Danny Wolfers // Unfolding The Future With Amateur Space Jazz

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Tal como é possível fazer nascer todo um género a partir do mais singelo dos fragmentos de um qualquer detrito pop do passado, não será difícil entender como Danny Wolfers tem passado os seus anos a erguer fantasias electrónicas a partir de estímulos que o seu cérebro vai coleccionando em velhos filmes dos anos 80 impressos em VHS, em anúncios incluídos em velhas revistas com a capa amarelecida pelo tempo, ou nos mais remotos recantos da internet que ainda guardam sites concebidos quando os computadores nos prometiam um futuro monocromático.

O caso de Wolfers é absolutamente singular: apaixonado por techno, aprendeu a sentir o pulsar da electrónica que emanava de Detroit nas raves de Haia, no início dos anos 90. Quando se estreou com Space Force, cassete de 1996, a sua vincadíssima marca autoral impressa sobre o molde aprendido nas rodelas negras dos Underground Resistance já era nítida: se um tema como “Lego Resistance”, com as suas vozes sampladas e os evocativos teclados, conseguia soar como uma espécie de híbrido entre a hauntologia e a mais musculada electrónica importada de Detroit, já “Wir Lebten in Miniland” era pura vertigem de pista. Uma dualidade que este produtor nunca deixou de explorar ao longo das duas décadas seguintes.

Danny Wolfers criou dezenas de alter-egos, formas de escape para a sua incontinente criatividade, e a Strange Life Records que lançou em 2004 foi a plataforma que lhe permitiu nos seis anos seguintes libertar dos seus arquivos mais de quatro dezenas de lançamentos atribuídos a entidades tão exóticas como Franz Falckenhaus ou Florenza Mavelli, imaginativas máscaras com que, sem nunca abandonar o techno como ponto de partida, foi abordando tudo o que a sua curiosidade lhe impunha – library music, bandas sonoras de filmes de espionagem da era da guerra fria, música para dramas policiais britânicos ou para subprodutos giallo italianos, new age, suites para ficção científica, scores para documentários da natureza à lá Jacques Costeau. Com a Strange Life, de forma muito clara, Danny Wolfers antecipou não apenas a já citada hauntologia de editoras como a Ghost Box e a obra de músicos como Jon Brooks ou Pye Corner Audio, mas também boa parte da synth scene em que navegam hoje estetas como Dolphins Into The Future ou Norm Chambers.

O capítulo seguinte nesta personalizada aventura de Wolfers é a Nightwind Records, fundada em 2014 com um propósito, uma filosofia e uma estratégia em tudo semelhantes às que já animavam o catálogo da Strange Life: a mesma dispersão de identidades – Saab Knutson, Calimex Mental Implant Corp., Nomad Ninja… -, a mesma vontade em explorar regiões remotas da electrónica, mas uma maior ambição ao nível da apresentação da música. Com a Nightwind, Wolfers tem optado por complementar as edições digitais que disponibiliza no seu quartel general do Bandcamp com lançamentos em múltiplos formatos – cassetes com capas personalizadas (a que o ReB já deu atenção na rubrica 5K7s), CDrs e até vinil – sempre suportados por colorido artwork que o própio Danny Wolfers cria, traduções a lápis de cor das imagens que o seu cérebro projecta a partir dos sons que vai cozinhando no seu laboratório.

O caso mais recente é o de Unfolding The Future With Amateur Space Jazz que, pela segunda vez no catálogo da Nightwind (que já regista uma dezena de entradas), é creditado a Danny Wolfers. O que não significa que a fantasia tenha desaparecido do radar criativo do produtor holandês. Muito pelo contrário! A capa  de Unfolding… remete para uma arquitectura algures entre o brutalista e o futurista, talvez um campus universitário em cujo relvado repousam figuras com cabeça de elefante, com uma toalha de picnic ao lado: uma das pessoas-elefante voa e, só para que não haja confusões sobre o que espera quem se deixe conquistar por tal capa, por debaixo do título há um desenho de um teclado.

No título, sobretudo pelo uso da palavra “amateur”, Wolfers referencia as hordas de músicos que no arranque dos anos 80 aproveitaram as então cada vez mais financeiramente acessíveis ferramentas tecnológicas para equiparem caves, sotãos ou salas de estar com caixas de ritmos, sintetizadores e gravadores de fita com que criaram obscuros artefactos em edições de autor que ecoavam, de forma naturalmente económica dada a diferença de “escala” dos recursos técnicos e artísticos, as expansivas produções de gente como Miles Davis, Herbie Hancock, Vangelis ou Jean Michel-Jarre. Dessa ingenuidade nasceram muitas das pérolas que etiquetas como a Music From Memory ou Dark Entries hoje procuram resgatar para o presente.

É nítido que Wolfers encontra nesses registos o mesmo estimulo criativo que vai adivinhando nos tais anúncios de revista, filmes em VHS ou nas suas escavações digitais nos primórdios da internet: uma inocente e benigna promessa de futuro que, nas capas que contam com os seus peculiares desenhos, tem sempre céus azuis, muito verde da natureza e uma equilibrada harmonia. A cada novo registo na Nightwind torna-se mais clara a vontade de Danny Wolfers: ele quer escapar para dentro do mundo que imaginou e para longe da realidade bem mais cinzenta que o rodeia, quer na Holanda onde vive (apesar de em reclusão algures junto ao Mar do Norte), quer nos países onde o levam os seus compromissos como DJ.

Os títulos dos temas apresentam uma sugestão de narrativa – “Grazing at a Wonder Farm”, “Clandestine Convention”, “Prophecy Dusting”, “Montreal Airplane Nuts”, “Emotional Wealth is a Dream” ou “A New Form of Martial Arts” e “Fantasy or Dream I’ll Take Anything”, com a ideia de maravilhamento e sonho a surgir com frequência. Musicalmente, a dimensão onírica dos sonhos e a deslocação fantasiosa da realidade para um plano inverosímil é explorada em melodias de recorte cinemático, com arranjos simples, apoiados na exploração das capacidades harmónicas dos sintetizadores, com toadas rítmicas tranquilas, mas com a dispensa de bases mais percussivas a revelar-se estratégia algo frequente (a belíssima “Prophecy Dusting” é uma das excepções, toda ela cristal de Rhodes embrulhado em veludo sintetizado, a evocar Tropea ou George Duke ou até talvez Jan Hammer nos seus momentos mais lisérgicos, tal como “Scenic Highway System”, que bem poderia ter sido usada no remake de Miami Vice que Michael Mann assinou – cores de néon em recorte nocturno reflectidas nos cromados de um qualquer bólide que derrapa em direcção a sabe-se lá onde…). O disco acaba assim por ser mais contemplativo do que outra coisa qualquer, posicionando-se nos antípodas da techno que começou por inspirar Wolfers, pelo menos no ponto de vista formal e funcional, porque percebe-se claramente que para este produtor tudo isto resulta da mesma vontade de usar a música como veículo para o transporte para um futuro desejado, embora irreal.

Com uma atenção preciosa à dimensão textural das suas peças, Wolfers é um compositor de mão cheia, com um ouvido apurado para a melodia e uma sensibilidade séria enquanto arranjador, sabendo perfeitamente quando a repetição é o caminho mais rápido para a imposição de uma aura hipnótica, ou quando a atenção deve ser captada com um arpeggio inesperado que nos coloca os sentidos em alerta, como se algo estivesse para acontecer, iminente. Mas não se passa nada: este futuro nunca há-de chegar, o que não significa que Danny Wolfers não o continue a antecipar de forma brilhante na música que nos vai oferecendo, em catadupa.

 

PS: já depois de recebido em casa a magnífica edição em cassete na Nightwind (com a dita cuja a ser acompanhada por uma pequena banda desenhada da autoria do próprio Wolfers que desenvolve a “história” contida no artwork e ainda de um íman para o frigorífico que inclui igualmente um desenho do produtor) há alguns dados técnicos que importa sublinhar. Explica Danny Wolfers que o álbum foi feito com apenas duas máquinas, o que bate certo com a tal ideia para que a palavra “amateur” remete e que se destaca no texto acima: o Korg Microstation e o processador de efeitos da Yamaha GSP-100. Prova de que Wolfers gosta de remar contra a corrente, abraçando uma máquina digital da Korg que foi um flop comercial e um processador de efeitos pensado para guitarras mas que consegue óptimos resultados quando ligado a um sintetizador, como aqui explica. Ou seja, Wolfers a pegar nos mesmos ensinamentos históricos que garantiram haver uma vida para a TB-303 da Roland para lá do papel de acompanhamento para guitarristas a ensaiarem sozinhos em casa que lhe serviu de ângulo de marketing quando foi originalmente apresentada ao mundo em 1981.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu