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Publicado a: 05/09/2017

Bridgetown: o “Império Otomano” na Zambujeira do Mar

Publicado a: 05/09/2017

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Daniela K. Monteiro

Quem fala, pensa e escreve sobre música não pode estar confinado a uma linha de pensamento ou género: é preciso “abrir” os ouvidos e explorar os vários universos. Aterrar em Portugal depois de dois dias no Festival Iminente ( versão Londres), e, passados outros tantos dias, arrumar novamente a roupa para o MEO Sudoeste pode ser um choque, mas só para quem não se propõe a uma constante descoberta. A distância e relevância artística e cultural que separa os dois eventos é incrivelmente grande, mas, como qualquer pessoa que se preza a experimentar, a entrada nos dois espectros é recompensadora – afinal de contas, a música, por mais industrializada que seja, não deixa de ser uma expressão criativa.

Slow J, Chullage e Allen Halloween num club pequeno no Reino Unido ou Mishlawi e Plutónio em espaço aberto para plateias que chegam aos milhares? Os dois, se faz favor. No entanto, e para aqueles que não leram o título – é importante deixar uma ressalva para os leitores que saltaram precipitados – , este texto é dedicado aos dois últimos, nomes que – de formas diferentes – vão criando novos caminhos em território nacional, tudo isto enquanto carregam o símbolo Bridgetown no peito.

 


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E o quão importante é a agência no panorama hip hop nacional? Bem, se medirmos pelo nível de profissionalismo, é, certamente, uma das mais respeitáveis e relevantes. Para quem se mexe no meio, é perceptível que existe um meio caminho entre família e empresa no que toca à forma como se gere a carreira de Richie Campbell, Mishlawi, Plutónio e Dengaz, os quatro artistas que tomaram conta da edição de 2017 do MEO Sudoeste.

“Eu já conhecia o Dengaz há alguns anos. Eu e ele já tínhamos ficado de fazer um som há 4 anos – foi na altura em que eu lancei o meu primeiro álbum. Entretanto, não fizemos nenhum som. Depois, convidei-o para passar lá na zona e tivemos nas filmagens de ‘2765’. O meu primeiro contacto com a Bridgetow foi o Dengaz. E aos poucos fomos falando de música e que gostávamos da mesma cena e veio numa fase em que eu próprio estava a puxar as cenas mais melódicas, e tive a oportunidade de aprender com eles”, revelou o rapper luso-moçambicano em conversa com o Rimas e Batidas. Plutónio foi o único nome da Bridgetown que não actuou no palco principal, mas, pelo que pudemos ver, a oportunidade de se mudar para um espaço maior não deverá tardar…

 


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Com dedicação máxima dentro ou fora do estúdio, a transformação em palco faz-se com membros de bandas como os Zanibar Aliens, por exemplo. Vê-los ao vivo é uma experiência diferente de ouvi-los nas versões de estúdio, disso não há dúvida. “São processos separados, sabes que quando acabo uma música começo a pensar nos arranjos diferentes para o palco. às vezes quando estou a criar há momentos em que penso ‘aqui ficava fixe um piano mais assim ou uma guitarra mais assado’, mas há coisas que eu deixo assim. Não vou meter muita informação na música se não vou perder aquele momento surpresa no live“, atira o autor de “Não Vales Nada”. Mishlawi acrescenta: “As pessoas pensam que quando fazes música te estás a preparar para a actuação ao vivo. Eu estou a gravar no estúdio há 5 anos e só actuo há 1 ano, e é uma coisa completamente diferente. Eu só crio música de uma maneira e apresento-a de outra forma, mas é com a mesma paixão à música.”

Quando perguntámos que artistas gostariam de ver a actuar no festival na Zambujeira do Mar, as escolhas de Mishlawi e Plutónio satisfizeram a curiosidade e até surpreenderam pela positiva: o primeiro escolheu J. Cole (“a minha inspiração número 1”), Kehlani, Bryson Tiller e Pink Floyd (“eles já não são uma banda, mas são uma das minhas favoritas”); o segundo seleccionou os Racionais MCs (“gostava de vê-los num palco grande) e Stormzy.

Olhando bem para as movimentações sónicas da label/agência num passado recente – Richie Campbell “largou” o reggae e aventurou-se em “Do You No Wrong” e “Heaven” por novas avenidas – , tudo aponta para que a Bridgetown se assuma como uma espécie de OVO portuguesa, um oásis de música açucarada que pesca no r&b, dancehall e hip hop. O takeover total da edição do MEO Sudoeste mostrou que o poderio é temível, tão temível que será impossível de ignorar no futuro. E nada melhor do que citar um talentoso artista norte-americano a residir em Cascais para encerrarmos este capítulo: “There’s no other one b-town empire ottoman.”

 


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