D∆WN: “A minha música tem de ser muito honesta”

[TEXTO] Bruno Martins [FOTOS] Direitos Reservados

 

Dawn Richard atende-nos o telefone com uma diferencia horária de cinco horas. Está em Nova Iorque, poucos dias antes de sair em digressão para a Europa onde fará três concertos muito especiais: ontem à noite em Londres, hoje em Lisboa –  na Galeria Zé dos Bois – e dia 19 em Berlim. Pertenceu às Danity Kane, banda produzida por Diddy que nasceu do programa da MTV “Making The Band”. Sean Combs iria, mais tarde, resgatá-la para Diddy-Dirty Money. Mas a artista de 32 anos tem um espírito rebelde e precisa do seu espaço para brilhar. Dos seus holofotes. D∆WN – nome representado assim, com três vértices – tem-se revelado um assombroso fenómeno no R&B de cariz mais futurístico, de camadas electrónicas por vezes psicadélicas e experimentais. É com essa sonoridade que encontra um maior conforto na sua expressão, mas Dawn é muito mais do que apenas cantora, compositora, produtora e intérprete. Dawn procura referências estéticas na luz, nas sombras, nas cores, em pantones. Em tecidos, bijuterias e acessórios. “Trabalho muito o lado visual para estimular quem vê da mesma forma que se estimula quem ouve. Às vezes é preciso tocar para se ver! Eu acredito em estimular todos os sentidos, por isso a moda, a tecnologia são formas de esticar a corda, de encontrar a nova forma de transportar essas imagens”, dir-nos-á, nesta conversa.

A passagem por Portugal – que hoje é um circuito de passagem para grandes digressões em arenas e festivais com multidões de milhares – reveste-se de uma grande oportunidade para espreitar um processo criativo que não parece conhecer travões no carismático “aquário” da ZDB : teremos Dawn ao alcance da vista sem serem precisas grandes dioptrias, ao alcance do toque, dos cheiros e até de eventuais gotas de suor. A artista traz consigo os vértices unidos de uma trilogia de discos que irá conhecer o fechar de um ciclo muito em breve com RedemptionHeart. Dawn Richard diz-nos que, depois de um período dourado – em Goldenheart (2013) e outro negro – em Blackheart (2015), eleito como um dos discos favoritos do ano de publicações como Fact, Spin ou Rolling Stone e que também foi alvo de muitos elogios de Bruno Silva aqui no Rimas e Batidas – em 2016 acontece o arranque do seu período vermelho – de festa, celebração, rejuvenescimento e redenção. Já nos têm sido desvendados algumas pinceladas desta “Era”: o EP Infrared e singles como “Wake Up” ou “Serpentine Fire” – na série de singles da Adult Swim. Nesta entrevista, vamos perceber o significado do vermelho para D∆WN; a importância do regresso à terra que a viu nascer, Nova Orleães, dez anos depois do furacão Katrina; e a importância dos sonhos e dos pesadelos na sua criação artística.

 

Depois de um período dourado, em Goldenheart, seguiu-se o período negro, em Blackheart. Agora entras num período vermelho, com RedemptionHeart. O que significa a cor vermelha para ti?

É uma cor libertadora, que, para mim, significa vida. A cor do sangue é vibrante. O vermelho tem também o significado de recuperação, do rejuvenescimento da minha pessoa depois das coisas por que passei. Quando vejo vermelho, vejo celebração, uma super-vibração. Era isso que queria que o álbum significasse.

Os dois primeiros foram dois discos muito muito pessoais. E este? Também quiseste dar muito de ti?

Sem dúvida. A minha música tem de ser muito honesta e por isso é que demoro tempo no processo de composição. Principalmente depois do Blackheart, queria que os ouvintes pudessem sentir que só porque vivem um período mais negro, não significa que é aquele o momento final, que é onde vamos ficar presos. É imperativo mostrar que há uma recuperação, e que há um sentido de redenção que nasce daí: quando encontramos problemas, também encontramos redenção! Este disco mostra que me reencontrei, que cresci enquanto mulher, artista e também como visualista.

Há um aspecto, digo eu, importantíssimo na história deste RedemptionHeart: voltaste à tua terra natal, a Nova Orleães. Conta-nos como é que isso marca este disco.

Define o disco! Nova Orleães tem sido uma grande parte da minha cultura, da minha sonoridade, e de tudo o que faço. No 10º aniversário do [furacão] Katrina [em 2015] os meus pais voltaram para lá e eu fui re-apresentada à cidade, às minhas raízes. Este “Período Vermelho” é semelhante a uma “second line” – [uma banda marchante de jazz de Nova Orleães]. Quando pensamos nessas marchas, pensamos em celebrações fúnebres, mas também em paradas nas ruas aos domingos, com milhares de pessoas a sair à rua a dançar e a tocar instrumentos. Este disco tem a mesma estética – tem o sangue de Nova Orleães de uma ponta à outra. Basta ouvir as cadências das baterias, a irregularidade da música… a influência de Nova Orleães está sempre lá.

 


Dawn ©


É um disco que só poderia ser feito em Nova Orleães?

Não, podia ser feito em qualquer lado. Nova Orleães é que está sempre comigo. Não preciso de estar lá para conseguir este som, que me corre nas veias. É um som que vem do meu pai, dos meus avós. Está lá sempre, desde que comecei a caminhar e nunca me vai abandonar.

Como foi o processo criativo do disco? Com quem é que trabalhaste?

Nesta era comecei a trabalhar com um grande produtor chamado Machinedrum e, claro, o Noisecastle III, com quem já tinha feito o Blackheart. Sentámo-nos os três a conversar sobre as direcções para que queríamos levar este disco. E chegámos a este lindo equilíbrio, a um híbrido, de vulnerabilidade e agressividade. É como se quisesses dançar e, ao mesmo tempo, encaixares-te, viver as letras. É imperativo perceber a entrega no disco, especialmente neste período, em que tentámos fazer coisas com que as pessoas não se sentem confortáveis: juntámos sons que normalmente não se se juntam, que, à partida, não funcionam. Há quem tente pôr rótulos, mas é difícil fazê-lo, por ser um trabalho tão experimental, com tantas fusões… criámos uma estética muito própria que acredito que, ao vivo, vai resultar muito bem  – já o tenho feito em alguns festivais e vocês em Portugal também vão poder ver: é mesmo uma celebração, uma festa. As pessoas ficam muito entusiasmadas quando ouvem este som que evoca algo e que as faz dançar.

Mas tens algum rótulo pessoal que tenhas posto nesta música? Ou preferes que a música seja auto descritiva?

A música fala por si! Aliás, odeio quando me pedem para descrever a minha música numa só palavra. Isso nem é possível! Eu até detesto fazer entrevistas, porque as pessoas interpretam mal. Gostava mesmo era que carregassem no “play” e ouvissem, simplesmente. O que sentirem, óptimo! Seja bom ou mau, são precisas opiniões! O objectivo é sentir.

 



No teu último disco, havia um sentimento mais escuro que reflectia outro período da tua vida, talvez mais desconfortável. Sentiste-te mais confortável ao fazer este novo álbum?

Senti-me confortável comigo e isso é maior que tudo. Conforto na personagem, em mim enquanto pessoa e isso é mais importante do que estar confortável com a sonoridade. Quando estás confortável contigo, a forma como aparentas estar, a forma como te sentes com as escolhas que fazes… vai estar tudo bem. A minha vida está toda representada nestes trabalhos. Sinto que represento todos os miúdos que não se integravam, que não encaixavam naquilo que lhes pediam para eles serem à força. Eles e eu, nós, criámos um mundo onde nos encaixamos e quero que todas essas pessoas se sintam bem com quem são e não tenham de se preocupar com provocações, com serem gozadas porque aquilo de que gostam é diferente. É altura para dançar. É bom seres aquilo que és!

Esse conforto de que falas dá uma unanimidade a esta trilogia? Este terceiro disco é como se fosse o fechar de um círculo?

Completamente. Mas não é um círculo, é antes um triângulo – como aparece no “A” do meu nome. São três pontos que se unem e que – como dizes – fecham o círculo. Tudo se resume a esses três pontos: o início, o meio e o fim. O começo, a queda e a recuperação. Este é o nosso tempo para nos reerguemos. Toda a gente tem os seus “momentos aha!” e este é o meu.

 



Gostas de te exprimir de muitas formas para lá da música: em vídeos, instalações artísticas, pintura, filmes de moda… Pode dizer-se que é uma artista completa?

Se é isso que me queres chamar (risos)… talvez seja, não sei. Não podemos esperar que as pessoas sejam só uma coisa. Sinto que há pessoas se apaixonam através das imagens visuais, outras através da música. Eu sempre respeitei isso. Quando eu crio uma canção, nem toda a gente vai percebê-la só pelo lado musical e por isso tenho de mostrar, de fazer ver. É por isso que trabalho muito o lado visual para estimular quem vê da mesma forma que se estimula quem ouve. Às vezes é preciso tocar para se ver! Eu acredito em estimular todos os sentidos, por isso a moda, a tecnologia são formas de esticar a corda, de encontrar a nova forma de transportar essas imagens. Não é diferente daquilo que fazia, por exemplo, o Gustav Klimt, que era um pintor, mas não só! No seu período dourado criou um cenário que parecia meio real através da adição da textura que evoca outras emoções. Acontece o mesmo com [Mikhail] Baryshnikov, um dos meus bailarinos favoritos de sempre, que as pessoas não entendiam até ele trabalhar com o Gregory Hines num projecto mais relacionável em filme [“Duo Nights – O Sol da Meia-Noite”] e depois em cultura urbana. É preciso quebrar regras. Só assim é que é possível ligar-me com as pessoas.

Mas explica-nos – caso seja possível: quando sentes um ímpeto criativo, qual é a primeira reacção? Fazer uma música, criar um filme, um teledisco, pintar, dançar…?

Perceber como é que me vou exprimir (risos)… Tentar perceber como é que posso criar um sentido de emoção em alguém da forma mais correcta. Depois ou sai muito bem ou muito mal! Aconteceu isso com o vídeo de moda que fiz para “Wake Up”, em que no processo de composição estava a ler “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare, e dei por mim a pensar: “Adoro esta história! Como é que vou conseguir incorporar isto naquilo que fiz?” O que começou com uma ideia normal, acabou por tornar-se numa imagem minha a usar um metro e oitenta de argolas douradas e chifres dourados… Eu pensei que ninguém ia perceber, mas fez-me sentir aquilo que sentia quando lia. Mas, voltando atrás: quando vejo um quadro, um vídeo… a primeira coisa que penso é: “Como é que eu vou fazer algo que me possa fazer sentir aquilo que estes gajos me fizeram sentir agora?” É a única coisa que posso fazer.

És uma sonhadora?

Sou, sem dúvida. Sou uma “fuckin dreamer” e esse é o meu problema! Às vezes sonho muito rápido, muito à frente e, por vezes, as pessoas não percebem. Já me habituei a isso porque sinto que nos sonhos há muito mais criatividade, sentimentos e movimentos abstractos que se podem usar e que não estão, necessariamente, ligados à realidade. Gosto de desafiar a ideia de normal, a ideia de gravidade. Nos sonhos podemos ter quatro metros e asas de meio metro! Quem sabe? Podes ser criativo e ninguém te questionar, porque ali é a tua realidade.

E como reages aos pesadelos?

Como qualquer outra pessoa: sinto medo. Mas também me apercebo: “que se foda, é um pesadelo. Quer dizer que estou a sonhar e consegui derrotar os medos.” É por isso que um disco mais negro como foi BlackHeart também havia esperança, porque nos pesadelos também te apercebes que estás a sonhar e podes mudar as direcções e moldá-los para criar algo para lá da escuridão. Consegues sempre encontrar luz!

 


Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.