Buda XL à procura de um “Lugar Comum” entre Angola e Portugal

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A jornada de Buda XL rumo a um disco a solo arrancou em Abril de 2018 e está agora a escassos meses de chegar ao fim. A Arte de Propósito verá a luz do dia em breve e foi ontem antecipado por mais um single: “Lugar Comum” sucede a “Mano Hugo” e coloca o MC/músico da Amadora num registo intimista e ao leme da composição de um tema fortemente inspirado numa viagem a Angola onde passou por Luanda e Namibe.

O LP de estreia vai chegar através da Contentor Records, colectivo que tem servido para Buda XL expressar toda a sua musicalidade desde 2013, ano em que se estreou na banda Jack & Dante. É inegável a marca que João Neves está a deixar no espólio da editora que representa, tendo contribuído para praticamente toda a discografia da Contentor, em especial nos projectos Yakari, Caveman Quarrel’s, Jack & Dante, CNTR Big Band e, mais recentemente, no trio SXR. Maze, que recentemente se juntou à família CNTR para desenhar “O Negro Luto”, também contou com a ajuda de Buda XL na edição do videoclipe.

Estivemos à conversa com Buda XL sobre a procura por este “Lugar Comum”, que o leva até perto das suas raízes africanas, o álbum que se avizinha e a recente visita de Maze aos estúdios da Contentor Records.

 



Fala-me desta “balada da autodescoberta”. Que sentimentos procuraste explorar no “Lugar Comum”?

É essencialmente isso. É muito específico e pessoal. Escrevi esta música em Luanda, Angola, depois de ter passado uma semana no sul do país, no deserto do Namibe.

Sou neto de retornados que nunca perderam a ligação a Angola, mas eu nunca lá tinha passado muito tempo; pelo que toda esta descoberta pessoal e familiar estava à flor da pele quando voltei do deserto — com aquela constatação de que o mundo é mesmo gigante e que há sempre tanto mais para vermos e nos apercebermos, e assim nos descobrirmos a nós próprios. Foi o que estava a sentir naquele momento, foi muito natural fazer esta música.

És tu quem assume a grande maioria da composição do tema. Como é que tudo se processou, desde a linha melódica de guitarra que conduz a faixa às colaborações que adicionaste para condimentar o tema?

Escrevi-o à guitarra e quando voltei a Lisboa já tinha ideias de como a queria acabar. Acabou por definir um pouco a sonoridade que eu procurava para o álbum, numa altura em que já sabia quem seriam os colaboradores no projecto. A ideia sempre foi ter a família Contentor Records comigo. Queria uma melodia forte para o refrão e soube desde o início que o Ricardo ia perceber exactamente o quê. O Spock fez as drums mesmo on point e a ideia de acrescentar os sopros foi do Mr. Papz.

Sinto aqui uma forte ligação ao cancioneiro popular africano, algo que normalmente encontramos quando as faixas são produzidas com recurso a samples. O que te inspirou para compor este “Lugar Comum”?

Por ter sido composta no contexto que foi, naturalmente que as influências se notam. Além de estar totalmente exposto à música local, andava de volta dos vinis do meu avô e a descoberta que referi acima também foi musical. A letra e o instrumental andam muitos próximos, como já disse foi tudo muito natural.

Avisas na descrição do tema que este é um novo avanço rumo ao teu álbum. Porquê a escolha desta música enquanto single, visto esta se situar num universo já tão distinto do hip hop tradicional?

Tenho músicas no álbum mais perto do que podes chamar “hip hop tradicional”, no entanto procurei mostrar esta abordagem mais instrumentalizada, analógica e “diferente” se quiseres, porque essa vertente é que acaba por definir melhor a identidade do projecto, mesmo nos beats com samples. Complementa o single anterior, “Mano Hugo”.

Em que fase se encontra o álbum? Há convidados/produtores que nos possas adiantar?

Tenho instrumentais do Spock, naturalmente, com quem trabalho há anos, actualmente em SXR, meu irmão da música e do resto e o meu produtor preferido. Tenho outros do produtor italiano Uppeach, que conheci no Bandcamp. E um do Mr. Papz. O resto são composições minhas em que toquei todos os instrumentos, todos com drums do Spock. Os convidados são todos da família CNTR: o Ricardo Pereira (dos Yakari) canta em várias músicas, e o Mr. Papz gravou e misturou o álbum, sempre com ajustes criativos, numa co-produção informal. Está por um mês ou dois, se tudo correr bem.

Recentemente estiveste ligado a um single do Maze, bem como grande parte da família da Contentor. Como é que foi estar incluído num novo projecto de um MC com tanta história no nosso movimento? Além de o terem ajudado no “Negro Luto”, sentiste que também aprendeste algo de novo com a vasta experiência do Maze?

Foi uma honra poder ajudar com o videoclipe. O Maze é uma inspiração há muitos anos e, além da música, felizmente já nos cruzámos muitas vezes antes. Poder acompanhar um pouco da gravação e mistura do tema, perceber da boca do próprio criador — um artista que sigo há anos. A motivação da obra foi marcante. É já é parte da família CNTR e sempre uma presença estimada no estúdio.

 


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Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira