Colónia Calúnia no Copenhagen: Poesia de café em formato intimista

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

O colectivo Colónia Calúnia subiu ontem ao palco do Copenhagen representado por um trio de peso: VULTO. e L-ALI deram o concerto de apresentação de CAFÉ, o primeiro álbum da dupla que se estreou com o EP SURREALISMO XPTO, seguidos de um DJ set de PESCA, produtor que também tem estado a dar cartas no subsolo e que, inclusive, produziu alguns temas d’O Conto e assina todos os instrumentais de Baço

As portas abriram as 22h e quem entrou no espaço deparou-se com uma mesa e duas cadeiras – ao estilo de esplanada – no lugar do palco. Afinal de contas, todos estavam ali pelo ‘café’. Para enquadrar o público no contexto da sonoridade que Colónia Calúnia veio defender, VULTO. mixava alguns dos seus temas favoritos. A começar pelas suas produções e remisturas inéditas caseiras, houve também especial destaque para o rap independente que se faz tanto em Portugal como no Reino Unido.

Eis que chegou a altura de uma dose de cafeína sónica para saciar todos aqueles que se deslocaram ao local para ver a dupla em palco a apresentar o primeiro longa-duração em conjunto. Ambos se sentaram à mesa e VULTO. a surgiu desta vez sem qualquer apetrecho electrónico, focando-se nas back vocals necessárias para L-ALI fazer a ponte entre as suas rimas e o precioso tempo de respiração. Os instrumentais ficam a passar em piloto automático, num concerto sem quebras, com as faixas a surgir uma após a outra. “JONAS VAISSINDO” marca o arranque da apresentação, que foi ganhando força à medida que o tempo decorria. E se no início tardavam em surgir os primeiros aplausos e assobios, as reacções do público foram-se notando cada vez mais conforme L-ALI provocava fortes investidas ao microfone. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, já dizia Pessoa. Escusado será dizer que o rapper e o produtor não se contiveram nas suas cadeiras o tempo todo e acabaram o concerto em pé.

Resumidamente, isto não foi um café, foi um abatanado. Por entre as faixas do álbum, haviam outras prendas que a dupla nos quis oferecer. Desde modificadas versões de “INTRO VERTE” e “SUPERMERCADO” – ambas do EP de estreia SURREALISMO XPTO – a um par de novos temas que cativaram a atenção do público pelos malabarismos líricos com que L-ALI adornava os instrumentais de VULTO.

PESCA tomou conta do som durante o resto do evento, sempre disposto a captar a atenção dos presentes na pista com os seus melhores iscos. Do trap acutilante de Desiigner em “Panda” às cadências menos velozes de “THat Part” e com paragens por universos mais groovy como é o caso de “King Kunta”, o produtor acabou a noite em estado de graça e a honrar a diversidade de hip hop a que podemos assistir hoje em dia.

 


 

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira