Branko: “Esta é uma altura de introspecção e para olharmos para toda esta indústria”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Maria Govea

Esta noite, pelas 22h30, Branko troca a imponência do Tivoli pelo conforto da sua sala de estar para comemorar o seu 40º aniversário enquanto nos dá música. A actuação acontece na sua página de Instagram e a ideia é apresentar um set que agrade à família, aos orfãos de Na Surra e a todos aqueles que, tal como o artista, vão ter passar o seu dia de anos em casa.

Com o devido distanciamento social, o ReB trocou algumas ideias com o produtor e DJ da Enchufada sobre o isolamento, o adiamento do concerto e a estratégia para ultrapassar estes tempos complicados.



Tu és um daqueles artistas para quem a energia colectiva dos clubes, por um lado, e o processo colaborativo com outras mentes criativas, por outro, é algo de estruturante. Portanto, como tens lidado com esta coisa do distanciamento social, da quarentena e do isolamento?

É verdade que existe esse lado de tocar e moldar um bocadinho a minha música já com uma audiência à frente, mas também existe muito o lado de bedroom producer. Para mim, é perfeitamente normal passar 24 horas sobre 24 horas fechado entre quatro paredes, seja no estúdio ou em minha casa, a criar música. Então, todo esse lado de criação e esse lado do dia-a-dia acabam por se manter. A rotina não muda assim tanto, mas obviamente que tem impacto [não] estar a partilhar a música com mais pessoas. Se bem que hoje em dia, e essa sim é a chave, é uma questão de usar as plataformas que estão disponíveis (e que sempre estiveram) e que se calhar agora, para além de estarem a ser vistas por geeks de música, estão também a ser vistas por um público mais generalista. E isso acaba por ser um dos poucos pontos positivos disto tudo.

O que é que tinhas planeado de especial para a apresentação no Tivoli?

No fundo era um concerto de celebração de um ano do Nosso ao mesmo tempo que era a minha celebração de aniversário. E ia apresentar uma nova versão do meu concerto com uma série de filmagens que fiz entretanto e renovar grande parte do conteúdo de vídeo, introduzir uma série de coisas novas. Um concerto a pensar um bocadinho não só no Nosso e nos concertos que fiz neste último ano, mas também olhando um bocadinho para trás e chegando quase a alguns temas de Buraka Som Sistema que tenho vindo a adaptar e a retrabalhar para introduzir nos meus sets.

Não quiseste, ainda assim, deixar passar ao lado a data em que estarias a pisar o palco e não havendo Tivoli há pelo menos a tua casa: o que podemos esperar do live que preparaste para hoje?

O live de substituição não será, claramente, uma substituição, mas para mim é uma forma de assinalar a data e, obviamente, de manter a música a circular e tocar algumas das coisas que tinha pensadas e preparadas. No fundo, as cadeiras do Tivoli podem não ser assim tão diferentes dos sofás de casa [risos]. Não existirá a parafernália de vídeo, de luzes e todo esse ambiente, mas a nível musical a minha ideia é trabalhar o set para fazer sentido tanto para uma família que possa estar sentada num sofá como para um grupo de amigos que vivem juntos e que decidiram arredar os móveis da sala para dançar à vontade. Ou até outras pessoas que também celebram o aniversário no mesmo dia.

A mudança de data do teu concerto vai trazer alterações ao que tinhas planeado inicialmente?

Primeiro foi apontado o dia 15 de Maio, mas neste momento ainda estamos a perceber qual é que será a melhor data, mas será sem dúvida depois do Verão. Eu imagino que sim, que vá trazer alterações, não necessariamente ao formato, e não necessariamente a esta ideia de vídeo, mas imagino que exista música nova entre agora e o final do Verão, pelo menos é esse o plano. Como tal, irá fazer sentido incorporar isso.

Para lá da preparação desta apresentação, como tens ocupado o teu tempo? Que séries incríveis tens descoberto? Que música tem garantido a tua atenção?

Em termos do meu dia-a-dia e de ocupação do tempo, não mudou muito, na realidade. Passo o mesmo tempo a criar música, passo o mesmo tempo à procura de música, seja através do Spotify, SoundCloud, Bandcamp, todas essas plataformas que já estavam disponíveis. O estar em casa, por um lado, acabou por criar mais tempo para isso, mas também, por outro lado, acabou por relaxar um bocadinho mais noutras tarefas que demoram mais a fazer. Portanto, se calhar obrigou a viver a vida em geral com um bocadinho mais de calma. Mas acho que em termos de procura e consumo de música é um bocado a mesma coisa [risos].

E quanto a produzir: que álbum vamos poder ouvir daqui a uns tempos resultante deste estranho período?

Obviamente tudo isto obrigou, em termos de Enchufada e daquilo que era catálogo editorial para os próximos tempos, a alterar algumas coisas. Decidimos antecipar um lançamento que tínhamos previsto para este ano, que era o segundo volume do Enchufada na Zona. E decidimos também alterar a narrativa por trás da compilação para, no fundo, bater certo com os tempos e as circunstâncias que estamos a viver neste momento.

Tens obviamente dedicado algum tempo a ponderar o futuro. A situação não parece fácil, mas a música também já enfrentou outras crises antes. Qual a tua estratégia para enfrentar os tempos difíceis que temos pela frente?

Acho que a estratégia é, e para mim sempre foi, diversificar e conseguir estar presente numa série de áreas, e não colocar todos os ovos na mesma cesta, como se costuma dizer. Sempre soube que não podia depender só de concertos e, nesse sentido, desenvolvi todo o lado da estrutura editorial. Sinto que uma coisa sempre acabou por se encadear na outra e eu preferi optimizar tudo aquilo que eu fazia em torno de uma estrutura pensada e criada por mim do que propriamente distribuir uma série de coisas por várias pessoas e depois acabar a ganhar dinheiro de concertos. Portanto, obviamente que a sobrevivência passa um bocadinho por tudo isso e pela exploração de plataformas como o Bandcamp, por procura de acordos de sincronizações de músicas com filmes, anúncios e coisas desse género. No fundo é esse trabalho que temos agora pela frente, que é reinventar o catálogo para a realidade que estamos a viver hoje em dia e basicamente ter noção de que o income que pode vir de um concerto não é assim tão garantido quanto isso.

Achas que as iniciativas oficiais que têm vindo a ser preparadas para apoiar artistas e a indústria cultural em geral vão ser importantes para superarmos isto?

Penso que estamos a viver um período complicado e que vai ter consequências complicadas, principalmente para empresas, promotoras, alguns artistas que estão organizados de uma determinada forma. Em termos de iniciativas e coisas que tenho visto, eu penso que se calhar neste momento o que ainda não vi foi a iniciativa mais importante, que será uma posição do governo sobre todo este lado de pequenas e médias empresas que vivem e que têm o seu sustento na cultura, nos concertos, na troca de música, na arte. Não necessariamente os teatros do país ou essas grandes casas de cultura, mas sim aquelas empresas que funcionam com duas ou três pessoas numa cave a tentarem fazer alguma coisa de diferente e que podem não acertar todos os meses, mas acertam de vez em quando. Acho que relativamente a esse tipo de empresas ainda não vi propriamente nada que fosse super relevante. Existem as campanhas de tomada de consciência e tudo isso, mas também, ao mesmo tempo, não sinto que exista propriamente um objectivo aí. Portanto, acima de tudo, esta é uma altura de introspecção, para olharmos para toda esta indústria, pensarmos como é que se vai superar isto e quais são as soluções para o futuro, para não se correrem os mesmos riscos. Mas confesso que, por ter coisas para fazer no estúdio, posso não ser a pessoa que esteja mais atenta a todas as iniciativas.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu