Canela En Surco Records: “Percebemos que estávamos diante de um trabalho muito especial”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Breixo Martinez, da novel Canela En Surco, junta-se aos companheiros da vizinha Urpa i musell, também de Barcelona (e a etiqueta que no início do ano nos chamou a atenção para este relançamento) neste colectivo esforço de recolocar o passado electrónico no actual presente digital.

Entre outros pormenores interessantes, a Canela En Surco revela até qual a loja em que descobriu o seu primeiro exemplar da edição original de Universo da Ilha que, como nos explica Vasco Martins na sua entrevista, foi alvo de uma prensagem privada tornada possível graças a um mecenas francês.

A Canela En Surco adianta ainda não querer limitar-se ao terreno das reedições e revela que poderá estar a preparar lançamentos de trabalhos contemporâneos: “Só queremos lançar música que esteja perto de nós, porque conhecemos ou admiramos o artista ou pela forma como chegamos a um determinado trabalho”.

 



Gostava de perceber como chegaram até este trabalho do Vasco, como o enquadram neste presente feito de tantas reedições…

Um dos dois é da Galiza. Gostamos muito de ir à procura de discos na nossa terra, mas também em Portugal (que achamos que é um pouquinho a nossa terra também) e faz uns dois anos que encontrámos o Universo da Ilha na loja do DJ Alexandre Barbosa.

No mesmo momento que vimos a capa (obra da grande artista Luísa Figueira, a quem dedicamos em parte esta reedição) e a contracapa percebemos que estávamos diante de um trabalho muito especial e distante no tempo, mas perto do nosso espaço por causa da grande relação que muita da música de Vasco tem com o Oceano Atlântico.

Não sabíamos nada do disco mas levámos para Barcelona (o nosso acampamento base) quase sem escutar e, ao chegar a casa, ficámos totalmente doidos com a música e sentimos a necessidade de saber mais coisas sobre o seu autor.

Nas semanas seguintes, procuramos informação do disco, mas não encontrámos muito na rede. Felizmente, alguns meses depois, Vasco abriu uma conta de Facebook e começámos a escrever-lhe e tentámos saber mais coisas sobre ele e toda a sua obra.

Depois de uns meses de conversas sobre música, sobre Cabo Verde, Galiza (e a nossa grande relação com o Oceano e com a língua portuguesa), sobre Barcelona, sobre o cosmos e a nossa posição no Universo, etc., pensámos na ideia de lançar uma segunda edição do Universo, mais de 30 anos depois e assim também continuar como uma gravadora o que começou há cinco anos como um programa de rádio, algo que por um tempo pensámos fazer mas nunca sentimos a mesma proximidade ao artista e à sua obra como a que sentimos com o Vasco Martins e a sua música.

Temos que dizer também que nós sempre fomos somos grandes fãs da música de José Carlos Schwarz e, falando com Vasco um dia, ele contou que os dois estiveram juntos um tempo na banda Kola, o que é uma coincidência mas que nos deixou muito entusiasmados.

Estamos cientes do grande número de reedições ao lançar este novo label e só temos claro duas coisas: que não queremos nem podemos nos tornar uma grande empresa que relança discos apenas porque eles são caros ou são pesquisados por muitas pessoas online e a segunda é que temos muitos amigos que estão a fazer música incrível e serão também parte da gravadora no futuro. Só queremos lançar música que esteja perto de nós, porque conhecemos ou admiramos o artista, pela forma como chegamos a um determinado trabalho, etc.

Vêem o disco como um clássico electrónico baleárico? Encaixam-no mais na corrente série de reedições de obras new age? 4Th World?

Apesar do Vasco Martins ter criado músicas de estilos muito diferentes, a sua faceta new age e experimental tem estado presente até ao dia de hoje na sua música. Por outro lado, O Universo da Ilha também pode ser enquadrado nesse amplo espectro como é o do balearic que cobre tantas coisas e que achamos mais um sentimento do que um estilo, embora seja certamente curioso para nomear balearic a uma música tão atlântica…

Outra coisa: falem-me do lado técnico da reedição. Não tiveram acesso ao master, fizeram restauro a partir de uma cópia em vinil?

As fitas originais do disco desapareceram em Dakar há alguns anos e tivemos que fazer a restauração de duas cópias que tínhamos e que felizmente estavam num grande estado de conservação. A restauração e o mastering foram feitos em Madrid por Ángel Álvarez.

 


Vasco Martins: “Este disco, para mim, já estava nas dobras do tempo”

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu