Dawn Richard // Blackheart

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É verdade que 1999 escancarou definitivamente a ideia do r&b enquanto projecção do futuro, mas a contínua insistência nessa única narrativa quando passaram mais de dez anos desde o domínio do Timbaland, dos Neptunes e dos vídeos em ambiente sci-fi de canções como “No Scrubs” ou “What’s It Gonna Be” é hoje tão anacrónica quanto o uso da expressão vanguarda. Perpetuando a ideia de que a legitimidade do género está dependente de factores como transgressão ou irreverência, encarreira-se numa visão em túnel toldada por falsos profetas que o tomam de assalto sem saber muito bem o que é uma canção. “Anybody who thinks pop music’s easy should try to make a pop single and find out that it isn’t” são palavras sábias do Robert Wyatt.

Blackheart reúne todas as condições necessárias para que o jogo da cabra cega levado a cabo por aqueles que procuram visões do futuro tenha continuidade, mas reduzir as suas virtudes ao abrigo dessa mesma demanda é um exercício tão inútil quanto ingrato. Há aqui algo de verdadeiramente inclassificável e conscientemente exploratório, maximizando aquilo que Armor On já tinha deixado patente e Goldenheart não conseguiu edificar devidamente, mas o centro gravitacional em torno do qual paira todo este abuso de ideias será sempre a canção.

Matéria que a Dawn Richard conhece bem, com um percurso marcado por rupturas e desvios, a deixar discretamente uma marca indelével em muito do r&b que interessa ao longo dos últimos anos, principalmente após o primeiro colapso das Danity Kane. Tendo contribuído decisivamente para que o brilhante Last Train to Paris se tornasse no último acesso de relevância do Diddy, não sucumbiu ao desamparo após a dissolução das Dirty Money para se elevar das cinzas como fénix – expressão idiota mas adequada –, delineando uma persona marcada que teve em Armor On e Goldenheart o companheiro ideal na figura do produtor Druski.


 


Construindo com ele toda uma linguagem e narrativa que elevou as boas impressões deixadas com as tentativas nem sempre conseguidas, mas intrigantes, da mixtape A Tell Tale Heart a uma nova dimensão, esta simbiose recolheu-se num mundo fantasioso, para daí erigir canções tão brilhantes como “Black Lipstick” ou “86” . Uma cumplicidade a projectar um futuro radiante com a promessa de uma trilogia iniciada com Goldenheart que viria a definhar sem que se percebesse muito bem as razões na passagem para aquele que seria o segundo tomo.

Por esta altura, a existência de Blackheart parecia em risco, um corropio caótico de canções que iam aparecendo no SoundCloud sem grande contexto, e com uma tentativa falhada de reactivar as Danity Kane e deixar patente a ideia de que a carreira a solo estava indefinidamente adiada. Receio que se veio a revelar infundado. Na sombra desse caos mais ou menos mediático, Dawn refugia-se na companhia de Noisecastle III e com ele cria o hivemind para que as suas visões cada vez mais ambiciosas tomassem forma.

Reflectindo esse mesmo período turbulento, Blackheart abandona em parte a coerência monolítica que sabotava a entidade Goldenheart – onde as canções se revelavam melhor em isolamento do que no seu todo – para se espraiar em diversas direcções com uma tenacidade e orientação inabaláveis. Assumindo a voz como fio condutor mestre para o mapeamento possível de toda uma cartografia aparentementemente dispersa, em Blackheart esta repercute-se nas mais diversas formas, com “Calypso” – após uma intro orquestral com o nome de “Noir” – a fazer disso um manifesto de intenções: sobre uma batida quase juke que desemboca em jungle, a voz é manipulada ao entoar uma das duas melodias sacadas à banda sonora do Twin Peaks durante grande parte da canção, para assumir a humanidade já quase no final, quando canta “I been waiting for this feeling” como se de uma libertação se tratasse.

Blow” parte de uma percussão materlada para ir dispondo uma cascata de vozes processadas e sintetizadores esquivos que chegam a um daqueles refrões onde as palavras “We about to blow” têm a devida réplica sónica – i.e. explosiva. Esse pendor épico, que lhe é reconhecido e está quase sempre do lado certo da barricada, tem no expansivo “Aderall Sold (Outerlude)” o seu primeiro sopro de vitalidade. Uma daquelas baladas que se vão adensando progressivamente até rebentar num riff de guitarra rafeiro e bateria extática, é alimentada pela crença de que “she was living, like she’s dying soon”, antes de encarreirar numa surpreendente coda de grittiness urbana – aquele tipo de construção monumental que o Prince poderia hoje andar a fazer se mantivesse a verve e o génio de outros tempos.


 


Ao descer a montanha, “Swim Free” paira numa necessária leveza aérea, sustentada pela melodia sonhadora de um thumb piano para a posteridade, com a respiração doo wop via ratchet étereo de “Titans” a dissolver-se numa cave onde os acordes muito próximos da “Storm” dos Godspeed You Black Emperor! reverberam antes da escalada de “Warriors”. Pejada de alusões oníricas – “we’re like the lion, more like the mountain” – “Warriors” inspira toda essa imagética para a libertar num refrão a plenos pulmões resgatando novamente o thumb piano para a dança triunfal. “Projection” encerra este segundo andamento da melhor maneira possível. Balada vaporosa, amplifica as vibrações flutuantes de coisas como “Drunk” ou “Anything” para insuflar a atmosfera de detalhes percurssivos e harmónicos espectrais que a projectam – pun intended – para uma realidade paralela. E com o melhor uso de flautas em memória recente.

Após esta sequência intangível, “Castles” é o batimento cardíaco que se faz groove serpenteante, antes de descambar pela única vez com as ambições over the top Sia-escas completamente deslocadas de “Phoenix”. Falsa descolagem a cortar com o alinhamento cósmico que em “Choices (Interlude)” é novamente reposto, em mais um interlúdio que é canção de pleno direito. Após todo o aparato de produção que a precedeu, “The Deep” acaba por soar como o necessário regresso à terra, embalada pelo piano e synths orquestrais, numa espécie de ciclo que se completa. Ou quase, não fosse a última faixa homónima um instrumental evocativo do Aphex Twin memorável de Richard D James Album. Como que a deixar tudo em aberto.

Regressando à ideia inicial, não deixam de ser tão curiosas quanto acertadas as comparações que têm sido feitas à obra da Björk. E preferíveis a alguém tão inócuo como a FKA Twigs ou apenas subpar como a Kelela. Apesar de algo inusitada nos meandros do r&b – mesmo que essa ponte tenha já sido atravessada há muito com isto – a comparação começa a ganhar forma quando se pensa no modo como tanto Blackheart quanto Medúlla trabalharam a voz muito para além da figura da cantora e ganha proporção quando se recua aos tempos de Post ou Homogenic – altura em que a Björk, apesar de toda a experimentação e estranheza, era para todos os efeitos uma artista pop com o coração nas canções. Deste modo, alinhou-se assim com uma espécie de noção avant pop, onde nomes como Kate Bush ou Peter Gabriel se equilibravam com mestria entre as potencialidades do estúdio e a escrita das canções. Entre o desconhecido e o empático, o que hoje em dia até pode garantir algum reconhecimento crítico, mas pouco ajuda a vender discos.

Estratégias de marketing e RP à parte, todo o cuidado, audácia e visão que presidiram à criação de Blackheart quando este parecia nunca vir a existir dão-lhe logo um estatuto único. Naquele que é um dos raros exemplos de descontrução de dentro do género para fora dele, Blackheart elevou para já a bitola de tal modo que qualquer disco que se siga terá de se esmerar muito para o superar. Agora. Não queiram fazer dele o futuro de alguma coisa.

Bruno Silva

Músico e programador. Fascinado por realidades alternativas e pela natureza especulativa das coisas.

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