Da Weasel: o legado de uma banda sem género

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Kenton Thatcher/Warner Music

Inspirados pela energia interventiva dos Rage Against The Machine ou dos Public Enemy — com muitas outras influências pelo meio —, os Da Weasel nunca foram uma banda de um só género. Juntavam o hardcore punk ao rap, chegando a passar pelo jazz ou pelo reggae — com variações de estilo que sempre estiveram presentes e não oscilaram consoante os álbuns que fizeram ou as fases por que passaram. Este monstro híbrido da música portuguesa explodiu verdadeiramente depois de ter dado os seus primeiros passos, com a edição de More Than 30 Motherf***s e Dou-lhe com a Alma.

Com 3º Capítulo, em 1997, o seu legado e estatuto aumentou de forma considerável, apesar da resistência que sempre existiu por parte de alguns seguidores do núcleo mais fechado do hip hop português. Apesar de também fazerem rap, os Da Weasel eram uma banda com instrumentos que actuava de forma muito diferente da dinâmica tradicional de DJ-MC em palco. “Os Da Weasel não eram bem vistos na comunidade rapper mais purista da altura devido aos crossovers que faziam, ao misturarem rap com outros estilos musicais”, conta TNT ao Rimas e Batidas, rapper e produtor que acompanhou de perto o crescimento da banda que, tal como ele, sempre representou a cidade de Almada. “Sempre tivemos aquele orgulho ao ver os rapazes dali vingarem como artistas. Era como se Almada inteira tivesse uma voz.”

 



Mais do que representar uma zona, os Da Weasel tornaram-se para muitos, e ao longo dos anos, a ponte mais visível que o grande público tinha com o rap feito em Portugal. Depois de décadas de tradição rock, era natural que o público português, pouco habituado, se identificasse mais com uma banda que tinha baixo, guitarra e bateria, mesmo que as rimas fossem de substância semelhante à de outras que se podiam encontrar em discos com bases instrumentais construídas com caixas de ritmos e outras máquinas electrónicas.

“Curiosamente, lembro-me exactamente do momento como se fosse hoje. Estava de carro, na Praça do Marquês de Pombal [no Porto], no semáforo do cruzamento da Rua de Santa Catarina com a Latino Coelho. Não estou a brincar, ficou-me. Foi quando ouvi na rádio os Da Weasel pela primeira vez. Não fazia a mínima ideia do que era. Lembro-me de gostar do som e sentir logo algo de especial na voz e na palavra, algo que só sinto raramente. Adorei ouvir a minha língua daquela forma, com aquela clareza e com todo aquele conteúdo de vivência”, diz ao Rimas e Batidas Manel Cruz, que era, na altura, o vocalista dos Ornatos Violeta.

 



De rappers, produtores e DJs a bandas de rock e hardcore, a doninha de Almada deixou as suas pegadas um pouco por todo o lado. “Para mim, deixaram um legado muito grande e importante para a história da música portuguesa. Foram pioneiros em muitas coisas, desde o som aos vídeos e concertos. Influenciaram e muito a minha música, posso dizer que são uns dos  ‘culpados’ por eu tocar e estar ligado à música. Sempre os achei uma banda perfeita. Das melhores de sempre em Portugal”, diz Fred Ferreira, homem de, entre outros, Orelha Negra, Banda do Mar5-30, onde colaborou com Regula e o próprio Pacman — uhm, perdão —, Carlão.

“Trabalhar com ele é muito bom, é uma pessoa super criativa, actualizada e muito preocupada com a perfeição das coisas. Identifico-me muito com a sua escrita. Tornou-se depois num amigo especial para mim de que gosto muito”, acrescenta Fred Ferreira.

O mesmo carinho por Carlão é partilhado por Manel Cruz, que colaborou com os Da Weasel em “Casa (Vem Fazer de Conta”, em Re-Definições, de 2004. “Eles são uns fixes, todos eles. Com o Carlão tenho uma relação mais próxima, uma amizade. Apesar de nos vermos pouco existe um sentimento mútuo de identificação e empatia que foi sobrevivendo ao tempo e à distância. Lembro-me de ele me visitar — tinha nascido o meu primeiro filho — e ver aquele grandalhão, muito carinhosamente a dobrar-se sobre o berço e dar um beijo na testa do feijãozito. São as coisas que ficam.”

 



O que também permaneceu e deixou uma marca indelével na música portuguesa foi o reportório dos Da Weasel. “Não foram fruto de um momento, de uma moda”, diz Manel Cruz. Depois de 3º Capítulo, o grupo assinou contrato com a EMI e aumentou a sua projecção em todo o país. Seguiram-se trabalhos consistentes como Iniciação A Uma Vida Banal – O Manual e Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder, que serviram para alimentar a cada vez maior legião devota de seguidores, com uma base de fãs tão heterogénea como a sonoridade da banda. Mas o maior sucesso comercial chegou com Re-Definições e singles como “Re-Tratamento” ou “Força (Uma Página de História)”. “Foram uma das maiores bandas da música moderna portuguesa. Basta ver a quantidade de singles de sucesso que editaram e a longevidade dos temas que lançaram, alguns dos quais são tocados nos dias de hoje nas rádios e em festas. Na época em que começaram, o mercado musical em Portugal era dominado pelo pop rock.  Conseguir ‘furar’ nessa época abriu muitas portas para as gerações seguintes”, garante TNT.

“O seu terceiro disco, 3º Capítulo, influenciou-me ao ponto de saber todas as letras de cor. A sonoridade era aquilo que eu queria ouvir e não conseguia porque a oferta em Portugal não era muita. Eles tinham samples, tinham instrumentos, skits entre as faixas, batia tudo certo. O facto de os conhecer e conviver com eles fez-me acreditar que era possível fazer música para mais pessoas e sair da rua para o resto do país. Mais tarde, esse sentimento consolidou-se com a entrada do DJ Glue. Ele andava comigo na escola e tínhamos trabalhado em alguns projectos comuns, então era uma realidade muito próxima.”

O último álbum dos Da Weasel, Amor, Escárnio e Maldizer, foi editado em 2007 – continha singles como “Dialectos de Ternura” (mais conhecido por integrar um anúncio da então TMN), “Toque-Toque”, “Mundos Mudos” ou “Niggaz”, com uma participação especial dos Gato Fedorento, que só comprova a popularidade e estatuto de que os Da Weasel gozavam na altura. O concerto esgotado no Pavilhão Atlântico (gravado para sempre em DVD) foi uma prova ainda maior disso. Três anos depois, a longa caminhada da doninha chegava ao fim. Mas as sementes estavam plantadas: várias gerações, com gente que vai desde Regula a Mike El Nite, passando por Sam The Kid, ProfJam ou Slow J, tinham ficado contagiadas pela energia dos Da Weasel, e, neste caso, sobretudo pelos versos eternos de Carlão. Oiça-se a herança da doninha — e perceba-se e reconheça-se o grande impulso amplificador que deram para o hip hop português, ao qual deram a conhecer a um público muito maior.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha