pub

Fotografia: Manuel Abelho

Uma nova força a ter em conta no panorama nacional.

Cátia Sá na ZDB: um safari na selva onírica

Fotografia: Manuel Abelho

O cenário inusitado no aquário da Galeria Zé dos Bois destoava do que é comum acontecer nesse mesmo espaço do Bairro Alto: o palco coberto quase na totalidade por grandes ramos – a “selva amniótica” – e Cátia Sá, colocada na zona onde costuma estar a primeira linha de espectadores, tirou-nos, logo à partida, o “tapete”, obrigando-nos a reformatar qualquer ideia pré-concebida que levássemos. A limpeza necessária para o que viria a seguir.

Os instrumentais disparados num sistema de som quadrifónico – ideal para uma maior imersão – vão tanto das estruturas mais dissonantes e caóticas, pontuadas por 808s distorcidos e percussões imprevisíveis, como a loops harmónicos e texturas mais subtis e atmosféricas (“VALERIAS” é um bom exemplo da justaposição destes universos, na qual o baixo e os samples seguram a estrutura, enquanto a batida troveja sem loops). Embora essa produção esteja no plano central da música de Cátia, a voz é um elemento muito presente: ouvimo-la limpa e processada, fazendo também parte do instrumental como sample ou em harmonização com os vocais gravados.

Em DA BARRIGA, as músicas encontram-se separadas umas das outras, mas poderiam muito bem ser um organismo só, e ao vivo as passagens mais paisagísticas entre canções fascinam e revelam muito sobre o lado menos percussivo da identidade musical de Cátia e a dimensão performativa e conceptual daquilo que cria. A dimensão singular do seu som vive da mistura da música de protesto mais actual — “DEUSA DA PODA” é o hino que poderia ser banda sonora de qualquer marcha feminista –, com rasgos de Yeezus de Kanye West e nalguma da música contemporânea exploratória e desafiante feita por nomes internacionais como Arca ou, se falarmos do caso nacional, em Odete e Stasya, por exemplo, sem esquecer que facilmente se encontram paralelismos com B Fachada e alguns dos elementos da Cafetra na forma como canta e escreve.

Na passada sexta-feira, a ZDB transformou-se no ventre criativo da artista (a emanar, através da indumentária, energia diferenciadora) e nós, quais exploradores em missão especial, tivemos a hipótese de assistir em primeira mão às suas transformações, umas mais violentas, outras mais oníricas, mas todas importantes para manter o equilíbrio do seu rico ecossistema musical.

pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos