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Fotografia: Manuel Abelho

Uma demonstração de força e ambição.

Conan Osiris no Coliseu dos Recreios: um pequeno grande mundo

Fotografia: Manuel Abelho

Se perguntássemos a Tiago Miranda, em 2017, quando ainda trabalhava numa sex shop, se ele saberia que dentro de dois anos iria estar no centro de um Coliseu dos Recreios esgotado, duvidamos que a resposta fosse “sim”. No entanto, a naturalidade com que Conan Osirisenfrentou a multidão que o foi ver não deixou dúvidas de que tudo o que estava a acontecer parecia mesmo obra do destino. Naturalidade essa que se manifestou logo na recepção no recinto, quando, à medida que iam entrando, as pessoas recebiam um papel em que se podia ler: “Este cartão quando rasgas tem lá sementes duma flor. Não tou a gozar, achei excelente e quis te oferecer. Parabéns. Conan”.

À medida que o público se sentava à volta do palco situado no centro do Coliseu, a tensão no ar aumentava e as expectativas cresciam, expectativas essas que se soltaram quando as luzes se apagaram e se começou a ouvir uma batida acompanhada de gaita de foles. A voz de Conan ouvia-se pela primeira vez em “Beija-Flor”, ainda com o palco vazio. Depois, o músico entrou sozinho ao som de “100 Paciência”, mas não ficou muito tempo a solo: o bailarino João Reis Moreira trouxe consigo seis bailarinos, a “Team Bolo de Arroz”, grupo que se apresentaria em diferentes momentos da noite.

Foram duas horas de planeamento milimétrico que, na prática, resultaram num espectáculo memorável com poucas (ou nenhumas) falhas que dessem para ser detectadas a olho nu.

O primeiro momento de unanimidade (com direito a dança colectiva) aconteceu ao som de “Borrego”, a quarta faixa do alinhamento que tinha arrancado com um inesperado quarteto de cordas acompanhado por um shamisen (instrumento japonês de três cordas) e uma flauta. As primeiras palavras dirigidas ao público tardaram, mas chegaram: “Mais alto que isto é para a televisão!” O tom humorístico não desapareceu da pessoa que vimos crescer em 2018, aliás, parece estar mais vivo do que nunca. Esse tom honesto permitiu-nos entrar completamente no universo do músico, que nos recebeu de braços abertos com todo o amor, paciência e compreensão. Uma maneira de meter no mundo aquilo que espera receber de volta.

Nada nos preparara para uma das surpresas menos óbvias — se bem que se pode e deve sempre esperar tudo… –, revelada com o aparecimento dos Pauliteiros de Miranda, para nos darem “Titanique”, primeiro, sendo-lhes, depois, entregue o palco para se mostrarem sozinhos enquanto Conan mudava de roupa (uma das várias mudanças que aconteceram).

O primeiro “boa noite” veio já uma hora depois do início do concerto, brincando ainda com a sua falta de comunicação, “pensavam que no Coliseu já não falava”, e apresentando de seguida os bailarinos que tomaram conta do palco e mostraram, um a um, as suas capacidades. Seguiu-se um dos momentos mais esperados da noite com “Telemóveis”, tema que mereceu um novo arranjo executado por uma pequena secção de cordas.

Tiago Miranda tem um talento natural para o espectáculo, e isso tornou-se mais evidente a cada segundo que passava, utilizando todo o recinto para a performance, desde o palco que foi ocupado pela banda às galerias que também serviram para os bailarinos dançarem, mas também a grande tribuna principal que recebeu o músico em “Ave Lágrima” e Branko, que apresentou uma faixa com Ana Moura — a cantora subiu a palco para interpretar uma música inédita com Conan Osiris. Houve ainda espaço para Scúru Fitchádu trazer um pouco mais de loucura em “Nasce nas Acucenas” com o seu ferro tocado com uma faca.

Depois de uma “Celulitite” que fez um Coliseu cantar em coro, chegava a hora de Conan ficar a sós, só ele e o seu público, para “Amália”, momento de grande emoção na sala.

Achando-se que o espectáculo tinha chegado ao fim após um grande clímax dramático com uma das músicas mais pesadas da sua discografia, o público já estava a pegar nos seus casacos quando o instrumental de “Telemóveis” se voltou a ouvir, permitindo uma última dança e despedida a toda a equipa de artistas.

Conan Osiris cimentou o seu lugar no panorama musical português com o que terá sido um dos maiores espectáculos nos últimos tempos em território nacional, digno de um qualquer artista pop norte-americano, ajustando, claro, à escala portuguesa — em ano de lançamento de Homecoming de Beyoncé na Netflix, ficamo-nos com a certeza de que as imagens captadas hão-de ter espaço na RTP.

Além da minuciosa produção, o músico conseguiu, em duas horas, juntar várias vertentes diferentes que definem a identidade cultural de Portugal: dos Pauliteiros de Miranda ao fado, do funaná ao kuduro e à música clássica, o que parecia, à primeira vista, impossível de cruzar fundiu-se com a maior das naturalidades, tal e qual a obra deste carismático artista. Conan ensinou-nos que as fronteiras também existem para ser quebradas, quer seja através dos múltiplos géneros musicais que aborda, quer seja no seu papel de estrela pop que, ao mesmo tempo que assume a sua posição de adorado, afasta-se de pedestais e pretensiosismos, recebendo carinhosamente o seu público, os “bebés”, como se de uma família se tratasse, ao ponto de terminar o concerto com um aviso de um meet and greet depois, onde o público poderia ter uma conversa com ele.

Amado e criticado em doses quase iguais (e nocivas), o autor de Adoro Bolos demonstrou ser um ambicioso visionário pronto para se assumir como o grande artista pop de uma geração. E que falta fazia!…


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