Chassol: “O que percebo agora é que nunca trabalhas sozinho”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Sickonce

O compositor e pianista Christophe Chassol regressou a Portugal neste mês de Abril e passou pelo Festival Som Riscado, em Loulé, e pelo Theatro Circo, em Braga.

O francês já tem um longo percurso: começou aos 20 anos a tocar para outros músicos, fazer arranjos, a compor para filmes ou a fazer música para publicidade – confessou detestar a última na masterclass no Cine-Teatro Louletano.

Conhecido em parte por ter trabalhado com Phoenix, Sébastien Tellier e, mais recentemente, Frank Ocean e Solange (em Blonde, Endless e When I Get Home), o currículo de Chassol é rico em colaborações, mas destaca-se a solo pelo trabalho com uma técnica muito específica: o “ultrascore”. Esta forma de conceber música resulta de uma influência muito forte do cinema e consiste em retirar sons à partida não-musicais e melodiá-los ou harmonizá-los maioritariamente a partir de elementos audiovisuais. Exemplos não faltam para demonstrar o brilhantismo (e possível ouvido absoluto) de Chassol, já que desta técnica resultam Nola Chérie, Indiamore ou Big Sun (disco de 2015 que veio apresentar nesta edição do Som Riscado).

Sem reservas nas respostas e bem-humorado, o músico falou-nos sobre as sessões com Solange, o trabalho com Frank Ocean (revelou que esteve em estúdio com o norte-americano em Setembro de 2018), o seu próximo álbum-filme e Jordan Peele.



Porque escolheste apresentar o Big Sun, um disco de 2015?

Já temos um espectáculo novo, mas a verdade é que as pessoas não me conhecem em Portugal. Como tal, preciso de tocar coisas que domino melhor, para ter uma maior oportunidade para ganhar algum público. E eu adoro tocá-lo. Temo-lo tocado desde 2015 e ainda é uma alegria total, nunca me cansei deste trabalho. E já o tocámos muito! Mas continuo a querer fazê-lo, quero tocá-lo a vida toda. Não acredito na “nova cena”, sabes? Quero ter um reportório.

O que podes dizer-nos sobre a tua experiência de colaborar no novo álbum da Solange?

O que posso dizer? O que queres saber?

Quero saber como a ideia começou, a razão para ela te ter chamado, o que achaste da experiência… o que quiseres contar!

Tu não me chamarias? Estás a perguntar-me o porquê de ela me ter chamado porque tu não o farias?

Não, não! Não quis dizer isso.

[Risos] Estou a brincar. Ela é uma mulher curiosa, quer saber coisas, está a fazer digging. Ela é uma nerd/geek, como nós. Então ela conhecia-me e ao meu trabalho, portanto… devemos dar-lhe crédito por estar a procurar música que gosta pelo mundo todo. Assim, ela chegou ao Big Sun em Nova Orleães. Foi apresentado no Centro de Arte Contemporânea de lá, onde toquei o meu primeiro trabalho, Nola Chérie. Depois mostraram lá o Big Sun, o filme. Ela vive lá, por isso viu e gostou. Depois ouviu o Indiamore. Penso que ela escreveu alguma coisa na Internet… Dois anos depois, ela enviou-me um e-mail porque apercebeu-se que o meu baterista americano, o Jamire Williams, tinha sido seu colega no liceu. Eles estiveram na escola de artes no Texas, de onde todos os tipos de r&b/ avant-garde negro vêm, aparentemente. Então, depois de se aperceber disso, perguntou se abriríamos para ela na Radio City [Music Hall] em Nova Iorque e no Greek Theatre em São Francisco. Fizemo-lo e foi fantástico. Depois disso trabalhámos num anúncio, mantivemo-nos em contacto. Ela perguntou-me se podia ir até LA para gravar, uns cinco dias e… perguntou-me por ser uma pessoa curiosa!

Antes de chegares, o teu manager estava a contar-me que a “Can I Hold The Mic” da Solange (onde fazes o mesmo processo do “ultrascore”, em que ela fala e tu traduzes a melodia) foi uma ideia tua, certo? Foi uma sugestão tua?

É um processo colectivo em estúdio. Ela sabe o que faço, conhece o meu trabalho. Eu adapto-me durante a sessão. Fizemos muita coisa diferente. Tocámos em banda: o Jamire na bateria, o John Key a engenheiro de som, um tipo a tocar sintetizador. Estávamos juntos a tocar, a propor ideias. Fizemo-lo dois ou três dias e mais tarde pensei que poderia fazer alguma coisa a partir de uma conversa gravada com ela. Portanto, isolei-me com esta conversa, tentei encontrar o que queria “melodiar”. Mas, quer dizer, ela chamou-me por conhecer este processo. Não é a minha ideia, não tem a ver com ficar com o crédito. Ela sabia que iria fazê-lo.

Disseste em 2015 – penso que terá sido para a Red Bull – que tinhas gravado com o Frank Ocean, ainda antes de saírem o Blonde e o Endless. Dizias que nem sabias que partes iriam ficar nas canções. Como foi a experiência de ouvir tudo depois de sair?

Foi uma experiência de dois passos, porque não ouvi realmente com atenção até Setembro do ano passado. Por razão nenhuma! Mas fui a LA para trabalhar com o Frank em Setembro. Em LA tens de conduzir, mas eu fui para o estúdio a pé, gosto de fazer caminhadas longas, 45 minutos a andar. A caminho do estúdio, já à noite, pus os dois álbuns em aleatório, e foi uma grande experiência! Eu reconheci coisas minhas de tempos a tempos, algumas vibes de trabalhos passados… Senti-me muito grato. Ele fez um trabalho fantástico. E muito… estas pessoas, a Solange e o Frank, eles não são mainstream, mas estão muito à superfície e estão a fazer merdas maradas. Assenta agradavelmente. Não estão a tentar fazer hits. Estão a arriscar.

O teu conceito do ultrascore é uma forma fantástica de conceber música. A ideia de traduzir o espectro dos sons – supostamente não-musicais, muitas vezes – e transformá-los em melodias e harmonias. Acredito que seja muito estimulante para ti também, não? Até com a parte visual. Onde encontras a tua inspiração e vídeos hoje em dia?

Eu acabei agora um novo álbum-filme. A inspiração das ideias vem de uma questão honesta: “o que quero ver?”. Portanto, eu tento responder a essa pergunta, e tento ir aos sítios filmar coisas que quero ver. Este novo filme é sobre o jogo e o acto de jogar. Por isso fomos filmar videojogos no Japão, montanhas-russas, um parque muito fixe, jogos de basquetebol, cantores – pedi a alguns cantores para jogarem o jogo da frase. Criar uma frase, cada um diz uma palavra, e repetindo a palavra para tentar formar a frase, depois harmonizo tudo.



Genial — assim tens diferentes vozes. Toda uma nova forma de conceber o ultrascore!

C: Sim! E filmei num green screen, para poder pô-los por cima das imagens que gravei. Quanto à inspiração dos vídeos, imagens que me inspiram, elas estão por todo o lado. Qualquer coisa que vejas inspira-te. Mas ainda me inspiro muito nas coisas antigas que gosto. Há um filme chamado Belladonna of Sadness. É um filme japonês de 1972. Pronto, coisas de geeks. Mas é um filme lindo. Perguntei a pessoas que sabem como se faz esse tipo de filmes, e tentei aprender um pouco mais sobre como criar imagem

Tens um realizador favorito?

Agora há um tipo, o Jordan Peele. Adoro-o!

Já viste o Us?

Já, genial! A Lupita está magnífica no filme. Mas o Get Out foi incrível.

Preferiste o Get Out?

Claro!

Eu percebo, mas o Us tem tantas camadas…

Há uma expressão em francês: “tiré par le cheveux”. Quer dizer que é mais complicado. O Get Out era mais óbvio. Lembro-me quando fui ver o Get Out, eu não fazia ideia do que ia ver, só sabia que era do Jordan Peele. Eu conhecia-o de Key and Peele, porque eu adoro Key and Peele. Além disso, mantenho-me nas mesmas coisas, filmes do Brian de Palma.

Vês ou sentes uma grande diferença entre trabalhar sozinho e a colaborar com outros músicos e compositores?

O que eu percebo agora é que nunca trabalhas sozinho, mesmo quando pensas que o fazes. O artista nunca está sozinho, é um mito. Tens sempre pessoas em teu redor, recebes conselhos, recebes vibrações. Eu trabalho com o Mathieu Edward, o meu baterista; o meu manager também é músico; o director da minha editora é compositor e músico… Trabalhas constantemente com as pessoas.

Percebo. Achei que seria interessante perguntar porque quando trabalhas com alguém sente-se a tua assinatura musical na mesma. Como no álbum da Solange, consegues entender logo, “olha, é ele, lá está o ultrascore!”.

É um hábito porque eu assinei como artista a solo quando tinha 35 anos, tenho 42 agora.. Eu comecei a tocar [de forma amadora] aos quatro e profissionalmente aos 20. Eu fui um artesão: fui sideman, fiz música para publicidade… Portanto, eu sei onde pôr o ego, sei adaptar-me. Tenho toda a liberdade que quero quando são coisas minhas.


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