Bruno Silva: “Têm acontecido alguns alinhamentos cósmicos”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Quantas peles tem Bruno Silva? Homem, réptil, guitarrista ou produtor, o artista desdobra-se em alter-egos e funções para se aproximar do jazz e da música electrónica com visão democrática que não coloca de lado qualquer tipo de género musical.

2019 está a ser um ano particularmente prolífico para o homem que assina como Serpente e Ondness: lançou Parada (pela Ecstatic Recordings), Not Really Now Not Any More (pela Holuzam) e está prestes a editar Meio Que Sumiu, projecto apontado para sair no dia 29 de Novembro pela Discrepant. E ainda viu Gabriel Ferrandini pegar em dois originais seus para criar “Rua de O Século e Rua dos Caetanos”, faixas pertencentes a Volúpias.

Amanhã, Bruno arranca para Inglaterra, tendo actuações marcadas em Liverpool, Bristol e Londres. Há uns meses, no Verão e no meio do caos que se vive nas ruas lisboetas, o Rimas e Batidas parou para falar com o músico sobre os acontecimentos mais recentes na sua carreira.



Com que identidades é que nós encontramos agora o teu trabalho? Para além de Serpente.

Ondness. Estou também a tocar guitarra n’O Carro de Fogo de Sei Miguel. Também toco em trio com o Sei Miguel, algo que já não acontece tão frequentemente, mas é um trabalho continuado. E Sabre também. 

Como é que isto funciona? Ondness, Carro de Fogo, Sabre, Serpente… Tu vais mudando o chip ou é sempre a mesma pessoa?

A pessoa é a mesma, mas o espaço mental que elas ocupam acaba por ser outro, nalguns casos. No caso de Ondness e Serpente, onde sou apenas eu, poderá haver um overlapping um bocadinho maior, um headspace pode encontrar ali uma dimensão paralela, mas cada um ocupa a sua slot mental. 

Tu és um produtor matutino, vespertino, nocturno?

Houve uma altura que até andava a ser um produtor bastante matutino. Um álbum que tenho para sair de Ondness foi quase todo gravado de manhã, agora com o nascimento da Celeste tenho sido mais um produtor nocturno, uma vez que espero que ela e a mãe se vão deitar para eu depois poder trabalhar um bocado mais à vontade. 

Esta pergunta tem uma razão de ser. Quando tu ligas a tua parafernália e começas a trabalhar, como é que tu decides que aquilo que estás a fazer é Ondness, Serpente ou outra coisa qualquer?

Normalmente essa decisão não vem muito à priori, mas quando estou a trabalhar num álbum de Ondness foco-me durante esse período de tempo nisso, o que não implica que por vezes alguma ideia que esteja a explorar em Ondness eventualmente possa saltar para Serpente, embora isso aconteça cada vez menos, as coisas estão cada vez mais compartimentadas…

E há ferramentas diferentes para cada um dos projectos?

Não muito. O impulso é diferente, mais do que propriamente o setup

E que setup é esse?

Software muito arcaico para fazer e samplo muito, mas é basicamente tudo software bem simples. 

Que é qual?

Uma versão muito antiga do Reason que o meu computador ainda aguenta. O Reason e o Traktor, que uso por vezes como ferramenta de composição. Aliás, durante muito tempo, Ondness funcionava só com Traktor. Mais recentemente voltei a pegar o Reason e tenho usado ocasionalmente para sedimentar algumas ideias. 

Olha, a tua novidade mais recente é este lançamento na Ecstatic. Como é que isso aconteceu? Conheces o Alessio?

Conheci-o quando tocámos juntos numa noite de Not Waving e Serpente na ZDB, já há alguns anos, e mantivemos contacto muito esporádico desde então. E tinha-lhe mandado o disco anterior de Serpente, A Noiva, e ele tinha gostado muito e perguntou-me se tinha mais música. Mandei-lhe aquilo em que estava a trabalhar na altura, ele gostou e depois fluiu tudo muita naturalmente. Foi um processo bem simples, por acaso. 

É uma etiqueta muito interessante, a Ecstatic.

O catálogo é mesmo forte. E é ganda honra. Fiquei muita contente quando ele quis editar. 

A descrição deste lançamento fala em Linn Drum, na homenagem ao Parade do Prince…

Isso foi um bocado exacerbado pela editora. Não deixa de ser verdade, mas dá a entender que há uma espécie de conceito muito fixo em relação a isso e não é bem assim. 

É mais à posteriori do que à priori?

Não, até foi o trigger inicial, porque na altura andava novamente numa fase bastante obsessiva de ouvir o Prince e o som da Linn Drum é algo que me é muito querido. Comecei a trabalhar em duas músicas do álbum a partir exclusivamente desses sons, mas não havia uma regra de estar cingido a isso.

E não mexeste numa Linn Drum…?

Nunca vi nenhuma sequer. Perguntavam-me se tinha uma e eu respondia: “claro que não”. Mas conseguia orientar sons dela e trabalhei-os, inicialmente serviu-me para desbloquear muita coisa e trabalhar apenas com esses sons para a produção dos temas, mas não me cingi apenas a isso. Depois, tendo em conta que o Prince é um utilizador lendário disso e o respeito e admiração que tenho pelo homem (R.I.P) se fazia algum sentido de algum modo o álbum invocá-lo de uma forma não directa. 

E porquê o Parade e não o For You ou o Sign o’ the Times

O Parade é capaz de ser o meu segundo favorito, a seguir ao 1999, mas também porque queria um título em português, e acho que Parada soa bem, e depois há o lado de Parada ter, e isso já foi uma coisa que veio à posteriori, de também trazer aquela ideia das escolas de samba, da parada enquanto cerimónia, que se liga a todo o universo de Serpente. De algum modo aquilo aglutinava duas dimensões de uma palavra. É uma palavra bonita, a mancha gráfica é bonita e é assim uma palavra com algum impacto, acho eu. Mas têm acontecido alguns alinhamentos cósmicos e achei que essa palavra acabou por alinhar várias dimensões de Serpente ali. E é ganda disco [risos]. 

Sem menor sombra de dúvida. Olha, curiosamente, se o ponto de partida tem muito a ver com esse trabalho na Linn Drum, o disco pode quase ser tão encarado como uma homenagem ao Prince como ao Roger Linn. Não é?

Exacto, sem dúvida. Mesmo que aqui tenha sido uma coisa bem instintiva e porque andava muito a ouvir o Prince nessa altura. 

Roger, Prince Rogers, há ali uma partilha de nome que é uma coisa cósmica, também. 

Tenho andado a apanhar uns sincronismos impressionantes. 

Ligas a esse tipo de coisas?

Sim, acho que sim. Cada vez mais. 

Falavas-me na bebé, a Celeste, já foste investigar o instrumento que tem esse nome?

Não, isso não. 

Há um pré-sintetizador chamado Celesta. 

Nem sabia. Mas, lá está, novamente… Quem sabe se num próximo álbum. 

É uma espécie de antepassado do Fender Rhoades ou algo do género. 

Tenho de ir investigar isso. 

De que maneira é que tu vês o teu trabalho integrado no panorama electrónico nacional actual? A coisa está vibrante e entusiasmante, não está?

É um bocado inegável que as coisas estão-se a mover e há uma certa urgência no modo como estão a acontecer e uma certa vitalidade…

Novas editoras, novas artistas, o que é que te tem andado a entusiasmar?

Várias coisas, mas infelizmente não tenho conseguido estar tão atento como gostaria. Entre trabalho, paternidade e música torna-se difícil prestar a devida atenção e, acima de tudo, criar um espaço mental mais vazio para poder ouvir as coisas com atenção. Vou esquecer-me de bué nomes, mas por exemplo a Rotten Fresh tem estado a fazer um trabalho muita fixe e palpita ali assim aquele nervo e aquela vontade de fazer as coisas acontecer, que torna aquilo tudo muito entusiasmante. A Raw Forest recentemente lançou a primeira cena dela que está forte. Há imensos promotores a fazer coisas. O nascimento da Holuzam a ir buscar trabalhos antigos e apostar em coisas que estão a sair agora. Também há a naive da Violet, a Capital Decay também apareceu a lançar CDs. O panorama está fértil, e era bom que isto não seja apenas um surto e que as coisas se sedimentem. 

Pode-se falar neste momento numa comunidade em Lisboa de música experimental/progressiva/alternativa/liberta que foge aos cânones normais do jazz, rock ou clássica? E que seja sustentada e realmente activa? Sentes que isso existe?

A palavra comunidade é sempre meio complicada, mas gosto de pensar que as coisas são assim. Mais do que a ideia de uma cena, ou o que quer que seja, acho que comunidade traz sempre um valor acrescido. Mas sim, eu acho que as coisas acabam por se encontrar e haver trocas nisso. Por exemplo, o caso do Gabriel [Ferrandini] ter lançado na Trás-os-Montes Records com a Maria Reis. Alguns encontros que foram feitos no Irreal na altura em que ele e o Pedro Sousa estavam a programar aquilo em que tinhas malta de electrónica, como por exemplo o Simão Simões, a tocar com o Pedro Sousa. Mesmo que vás a concertos vês ali uma mistura de públicos que se traduz não só nos meios e nas formas mas também nas próprias gerações, mas é sempre difícil, não estando tão dentro disso, e posso estar completamente enganado, mas acredito que há uma maior promiscuidade benigna e saudável entre diversas pessoas.

Deixou de haver merdas. 

Sim, e acho que isso acontece de uma forma muito orgânica. 

Porque havia uma espécie de regras, não é, tens um projecto de jazz, nem penses aproximar-te daquela gente ali, tu és do rock, não te vás misturar com não sei quê. 

Os casos da Cafetra, tens Iguanas como tens Putas Bêbadas, e o Leonardo Bindilatti tanto toca numa como noutra, coisas muito práticas e que acontecem de uma forma muito simples. Na verdade é que as pessoas em termos de gostos, e cada vez mais, não se cingem a uma coisa, tanto são capazes de estar a ouvir malhas de Justin Bieber como black metal. Se isso acontece a nível de escutas, porque não a nível prático, de criar essas sinergias? E acima de tudo é isso, não está a acontecer numa agenda, não está a acontecer de uma forma forçada, não há uma matemática. Gosto de electrónica e gosto de jazz. Vou juntar as duas. Parte dessa vitalidade que se está a sentir parte também de tudo isso, desses encontros, dessas colisões, dessa vida toda que palpita. 

E Lisboa é a nova quê?

Lisboa é a nova nada até porque Lisboa, a cidade, o panorama de vivência, está bastante assustador. Nem vamos por aí, se não estávamos aqui… 

Isso é muito curioso, não é? Como é que a cidade nos empurra para fora mas ao mesmo tempo há uma resistência, esta música pode ser encarada como resistência política… 

Pode existir quase numa espécie de magia ou ilusão ou uma criação de uma narrativa que não existe numa tentativa de criar uma espécie de força de confronto perante isso, mas acho que inevitavelmente as coisas estão ligadas, isto não acontece por acaso. Acho que essa vitalidade toda, inconsciente ou conscientemente, acontece como forma de resistência a isso, pelo menos eu gosto de acreditar que sim. Acho que são os únicos meios que há. Porque o capital não existe. O capital nunca vai estar cá para nós. Há que encontrar outras formas de encontrar vida no meio desta merda toda que está a acontecer.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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