Ciência Rítmica Avançada: a música urbana portuguesa diz “presente” no Super Bock em Stock 2019

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Sebastião Santana

Arranca amanhã uma nova edição do Super Bock em Stock. Como tem sido hábito nos últimos anos, Rui Miguel Abreu, director do Rimas e Batidas, é o curador da Ciência Rítmica Avançada, a disciplina que leva até aos palcos MOCHE Lá Dentro e MOCHE Lá Fora, montados no Cineteatro Capitólio, algumas das mais importantes vozes do panorama actual da música urbana. Este ano, os nomes são Keso, ORTEUM, João Tamura, Bambino, AMAURA e Perigo Público & Sickonce.

Marco Ferreira é um MC e produtor do Porto, fundador e mentor da Paga-lhe o Quarto Records, uma editora independente que é responsável por dar a conhecer novos talentos vindos do norte de Portugal, como são os casos de Bug, Riça, Myka, M’Cirilo ou Pibxis. Na música assina como Keso, um dos nomes de maior culto entre o circuito hip hop underground portuense. O primeiro álbum, Raios te Partam, conta com o carimbo da Matarroa, label que primava pelo sentido de inovação estética, acompanhando de perto a escola de rap alternativo da Def Jux. O Revólver Entre As Flores e KSX2016 foram os discos que se seguiram, o primeiro, que recentemente celebrou o 10º aniversário com uma reedição em vinil, ainda hoje tido como um dos clássicos mais obscuros do hip hop português.



Fundada em 2008, ORTEUM começou por ser uma crew que juntava diversos MCs da periferia de Lisboa, tendo passado por um longo processo de desmembramento até se solidificar como trio, representado por Tilt, Nero e Mass nos microfones. Depois de uma jornada de duas mixtapes que guardam algumas das melhores rimas em português “cuspidas” na presente década, os ORTEUM fundaram a sua própria editora — a RAIA — e por lá lançaram o seu primeiro LP e originais. A Última Gota reúne 12 faixas de boom bap do mais cru, pela quais encontramos rastos deixados por gente como Beware Jack, Metamorfiko, Johnny Gumble, John Miller ou TOM.

Produto da mesma geração que viu nascer os ORTEUM, João Tamura rapidamente criou um campeonato só para si dentro do nosso país, apresentando-se num misto de rap e spoken word, cuja principal orientação se prende à força poética das suas rimas. Ainda enquanto Cam, editou em 2009 a maquete “Origamis”, que após a mudança do nome de artista viu nascer vários singles a solo e projecto paralelos como Eu e Uma Rapariga Que Conheci e Os Lobos Comeram a Lua, este último dividido com Harold e Holly. Em 2016 regressou aos projectos com HOKKAIDO, um EP totalmente produzido por Holly, e no mês passado deu a conhecer Singapura, o primeiro acto do tão aguardado álbum de estreia.



Se traçarmos toda a história do hip hop português, o nome Bambino aparece lá bem no início. Oriundo da Margem Sul, Madnigga despertou nos Black Company fez parte da mítica compilação Rapublica, sendo por isso um dos primeiros artistas de sempre a gravar uma música rap em solo nacional. Apesar de ser dono de um curto currículo em nome próprio, a verdade é que Bambino nunca desapareceu por completo do radar e focou-se maioritariamente na produção, tendo colaborado com rappers como Chullage, Boss AC, Kacetado ou Valete. Este mês juntou-se a Sanryse nos In3gah, o projecto mais recente a merecer a atenção da RAIA, e do qual florescerá um disco no próximo ano.

Em tão pouco tempo, Maura Magarinhos conseguiu trilhar um percurso irrepreensível dentro do circuito da música urbana em Portugal. Habitou o nosso ouvido a associá-la a alguns dos nomes com mais peso dentro da comunidade hip hop — participou em faixas de Beware Jack & Blasph, Sam The Kid, TNT, Bob Da Rage Sense ou Fred — e, enquanto distribuía jogo, cimentou a sua ligação à Mano a Mano ao mesmo tempo que trabalhava no seu primeiro projecto de sempre. A mixtape EmContraste saiu em Setembro e mostra AMAURA como uma aposta de futuro garantido na cena soul e r&b nacional.

Companheiros de longa data, Perigo Público & Sickonce são os nomes que se seguem no radar de edições da casa de talentos da Kimahera. Depois das primeiras colaborações terem surgido de forma pontual, MC e produtor aliaram esforços e assumiram-se enquanto dupla no álbum 1991. Dois anos depois, a dupla tem agora Porcelana em mãos, o álbum que se segue e que tem data de edição marcada para o dia de amanhã. Rap consciente e batidas com os olhos postos no mundo é o que, para já, podemos constatar através dos dois avanços já disponibilizados — “O Ano da Morte de Amaru Shakur” e “Bênção”.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira