Wu-Tang Clan: 26 anos de “férias” entre amigos

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Depois de ascender ao estatuto de música de massas, o hip hop vive hoje o seu momento mais estranho de sempre. Se por um lado a popularidade e a saúde económica do género servem de fertilizante para inúmeros novos e entusiasmantes projectos, a quantidade exorbitante de música nova editada todos os dias faz com que sejam poucos os casos de sucesso absoluto. Tudo certo. Basta lembrarmos-nos quando o rock começou a gozar do mesmo estatuto, ao perfurar a pop por todos os lados numa incansável dança de one hit wonders por parte de músicos e grupos que ascendiam momentaneamente ao Olimpo e, com a mesma rapidez, eram para sempre esquecidos pelo público, ficando confinados às eternas compilações dos anos 80, que teimam em nunca parar de reciclar as músicas que passaram pelos tops da época.

Os ingredientes em falta na maioria dos casos de insucesso a médio/longo prazo serão, sem dúvida, o planeamento e as bases em que se sustentam a estrutura de um projecto. A fome em acumular hits sucessivos pode muito bem distrair os criativos menos cuidadosos com a forma como gerem da sua arte e é por isso normal assistirmos a que o sucesso longínquo seja alcançado por aqueles que se movem em “bando”. O que seria dos Odd Future se não fosse a persistência e o dinamismo de Tyler, The Creator? Quem eram os A$AP Mob sem o carisma de Rocky? Estaria a Pro Era ainda de pé se Joey Bada$$ se cansasse de se tentar superar a cada lançamento? Seria a “nossa” Superbad um selo de excelência sem a visão de Holly Hood e a destreza musical de Here’s Johnny?

Este modelo de negócio — de executar de forma ponderada e meticulosa, a pensar na longevidade de uma iniciativa — tem um inventor. Em nome dos Wu-Tang Clan, RZA foi quem tratou de assegurar que todos os seus pupilos conseguiriam “comer o bolo” e, para isso, elaborou um plano de cinco anos que permitiria enriquecer cada um dos MCs que defende, sem terem que se preocupar excessivamente com o lado menos prazeroso e burocrático da indústria.

Tudo começou em 1993. Convencido das suas capacidades para gerir um dos mais talentosos conjuntos de MCs da história do hip hop, RZA começou por assinar um contracto com a Loud Records em nome dos Wu-Tang Clan. Para Enter the Wu-Tang (36 Chambers), o disco de estreia do grupo, não bastava fazer o que os “vizinhos” Mobb Deep fizeram em Juvenile Hell, por exemplo, e foi RZA quem novamente puxou pela cabeça para encontrar um conceito perfeito para veicular o rap de rua dos seus colegas, que tinham outros interesses para além das vendas de esquina e dos problemas do bairro.

“Muitos dos nerds achavam que tinham de esconder as suas bandas desenhadas e jogos de vídeo. Nós permitimos esse cruzamento de géneros, idades, culturas”. Foi assim que RZA explicou o casamento de universos presente em Enter the Wu-Tang (36 Chambers), que vai buscar a sua essência ao cinema asiático, dominado então por artes marciais, monges e templos. As palavras de RZA foram registadas pela GQ no Verão passado: Kathleen Johnston conseguiu conviver com o colectivo por alguns momentos num backstage, em Londres, após um concerto festivo que serviu para assinalar os 25 anos desse importante álbum de estreia.

No plano de cinco ano, o supergrupo nova-iorquino não se poderia dar ao luxo de ficar parado enquanto não saía um novo disco de Wu-Tang Clan. GZA, Method Man, Ghostface Killah, Raekwon ou Ol’ Dirty Bastard: todos editaram álbuns a solo graças às jogadas de RZA, que conseguiu com que cada um dos seus protegidos chegasse a acordo com uma editora diferente para rentabilizar os seus trabalhos.

“Agora tu vês muitos miúdos focados, eles sabem o que têm de fazer”, explicou Raekwon na entrevista à GQ. “Eles sabem como surgir com a crew deles e criar uma determinada situação para as suas carreiras. Todos te vão dizer que isso é uma cena dos Wu-Tang Clan.”

Com cada um dos seus intervenientes a viver uma situação financeira positiva sem abdicar dos ideais que inicialmente os levaram até ao hip hop, tornou-se mais fácil a tarefa de RZA em manter o grupo coeso e disposto a continuar a trabalhar em conjunto mais vezes. Uma tarefa que, à medida que os egos crescem, se torna difícil de manter em muitos dos grandes conjuntos de artistas que a indústria musical conheceu. Aqui, o truque passa por saber viver com camaradagem e aproveitar os lucros do negócio para que toda a caminhada saiba a uma mistura saudável entre trabalho e conhaque. Haverá melhor catalisador para a criatividade que a harmonia e a felicidade? RZA responde:

“Posso passar o fim-de-semana com os rapazes que conheço desde o início da minha vida. Tenho a oportunidade de viajar em primeira classe à volta do mundo, de comer boa comida, conhecer mulheres bonitas, beber o que me apetecer, fumar se me apetecer. E eles pagam-me. Isto são umas férias que não consegues bater.”


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira