Danny Brown: o seu a seu tempo

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Elias “ellmatik” Zamudio

Não é novidade nenhuma na indústria musical, mas cada vez mais a idade se tem revelado um precioso trunfo para atacar a “titularidade” num mercado tão rico quanto saturado como aquele que temos actualmente à nossa disposição.

Ainda que a vontade de se tornar num rapper lhe tenha surgido em tenra idade, Daniel Sewell esgotou a cartada da juventude em tempo investido nas ruas de Detroit, nas quais actuava como traficante de drogas, actividade que surgiu por intermédio de amigos e catalisada pelo divórcio dos pais, gerando um impacto negativo nas finanças da sua mãe, ao ver-se sozinha a cuidar de quatro filhos.

Em entrevistas, Danny relembra frequentemente que a ideia de se tornar MC como profissão vem já desde os tempos do jardim de infância, evocando até um episódio em concreto, no qual rimou à frente da sua educadora e dos seus colegas, que não levavam as suas performances com grande seriedade. Na verdade, nem o próprio Danny foi capaz de seguir esse sonho com afinco na devida altura. Junto de Chip$ e Dopehead formou os Rese’vor Dogs e lançou um único EP, tendo chamado a atenção de Travis Cummings, à data A&R da Roc-A-Fella Records, que o levou por diversas vezes a Nova Iorque para gravar maquetes que nunca impressionaram ao ponto de lhe ser proposto um contrato.

Enquanto a carreira de rapper ia ficando de lado durante os anos dourados da sua juventude, o mercado das drogas levou-o àquele que é o desfecho mais provável para um jovem sem qualquer tipo de ambições. Depois de vários sustos apanhados em problemas com a lei, Brown acabaria mesmo por ser encarcerado durante oito meses, experiência que o levou a reformular as suas prioridades antes de regressar à liberdade, em 2007.



Um novo plano foi colocado em marcha ainda dentro da prisão: um dos irmãos de Danny aproveitou algumas das suas gravações de Nova Iorque e compilou-as em Detroit State of Mind, lançada para a Internet enquanto mixtape de estreia. “Pela altura em que saí da prisão já tinha o meu nome mencionado em blogues e merdas do género. Então é isso que eu vou fazer [seguir a carreira de rapper]”, revelou durante uma longa conversa para o podcast Your Mom’s House.

A saga Detroit State of Mind viu nascer mais três volumes e pelo caminho ficaram ainda outros projectos a solo como Hot Soup ou Browntown, que o levaram novamente aos ouvidos de gente importante em Nova Iorque — desta vez era 50 Cent quem mostrava interesse no rapper de Detroit. “Lembro-me de um espectáculo em que eu estava com as minhas skinny jeans super apertadas e cheio de gangsters à minha volta”, relembra entre gargalhadas. “O 50 disse-me que tinha de ter um ar mais ameaçador”. E apesar da oportunidade na G-Unit Records não se ter concretizado, Danny continuou a viver em Nova Iorque por um ano na casa de Tony Yayo, com quem chegou a dividir a mixtape Hawaiian Snow, em 2010.

Com o toque de comicidade insana tal e qual Ol’ Dirty Bastard, Brown não tinha ainda uma entrega nem estilo que o definissem enquanto artista singular. Inspirado em heróis de juventude como B-Real ou Jonathan Davis, vocalista dos Korn, surgiram as primeiras experiências em estúdio que visavam modificar-lhe o timbre com que se apresentava perante o microfone. O título dado ao seu álbum de estreia, The Hybrid, advém dessa mesma fase de testes, e é o primeiro registo de sempre em que podemos escutar Danny Brown com o tom agudo, quase esganiçado, que hoje lhe vemos como característico. Nesse disco é assistido por gente como Quelle Chris, Chuck Inglish ou Denmark Vessey na produção e a edição ficou a cargo da Rappers I Know, uma editora independente cuja ligação a Brown acabaria por não ter grande duração, já que A-Trak, fundador da Fool’s Gold, estava atento ao talento em bruto que residia em The Hybrid.

A experimentação só ficaria completa quando Danny se visse rodeado dos produtores certos. Por perto encontrou SKYWLKR, também de Detroit, com quem estabeleceu uma parceria sólida, tendo mesmo formado um grupo juntos, os Bruiser Brigade, ao qual também pertencem os antigos colegas de trio Chip$ e Dopehead ou o novato ZelooperZ. Mas foi além-fronteiras, em Londres, que se cruzou com o seu mais notório colaborador até à data: Paul White soma créditos em XXX e Old, os sucessores de The Hybrid, tendo em 2016 arriscado numa ligação mais séria ao rapper ao servir de produtor principal em Atrocity Exhibition, o mais arriscado e ambicioso projecto de Brown até à data, que o levou da Fool’s Gold para a Warp Records.

“Eu sabia que não conseguia fazer um álbum como o Atrocity Exhibition outra vez”, explicou Daniel Sewell recentemente à Highsnobiety, publicação à qual levantou o véu que cobre uknowhatimsayin?, aquele que será o seu quinto álbum. O foco do LP passará apenas pelas “rimas potentes”, deixando de lado os conceitos mais fora da caixa que tanto caracterizaram o seu último registo. Podem, por isso, esperar um álbum de mais fácil digestão, até porque terá a supervisão de Q-Tip, lendário MC e produtor dos A Tribe Called Quest, conhecido pela sua veia musical mais “clássica”.

Recuperando um dos pedaços finais da presença de Danny no Your Mom’s House, o rapper explica como a idade é realmente um factor determinante na hora de decidir se vale a pena arriscar ou jogar pelo seguro: “Estou a tentar fazer uma cena mais tradicional. Uma cena de quem já tem 40 anos. Não consigo fazer as merdas que os miúdos estão a fazer agora. Estou a tentar uma abordagem mais tradicional. Até mesmo no processo de gravação, já não quero gravar no Pro Tools e assim. Quero aquele som morno do gravador de fita. Apenas fazer as cenas como faziam os gajos que eu cresci a ouvir — Wu-Tang Clan, NAS, cenas assim.”


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira