Bruno Pernadas no B.Leza: uma longa-metragem que todos deviam ver uma vez na vida

[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS] Joana Rodrigues / Revista Variações

Em conversa com Rui Miguel Abreu para o Rimas e Batidas, Bruno Pernadas já tinha avisado que este concerto no B.Leza seria especial. Para começar, a data foi marcada pelo próprio, a liberdade era portanto total, tanto em termos de temática, como de alinhamento ou (aqui particularmente relevante) espaço. Nem todos estariam tão sensíveis às componentes acústicas da sala, ou ao sistema de som com que a mesma está equipada, mas Bruno Pernadas não é qualquer um. Para alguém que se gaba de ter ouvido tímbrico, é certo que a sala teria de ser escolhida a dedo. A aposta foi mais que acertada: também não é todos os dias que ouvimos nove instrumentistas em uníssono e mesmo assim conseguimos entender o que cada um está a tocar – há bastantes espaços que não permitem este privilégio.

A sala é também uma escolha determinante na percepção da audiência. Num auditório – como no caso do Teatro Maria de Matos, onde o artista apresentou o seu último disco em 2016, por exemplo –, há as amarras do comportamento social que nos impossibilitam de nos levantarmos e irmos pedir uma imperial para dançar entre as poltronas. Para ambiente de festa, um espaço de festa. “Queríamos que fosse num clube para as pessoas estarem em pé, a beber jola, a curtir o concerto”, confessou Pernadas a RMA. Missão cumprida. A celebração de Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them e de How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge? deu-se de maneira descontraída, mas empolgada, algo que se pôde comprovar pelas reacções efusivas a solos de guitarra ou a momentos de massa sonora conjunta bem orquestrados.

Na mesma entrevista, o guitarrista afirmava o seu gosto pela arte que é longa. Músicas longas, filmes longos, concertos longos. E assim, com toda a liberdade que se podia ter nesta festa, o ensemble tocou quase duas horas para um público que sabia para o que ia. Até fez referência a uma tirada de Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street, momento em que o actor repete, de forma bastante entusiasmada, a frase “i’m not leaving”.

A analogia com o filme mencionado no parágrafo anterior não parece ter sido feita ao acaso. Uns olham para o concerto como um conjunto de episódios de uma série, mas para Pernadas é como um filme. Um concerto desta índole, corrido, com passagens instrumentais constantes, com ritmos, espaços sónicos e ambientes tão eclécticos e distintos, dá verdadeiramente a sensação de que estamos no meio de uma narrativa cinematográfica. Entre completas deambulações de uma orquestra “inorquestrável”, uníssonos mais oníricos e etéreos, grooves e solos num dançável 3/4, ou num mais esquisito 5/8, e ainda bonitos momentos de teclados ou sopros a solo, a viagem intergaláctica em que se traduzem esses dois discos só faltou ser filmada para ser projectada numa qualquer tela gigante.

O início do concerto acontece no embalo da flauta transversal. A escala pentatónica remete-nos para o universo asiático – onde Pernadas já vai dando cartas, especialmente no Japão. Rapidamente este pensamento desvia-se para o ouvido tímbrico do chefe de orquestra, ao analisarmos como o mesmo arranja todas as harmonias, e espalha todas as melodias que nos acordes se deitam para cada instrumento. “Anywhere in Spacetime” surge e dá-se a reacção esperada.

As pausas para palmas são substituídas por passagens entre faixas, numa performance continuada, contando a história destes seis anos; e ainda por um brinde regado a champanhe entre a banda e o público, enquanto ouvimos um concerto para três flautas. Todos merecem o devido descanso, excepto a malta dos sopros.

O concerto deu a possibilidade aos fãs de ouvirem músicas nunca antes tocadas pelo ensemble. O tom mais rígido de um concerto de apresentação é abolido: há liberdade para improvisação e diversão no meio de uma orquestra já tão oleada e organizada. Temas como “Ya Ya Breathe”, “Lachrymose”, “Première” e “Pink Ponies Don’t Fly On Jupiter” resultam de maneira impecável ao vivo e o grupo provou-o. O final desta última constituiu um dos momentos mais hipnotizantes do concerto. “Ahhhhh” ou “Problem Number 6” são também das mais curiosas e divertidas de se apreciarem ao vivo. Mas é o término do concerto que mais surpreende, já que no meio do ritmo indie minimalista de “Ya Ya Breathe” solta-se um escalar dinâmico total de uma jam que vai até aos recônditos mais noise do imaginário sonoro de Bruno Pernadas.

A insistência em manter um grupo grande em palco, embora se possa simular a massa sonora que Pernadas pretende por via electrónica ou de alguns efeitos, dá o tom para um ambiente mais festivo e entusiasmante para a audiência. A troca de energias entre a banda e o público presente – embora seja reduzida ancomunicação verbal – é insubstituível, mesmo que usássemos mil e uma máquinas. A teimosia do guitarrista em manter nove elementos é justificada, apesar de nos confessar ser um impedimento para levar digressões a novas e (possivelmente) maiores paragens. Nota recebida (e entendida), mas, mais importante do que o veículo, é mesmo a mensagem. E a de Bruno Pernadas tem de ser levada aos quatros cantos do mundo.


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