soul: sopram-se as velas, mas ainda não se partiu o bolo

[TEXTO] Vera Brito [FOTO] Direitos Reservados

Os De La Soul têm sido motivo de muita conversa nestes primeiros meses de 2019 e seria preferível que as razões para tal fossem apenas a celebração dos 30 anos do icónico 3 Feet High and Rising, bem como a digressão Gods of Rap, com primeira paragem já esta sexta-feira na grande Wembley Arena, em Londres, ao lado de outros colossos do hip hop: Wu-Tang Clan, Public Enemy e DJ Premier.

Mas, infelizmente, a notícia que em Fevereiro entusiasmou os muitos fãs da banda e que anunciava por fim a chegada do seu catálogo completo às plataformas digitais (onde apenas estão disponíveis o último and the Anonymous Nobody… The Grind Date de 2004, deixando de fora o mais importante: os primeiros trabalhos ao lado de Prince Paul, pilares discográficos do trio de Long Island e do hip hop norte-americano), com data para o passado dia 1 de Março e a tempo da comemoração das três décadas de 3 Feet High and Rising, editado no mesmo mês em 1989, não aconteceu e parece ser ainda algo difícil de se concretizar.

Para quem, ao longo dos últimos anos, tem acompanhado minimamente esta luta dos De La Soul com as editoras discográficas sabe bem que todos os vieses e reveses desta história davam material para um filme. Em 2014 e em pleno dia de São Valentim, num gesto romântico (e algo louco) para com os seus fãs, a banda disponibilizava gratuitamente toda a sua discografia para download, sem qualquer autorização da Warner Music Group, à data detentora do catálogo, que em poucas horas conseguiu pôr travão à situação. Uma medida desesperada, resultante da frustração acumulada por Posdnuos, Trugoy e Maseo face a toda a burocracia e aparente falta de vontade, ou compromisso, da Warner Music Group, em conseguir contornar as dúbias águas contratuais de direitos de autor, dos muitos samples utilizados nos discos (só em 3 Feet High and Rising são para lá de 60), que apenas legislavam com confiança as edições físicas, não deixando garantias para as digitais. Chegados a 2019 e com o catálogo novamente na posse da Tommy Boy Music (a detentora original), as negociações pareciam estar a chegar finalmente a bom porto, até ao momento em que os De La Soul denunciaram publicamente a injusta fatia que lhes ficara reservada do bolo digital — num acalorado post da sua conta de Instagram podia ler-se: “Your purchases will roughly go 90% Tommy Boy, 10% De La”. O apoio e a solidariedade chegaram de todo o lado, o TIDAL de Jay-Z recusou mesmo avançar com a disponibilização do streaming enquanto os problemas não fossem resolvidos e a Tommy Boy atrasou novamente todo o processo — até à data continua em suspenso uma nova confirmação.



Espera-se que ambas as partes cheguem rapidamente a uma justa solução, porque 30 anos de história, ainda para mais tão importantes, não merecem ficar confinados aos formatos físicos. Mesmo com todo o peso que os De La Soul carregam da história do hip hop e que nunca lhes será retirado, a verdade é que ao continuarem indefinidamente presos neste limbo digital arriscam a ficar algo esquecidos, numa prateleira mais empoeirada, sobretudo pelas gerações mais jovens, em que a maior parte provavelmente já não sabe consumir música de outra maneira e tem as suas atenções concentradas na muita nova música que surge a cada dia. O streaming representa nos dias de hoje a mesma (ou maior até) importância que a rádio e os tops musicais teriam na altura em que 3 Feet High and Rising se demarcava dos seus contemporâneos. Um álbum que, para além ter aberto outras possibilidades para o hip hop como a de ser mais positivo e livre, tem hoje na sua maior valência — essa incrível manta de retalhos de samples ligada com suprema mestria — o maior entrave para a sua liberalização.

Não se pode conservar um passado sem viabilizar a sua memória no futuro e os De La Soul lutam com essa consciência, sabendo também que aos dias de hoje já não são as grandes editoras a ditar a música que se ouve, nem as formas de como o fazer. and the Anonymous Nobody…, de 2016, foi financiado por um crowdfunding de muitos “anónimos”, com uma transparência e proximidade com os fãs que não é nada comum encontrar em artistas do estatuto dos De La. É esta simplicidade, fruto da longa amizade destes três amigos de liceu, e a forma inteligente em como têm conseguido gerir a sua carreira, que lhes tem permitido continuar a ser relevantes na música em geral e no hip hop em particular: sem procurar caminhos fáceis (teria sido simples e tentador repetir a fórmula do primeiro disco que os levou from zero to hero, mas De La Soul Is Dead, de 1991, foi uma guinada acertada numa outra direcção), sem uma prolífera discografia em todos estes anos (dando primazia à qualidade versus quantidade) e encontrando alternativas para problemas do passado (and the Anonymous Nobody…, para além de independente de editora, foi feito com recurso apenas a samples retirados a muitas horas de gravações de jams feitas para o disco).

Pouco se sabe acerca de planos futuros dos De La Soul. Neste momento celebram-se 30 anos do seu disco de estreia e esperamos que mais do que soprar as velas, se corte finalmente o bolo, dando final a esta saga de litígios discográficos. E se o momento é de celebração de história mais antiga, uma coisa é certa: Posdnuos, Trugoy e Maseo não pretendem ser reféns do seu passado. Logo no início do documentário We’re Still Here (now), que ofereceu um lado mais pessoal do processo do último disco e onde vale a pena rever muitas imagens da sua passagem por Lisboa, no mítico Super Bock Super Rock de Kendrick Lamar, pode ler-se: “we were never the men to be trapped in the lane inside all your memories, we swerve through and watch you in the rearview stuck to your past, while on we continue”. Pois bem, que seja no futuro onde nos continuemos a encontrar.


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