CD / Digital

David Bruno

Raiashopping

Edição Independente / 2020

Texto de Rita Matias dos Santos

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Pode não ser mestre no que toca a instrumentos musicais ditos clássicos, mas é exímio na arte da colagem, ou melhor será dizer, sampling. Esta metodologia criativa encontra-se presente na genética das personas desenvolvidas por David Besteiro, seja a solo como dB ou em grupo no Conjunto Corona. Além desta solução criativa, em David Bruno o produtor vincou a sua sonoridade e enriqueceu as suas letras servindo-se de uma portugalidade que mostra orgulho naquilo que vai da travessa de alumínio ao café com cheirinho. 

Os cenários em torno das histórias que relata são detalhados e adereços próprios para as composições musicais, e seguram o conceito e a narrativa dos seus álbuns do início ao fim. David faz quase, como outrora Miguel Torga (samplado para a “Introdução”) fez, uma viagem às suas terras. Deixa Gaia como um eterno romântico não-correspondido, passando por Valadares para descobrir a vida confidencial de Miramar. Porém, em Raiashopping, David Bruno concede-nos uns quilómetros a mais, até às terras raianas da Beira Alta e Trás-os-Montes, terras essas que marcaram a sua infância e que neste trabalho decide retratar. Das tardes passadas no café do avô à Avó Maria, que remete para todas as avós portuguesas que contam histórias, quer sejam infantis ou de bruxaria, ou ainda às caixas de chocolates Julian — que na realidade são Guylian — o terceiro trabalho de David Bruno, e ao contrário dos dois que lhe precedem, construiu-se praticamente sozinho, apesar de impulsionado pela morte das duas avós. 

Não obstante o forte teor emocional subentendido nos detalhes dos seus relatos, o saudoso sarcasmo a que nos habituou mantém-se intrínseco. Embora esse quase exagerado fascínio pelo que é considerado vulgar, sejam fatos de licra ou comportamentos incrivelmente portugueses, a identidade de David Bruno não se consolidaria, álbum após álbum, sem uma minuciosa junção de elementos sonoros que nos remetem para um passado não muito distante. Sintetizadores que soam retirados de anúncios de outros tempos, ritmos compassados, baixos elegantes, paragens certas e entoações perfeitas, fade ins e fade outs, campanas, teclas estridentes, tudo nos leva para casacos de ganga a condizer com as calças do mesmo tecido de cintura subida, sapatilhas rétro, laca, e sem dúvida, meia branca. A todos estes elementos, juntam-se os riffs dedilhados da guitarra romântica de Marco Duarte, que está para David Bruno como Robin estava para Batman, acrescentando um toque sedutor e sensual em temas como “Salamanca by Naite” ou ainda “Doucement”. 

A coerência de cada trabalho de David Bruno torna-se rapidamente palpável com a apresentação dos respectivos vídeo-álbuns. Tal como o próprio explicou, os audiovisuais servem para ajudar a compreender o conceito que une as diferentes faixas. Sendo Raiashopping um trabalho nostálgico inspirado nas memórias de David, quase que se autodetermina como um depoimento social da década de 90 no interior de Portugal: dos seus hábitos de criança em “Flan Chino Mandarim”, às clássicas chegadas dos emigrantes no mês de Agosto, em “Doucement”. Esta última serve de igual modo de homenagem a “Vem Devagar Emigrante”, canção de Graciano Saga, acrescentando outro nome de música popular portuguesa à lista de homenageados por dB. 

Raiashopping, este imenso trabalho pseudo-antropológico em formato musical, fecha a trilogia de David Bruno com uma conotação mais íntima e emocional, numa viagem por Portugal do tempo das “vacas gordas”, sem nunca renunciar à essência satírica e saudosa da sua persona, e sem nunca destituir o propósito melancólico de nos fazer salutar ao populismo cultural do passado antes de abraçar a mudança necessária e inevitável.


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