Conan Osiris no Samsung Galaxy Live: um em um milhão

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Daniel Mota 

Tudo começou no penúltimo dia do ano de 2017 quando, no catálogo da AVNL Records, uma “editora de culto para doutores” de mui modesta expressão num território português em permanente expansão, dava entrada Adoro Bolos, o terceiro projecto escrito, cantado e produzido por Conan Osiris. No Rimas e Batidas, o impacto foi imediato: Rui Miguel Abreu, na manhã seguinte, dedicou vários elogios ao artista do Cacém numa curta apreciação ao recém-editado disco.

E a vida de Tiago Miranda nunca mais foi a mesma: o rótulo de “melhor álbum de que ninguém estava à espera” fazia soar o alarme na Internet, com miúdos e graúdos a querer descobrir que tipo de som viria compilado no recheio de um sugestivo Adoro Bolos. O resto é história, com Conan a brilhar ao lado de nomes como Piruka, Surma ou Moullinex numa campanha publicitária para a NOS ou, um pouco mais tarde, a surgir entre a lista de participantes do Festival da Canção’19 com um arrebatador “Telemóveis”, cuja caixa de comentários no YouTube ainda hoje é alvo dos mais sinceros elogios, tanto das gentes portuguesas como dos descobridores musicais sediados um pouco por toda a Europa. Não esquecendo, claro, as passagens por alguns dos maiores palcos do nosso país, com o Super Bock em Stock ou o Vodafone Paredes de Coura à cabeça.

Mas o que tem Adoro Bolos de tão novo e entusiasmante? À primeira escuta, o tom poderia soar humorístico, ideia que rapidamente cai por terra quando percebemos que Conan também chora — as gargalhadas que soltamos vêm do léxico adoptado pelo artista, que tem tanto de tonto como de inocente, tal é a despreocupação na escolha das suas palavras, completamente ausente daquele filtro que por hábito colocamos em nós mesmos para que a mensagem seja transmitida conforme os parâmetros “aceitáveis” do vocabulário mais corrente entre a maior fatia da sociedade. Musicalmente, Tiago pode gabar-se do amplo leque de linguagens que a sua mente domina, traduzindo, por intermédio da produção electrónica, rasgos de fado, afrobeat, trap ou até música árabe em canções de formatação idêntica às dos maiores vultos da pop portuguesa, como António Variações ou Carlos Paião.

Importa ainda salientar que foi à terceira tentativa que Conan — que actua esta sexta-feira, às 22h30, no Estúdio Time Out — conseguiu “furar” o mercado e sem um grande esforço, deixando no ar a ideia de que a música veio realmente em primeiro lugar na cabeça de Tiago, deixando o reconhecimento ocupar, na sua lista de desejos, a vaga que fica reservada para o que lhe pode chegar por via do mérito que a sua arte alcança — não nos podemos esquecer que o SoundCloud e o Bandcamp foram os únicos locais possíveis para escutar Conan Osiris até há bem pouco tempo. Também editados pela AVNL Records, Silk e Música, Normal são agora pegadas importantíssimas num trajecto de sucesso, que merecem um estudo redobrado por todos aqueles que aspiram em criar música popular e, ao mesmo tempo, transcendente a todos os campos pelos quais a cultura urbana se desdobra.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira