Dawn Richard // new breed

[TEXTO] Miguel Alexandre 

Nunca há certezas quando se brinca às estrelas pop: o que foi certeiro e efectivamente manuscrito no sucesso de artistas passados muda consoante a disposição do nosso zeitgeist. Mas Dawn Richard nunca foi uma estrela pop normal. É verdade que grande parte das cantoras que entopem o Top 200 da Billboard está sempre a regurgitar-se no quão diferente cada álbum que colocam no mercado aparenta ser; no entanto, não passa de uma ainda não obsoleta estratégia para atingir novos ouvintes – a era “good girl gone bad”, principalmente entre estrelas juvenis, continua a ser mais predominante, e com cada ano temos novas versões de Britney Spears e Christina Aguilera, de “I’m a Slave 4 U” e “Dirrty”.

Mas DAWN é outra coisa, a perfeita personificação de experimentação, de uma constante renovação pessoal e artística que passa por uma desvalorização do capital à volta da música em detrimento de uma abordagem de valor de arte acrescentado. Com três álbuns, DAWN contou uma história de amor e de rejeição, espelhando-a ao som de uma produção abrasiva, que conjuga batidas electrónicas alienígenas com uma sensibilidade r&b bastante mais avançada do que ouvimos hoje em dia. Assim, nasceram Goldheart, Blackheart e Redemption: três exímios trabalhos de superação, determinação e ambição que lhe valeram elogios por parte dos críticos, mas que em contra-partida a posicionaram em lugares modestos nas tabelas de vendas.  

Mudam-se os tempos, mudam-se a vontades, e com a conclusão desta linha conceptual, DAWN vê agora uma oportunidade de criar algo diferente à luz de uma outra reinvenção: desta vez, mais concisa, polida e obrigada a apelar a uma audiência mais jovem. O resultado é new breed: um novo álbum altamente detalhado, auto-confiante, mas também desigual e disperso, que tenta reunir vários elementos da personalidade de Richard – exercício que já vimos no passado.

A tendência histórica e cultural de new breed acrescenta uma nova camada à música. Os diálogos feitos por anciãos Washitaw, uma tribo afro-americana ligada aos “índios” de Mardi Gras de Nova Orleães, dão uma outra vida ao álbum, fazendo com que soe mais comunal. Para tal, Richard regressou a Luisiana após uma longa e exaustiva tournée em suporte do último disco, e foi neste estado sulista americano que se sentiu humana pela primeira vez em muitos anos. A conexão espiritual foi fulcral para tal processo e as raízes indígenas de NOLA (New Orleans, Louisiana) serviram-lhe precisamente para cumprir essa função. Na capa do álbum, DAWN usa um toucado, uma peça para a cabeça feita à mão pelo chefe Montana; na faixa introdutória, faz referências esparsas e arejadas à vida daquela comunidade, desde comer lagostas na Jonlee Drive a atirar missangas nos festejos de Carnaval da cidade. O efeito aqui é encantador, não obstante passar uma imagem esclarecedora de Richard como artista e como pessoa: “She’s just a girl from the Nine”, canta na mesma música com um coro harmonizado composto por réplicas da sua voz; os frutos mais abundantes nesta região são a inclusão e o respeito: “He’s just a king from the Nine”.

Na seguinte canção, que dá título a este disco, foca-se a firmeza, um elemento predominante que aliás se estende ao longo dos dez temas (e com tantas possibilidades de leitura do seu trabalho, poder-se-ia até imaginar uma grande dispersão). Mas DAWN é confiante o suficiente para centrar o que quer dizer, sem rodeios. Assim, fica-se com a ideia de que é ela quem controla, girando tudo à sua volta de uma forma tão imperial quanto vulnerável: “They ain’t no bitches, ain’t no queens/ I’m the motherfucking king, yeah”, ouve-se. Há ainda um excerto de uma antiga entrevista a Grace Jones, que só ajuda a contextualizar o ouvinte na importância cultural da narrativa da artista. O seu sentido de melodia surge nítido na cálida “dreams and converse” — um polido e sensual conto de amor que não tem obrigatoriamente de seguir um padrão ético no seu foco: fala-se aqui de um amor imprudente e prazeroso, acompanhado por um baixo pesado e guitarras cadenciadas, muito semelhantes às que encontramos na discografia de Prince ou até mesmo dos Chic nos tempos de Risqué. Este é provavelmente o momento mais cristalino e divertido de new breed, explorando novas paisagens sónicas, agora mais leves e aprazíveis, mas mantendo o misticismo e a bravata de esforços anteriores.



new breed é o mais próximo que DAWN alguma vez esteve de um Nightclubbing e Grace Jones é logicamente tida como uma figura influente na sua carreira. Contudo, aquilo que tornou Nightclubbing num disco revolucionário e intemporal deixa este com a sensação de que algo está a faltar: há sinceridade e sentimentos que pairam à flor da pele, mas a predominância de assuntos mais hedonísticos soa forçada e, por vezes, não se alinha com o principal enredo do álbum. É o que acontece com “jealously”, um dos singles anteriormente lançados: o que podia ser um bom tributo a “Use Me” acaba por parecer um B-side rejeitado por Rihanna ou H.E.R. Os seguintes temas, “sauce” e “we, diamonds”, pecam também, mas desta vez por não conseguirem carregar as expectativas a nível de produção a que estávamos acostumados de Richard, resumindo-se a vocais arrastados, melodias presas em loops entediantes e expressões líricas mundanas; por outras palavras, aquilo que distanciava DAWN das restantes cantoras do seu género musical é substituído por o que a torna apenas mais uma.

A voz da cantora pode parecer sombria em instantes mais difusos, mas igualmente poderosa e assertiva quando quer. Esta versatilidade é um argumento que, apesar de inconstante, ainda está presente neste novo álbum, e em cima disso há ainda todos os ensinamentos de Nova Orleães. Richard exprime-se sempre de forma verdadeira e orgânica, mas a velocidade com que se move de um tópico para outro nem sempre permite uma abertura para abordar assuntos mais geracionais. Assim, temas como o ciúme, a independência sexual, a emancipação afro-americana e a rica tapeçaria histórica de NOLA são sempre colocados de uma maneira superficial ou forçada. Há uma afirmação aventureira neste projecto e DAWN é pessoa corajosa e inteligente o suficiente para tal, só que desta vez isso não parece chegar.


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