Caleidoscópio: o rap para ravers dos DopeFinest

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Os DopeFinest lançaram o seu segundo álbum no mês passado: Caleidsocópio é uma viagem psicadélica pelos trilhos do boom bap — e está dividida em nove faixas.

Tudo começou em 2013. “Cuspo”, a primeira faixa editada por DWÓ na companhia de Jackcrack, gerou um pequeno culto no SoundCloud em Portugal entre os militantes do hip hop que dedicam algum do seu tempo a perfurar as várias camadas da cultura à procura de novas vozes e sonoridades. A promessa de um EP por parte do produtor não passou disso mesmo, tendo DWÓ “desaparecido” na neblina daquela plataforma e regressado, quatro anos mais tarde, com o seu afamado companheiro das rimas para um projecto de maior dimensão — Scopolamina, o álbum de estreia dos DopeFinest, saiu em 2017 e foi alvo de uma escuta atenta por parte do Rimas e Batidas.

No passado mês de Fevereiro, a dupla voltou com um novo trunfo nas mangas: Caleidsocópio é uma “evolução natural” do primeiro trabalho, um disco de boom bap necrófago no qual Jackcrack manda para a cova — ou mete no bolso — qualquer rapper do movimento cuja carreira se baseia em versos demasiado floreados. O cocktail de cocaína, ácidos e fumos só não coloca em overdose os dois criativos, que no LP trocam as influências de Harlem ou Brooklyn pelas “carcaçadas” de uma vida de romarias que os levou a conhecer a fundo o circuito das multicoloridas festas clandestinas de trance e techno espalhadas pelo país. Mais do que rap para instruir as boas maneiras na arte da rima, Caleidoscópio é um turbilhão de rabiscos e devaneios de quem “não dava dois passos sem dar nela”, um daqueles raros projectos de hip hop que casaria na perfeição com o alinhamento de um festival Boom ou Freedom.

Estivemos à conversa com DWÓ e Jackcrack para saber um pouco mais sobre as suas raízes e o que os motivou a dar vida ao sucessor de Scopolamina.



Antes de mais, gostava que nos dessem a conhecer um pouco mais acerca de vocês e dos vossos percursos. Quem são o DWÓ e o Jackcrack, para além desta dupla DopeFinest?

[DWÓ] DWÓ é do Ó, de apelido, rapper e produtor da zona de Oeiras. Inicialmente apenas rapper. Comecei a rimar com o Jackcrack ainda em putos com freestyles pela noite fora e só mais tarde é que investi, a meias com o DirtyGus, numa placa de som e num microfone e começámos a gravar as primeiras faixas com beats da net. Vivi e “estudei” Som e Imagem nas Caldas da Rainha durante uns quatro anos, onde conheci pessoal da música como o Razat, Ângela Policia, Lula’s Cachupa Psicadélica e Jota (Uaimi), com quem fiz uns sons e partilhei horas de estúdio. Isso começou a despertar o meu interesse na parte da produção e comecei a investir mais nesse sentido. De volta a Oeiras, sem o curso das Caldas terminado, meti-me num curso na Restart que me consolidou mais as ideias e deu-me mais estaleca para começar a fazer o Scopolamina com o Jack.

[Jackcrack] Jackcrack é a versão 2.0 da alcunha Jackpot. Sou Jack para toda a gente e muito sinceramente não sei o que veio primeiro, se a alcunha, se o rap. Não tenho memórias de puto mas foi talvez o rap, I reckon. Não tenho qualquer formação musical, não pesco nada disso. Não faço ideia de como se faz um beat, só sei rimar. Fã máximo de rap tuga, desde, para aí, os 8 anos até aos 16/17. Curtia quase tudo o que conhecia, gravava tudo o que podia e ia ouvir ao vivo quem conseguia. Era mesmo fã! Depois caguei no rap — de ouvir, de fazer, de falar sobre até. Virei-me para o techno e para o trance a sério, vivia em função das raves, completamente vidrado, não ouvia mais nenhum estilo musical. Lá para os 23/24 anos, o do Ó já estava todo pro dos beats e das rimas e sempre a foder-me a cabeça para voltar. E voltei. Mudei o nome para Crack porque já havia um rapper chamado Jackpot e porque na altura não dava dois passos sem dar nela [risos].

Como surgiu e se tem mantido esta colaboração?

[DWÓ] Conhecemo-nos desde os 14/15 anos numa passagem de ano a mandar freestyles. A cena do hip hop fez-nos ficar mais próximos e desde então é meu bro, for life.

[Jackcrack] Conheci o puto Pedrinho no meio dos betinhos do bem e estraguei-lhe a vida para sempre [risos]. Somos tropas, mesmo.
Conhecemos as respectivas famílias, vamos de férias juntos, vamos à bola juntos, apanhamos mocas juntos, a música é só mais uma dica que fazemos juntos.

Estrearam-se no SoundCloud com a “Cuspo” e só em 2017 tivemos acesso ao vosso projecto de estreia. Lançaram agora o Caleidoscópio, um trabalho que dá seguimento à linha dos temas anteriores. Do vosso ponto de vista, de que forma definem este novo álbum e que diferenças encontram nele comparativamente ao anterior Scopolamina?

[DWÓ] Para mim, o Caleidoscópio é uma evolução natural do Scopolamina.
Sinto-me mais confiante na parte da produção e do mixing e, já sabendo do potencial de escrita do Jack e de ouvir as novas letras pesadas que ele me mostrava, foquei-me em tentar melhorar a parte que me competia para darmos mais força ao resultado final.

[Jackcrack] Sinceramente, eu não faço planos de nada e de forma alguma tentei influenciar o formato deste novo álbum. Eu escrevo o que estou a sentir quando estou a ouvir o beat, ponto! É por isso que não gosto de temas nos sons, nunca me vou pôr a mim próprio num quadrado. Posso dizer que as letras que entraram no álbum são tipo um quinto das letras que escrevi entre o Scopolamina e o Caleidoscópio e estas fizeram mais sentido com os beats. Algumas ainda vou usar, outras estão uma grande merda. Da parte da minha escrita, digo que nada é premeditado. Depende do feeling, da moca, do beat e também de quem ando a ouvir na altura. Ouvi muito Jam Baxter e Ocean Wisdom enquanto escrevi este álbum. O do Ó está patrão nos beats e na mistura e eu sou granda tagarelas, tenho sempre alguma merda para dizer [risos].

Apesar do burburinho que têm criado no circuito mais underground, creio nunca ter apanhado um anúncio de um concerto vosso ou a promoção de algum trabalho com recurso a videoclipe. O que se segue para a dupla daqui para a frente? Têm algum plano traçado para a continuidade do projecto ou uma meta pessoal para atingir em 2020?

[DWÓ] É verdade que nunca cantámos ao vivo ou fizemos um videoclipe, não é o nosso principal foco o recurso a imagem, mas estamos a planear um videoclipe duma faixa do Caleidoscópio e também estamos abertos a convites para concertos. Não temos planos traçados, o nosso embalo é ir fazendo sons e mais sons e curtir enquanto o fazemos. A meta é essa, gostarmos do resultado e sentirmos que os nossos também sentem.

[Jackcrack] Em relação a vídeos e concertos de DopeFinest, não houve muito por culpa minha. Vídeos porque eu não ligo e sinceramente acho que só faz mal à música. Concertos porque me cortei sempre que houve oportunidade, porque não sei as letras de cor [risos]. Além disso, preguiça, desinteresse e talvez uma beca de medo também. Mas ya, como toda a gente, mudo de ideias e talvez agora não me corte. Já fiz alguma música, se calhar agora o próximo passo é cantá-la ao vivo e acrescentar a vertente visual. Ando-me a convencer disso. O trabalho do do Ó merece isso tudo.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira