“CAIXÃO” abre a [caixa] de Secta e Metamorfiko

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Sebastião Santana

Nova edição no horizonte de COLÓNIA CALÚNIA: Secta e Metamorfiko formam dupla em “CAIXÃO”, o primeiro avanço de [caixa], que tem um videoclipe com selo da Uppercut Inc., filmado e editado por Sebastião Santana e Luis Almeida, respectivamente.

Embora Secta seja um nome próximo do universo de VULTO., esta será a primeira vez que o veterano MC  da Marinha Grande se junta às edições pelo colectivo criado pelo produtor em 2016. [caixa] representa também o primeiro LP de originais com as rimas pontiagudas de Secta, ele que admitiu tratar-se de um formato “mais difícil” do que os restantes com os quais se apresentou: “Obrigou-me a ter uma postura e um processo na escrita um pouco diferentes do que estou habituado.”

Nas batidas, Metamorfiko cria os alicerces para que a voz distorcida do rapper caminhe com a dose necessária de segurança que requer esta travessia pelos caminhos pantanosos do hip hop underground. Teríamos de recuar a 2010 para ouvir Metamorfiko num registo semelhante, quando casou os instrumentais às letras de Ori, Kara, Osiris, Xek, Necxo e Sentinela em 6.1. Desde então, o produtor de Portimão tem-se confinado a um universo no qual apenas reinam as batidas, assinando colaborações pontuais com Tilt ou os seus ORTEUM. As suas mais recentes edições serviram para ajudar no upgrade ao catálogo digital de COLÓNIA CALÚNIA, com EYELASHES GONE, o EP de estreia pelo coletivo fundado por VULTO., como um dos destaques de 2018.

“CAIXÃO” é o primeiro avanço daquele que é um dos projectos mais aguardados deste ano por parte dos amantes de rimas e batidas aventureiras, despidas de géneros ou padrões pré-concebidos. Os versos esquizofrénicos de Secta mergulham num estado de demência profunda quando confrontados com as produções de Metamorfiko, que assina em [caixa] a sua mais arrojada obra até à data. É já na “próxima semana” que poderão fechar-se dentro dela.

 



Tenho a ideia de que a vossa história começa logo depois do MARCHA. Lembram-se como é que se deram os primeiros contactos? Já conheciam o trajecto um do outro?

[Metamorfiko] Ouvi o Secta pela primeira vez no MARCHA e pensei logo, “eu quero este gajo a rimar nos meus beats“. Achei a escrita dele complexa e pareceu-me um rapper com vontade de fazer coisas diferentes, que era o que eu queria — alguém que alinhasse nos meus devaneios. Rapidamente contactei com ele, comecei a mandar-lhe uns beats e foram surgindo alguns sons.

[Secta] Sim, o primeiro contacto foi depois do MARCHA e também já conhecíamos o trajecto, ou pelo menos algum projecto, um do outro. Eu já conhecia o Metamorfiko há algum tempo, desde o tempo da No Karma. O primeiro projecto que ouvi dele foi o Butter Files e lembro-me que na altura eu fazia os meus beats e pensei, “ok, esquece os beats que afinal já existe este gajo aqui na ‘tuga'”.

A partir de que momento é que sentem a necessidade de partir para um álbum? Qual foi o clique?

[Secta] Ao princípio, quando o Metamorfiko veio falar comigo, era só para experimentarmos fazer uma faixa ou duas e lançar, soltas. Entretanto essa faixa ou duas tornaram-se num EP e, a certo ponto, estávamos tão emaranhados e focados no projecto que fomos dar por nós já com um número de faixas que ultrapassava o estatuto de EP.

[Metamorfiko] A ideia inicial era simplesmente fazer uns sons soltos, mas surgiram dois ou três e achámos que tinham potencial para um EP. Com o avançar do tempo, vimos que havia um fio condutor e poderia estar ali um conceito e uma linha de pensamento interessantes, tanto a nível de temática como de sonoridade.

É curioso o MARCHA estar na génese deste projecto, já que o vão editar pelo colectivo fundado pelo VULTO., COLÓNIA CALÚNIA — para o Secta, esta vai ser a estreia. Olhando para a crew como um todo, o que vos atrai e vos levou a editar por um colectivo de mentes tão singulares na cena do hip hop nacional?

[Secta] Na verdade, acho que não fazia sentido este álbum não ser COLÓNIA CALÚNIA. Quando o pessoal ouvir vai perceber isso. Era inevitável. E, para além de COLÓNIA CALÚNIA ter um leque de artistas que respeitamos muito, tem também o nosso público.

[Metamorfiko] Faz todo o sentido lançarmos por COLÓNIA CALÚNIA. Temos todos uma sonoridade que caminha para o mesmo lado e não vejo outra label ou grupo, aqui em Portugal, por onde faça mais sentido lançar este projecto.

Acabam de apresentar o “CAIXÃO” como primeiro single. O que é que viram neste tema, que o tornasse indispensável para este levantar do véu sobre a [caixa]?

[Secta] Para começar, o próprio título da faixa. Já que o caixão é a caixa para onde todos nós iremos um dia…

[Metamorfiko] É o primeiro tema do álbum e, de certa forma, é um bom exemplo da sonoridade geral do projecto. É um tema que toca em algumas ideias do que é a [caixa] e onde nos situamos perante a mesma. No fundo, o som representa bem o álbum e a vontade de sairmos da nossa zona de conforto.

Relativamente ao vídeo, sei que a ideia partiu de vocês e o Sebastião Santana e o Luís Almeida ajudaram com a gravação e edição do clipe. Que ideia tentaram transmitir com estas imagens?

[Metamorfiko] Queríamos que o videoclipe representasse o som mas que não fosse muito óbvio. Basicamente dar a ideia de que queremos desbravar caminho.

[Secta] Inicialmente nós tínhamos a ideia de filmar mesmo num caixão. Mas depois acabámos por querer fazer algo não tão óbvio e acabámos por fazer de maneira a que transmitisse essa ideia.

Tentando já antecipar um pouco acerca do álbum: falem-me da sonoridade adoptada pelo Metamofiko, repleta daquele glitch que lhe é tão característico, com recurso às memórias da electrónica arcaica.

[Metamorfiko] Todo o álbum tem uma quantidade de samples enorme. Eu ainda prefiro samplar e fingir que o sample é um instrumento do que tocar em VSTs. Mas o álbum também tem vários sons tocados. Sorte minha que o Secta alinha nesta forma de adulterar tudo, da voz dele aos beats.

Ao nível da mensagem, o que é que o Secta teve sempre em mente nas rimas que escolheu para abordar os instrumentais? Dado que este é o primeiro álbum, existiu algum cuidado especial em torno da escolha das temáticas?

[Secta] Sim, acho que desta vez houve esse cuidado especial, mas não foi tipo, “ok, tenho de fazer assim porque isto agora é um álbum”. Até porque só quase na recta final é que começámos a ver que isto ia dar um álbum. Talvez também porque me queria afastar do que tinha feito no MARCHA. O MARCHA sou eu no meu estado mais puro. A cena é que eu não queria que este projecto ficasse colado ao que foi o MARCHA. Não queria que no final só houvesse diferença de flows e presença, ficando a parte escrita igual. E acho que, no início, foi isso que me obrigou a ter uma postura e um processo na escrita um pouco diferentes do que estou habituado. Por exemplo, eu costumo escrever e só depois é que penso num nome para dar ao som. Neste álbum, houve muitas faixas que começaram por ter logo um tema e um título definido e isso muda-me completamente a direcção e a forma de escrever. É muito mais difícil estar a “matar” dica a dica com este processo, mas no final consegui evoluir com isso e estou mega satisfeito com o resultado.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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