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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 08/04/2026

Tão áspera quanto frágil no álbum de estreia.

Blu Samu sobre (K)NOT: “Aqui pude mesmo aprofundar todas as minhas vertentes”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 08/04/2026

O caminho de Blu Samu não foi o mais simples. Nascida em Santa Maria de Lamas, filha de mãe portuguesa e pai cabo-verdiano, cresceu maioritariamente em Antuérpia, na Bélgica, sem nunca deixar que a sua bússola apontasse a apenas um desses mundos. Foi precisamente nessa fratura identitária que encontrou a matéria-prima para a sua música.

Desde 2017, quando lançou o single de estreia a solo “I Run” no SoundCloud, que Salomé Magalhães foi construindo a sua reputação com projeto atrás de projeto: o EP Moka, depois ctrl-alt-del e 7, onde, pela primeira vez, ousou escrever em português, língua que durante anos julgou não dominar suficientemente bem para a usar artisticamente. A sua presença nos circuitos de hip hop europeu foi-se solidificando e culminou numa apresentação na plataforma A COLORS SHOW, vitrina de eleição para talentos alternativos da cena global. Dez anos de carreira feitos de paciência, de reinvenção contínua e de uma recusa em contentar-se com o simples.

(K)NOT, o seu primeiro álbum, chegou em Fevereiro deste ano e é, antes de mais, um acerto de contas com a expectativa. Não é um disco de hip hop, mas recorre ao hip hop. Não é pop, mas soa frequentemente a um manifesto futurista dessa mesma linguagem. Abre em jeito de confessionário através de “Yearning”, envolta em teclas soturnas e com uma cadência lenta, e vai abrindo espaço para a ferocidade de “I Hate Myself”, em que influências de punk rock arrombam com a porta, ou para “Move”, inteiramente em português, onde Blu Samu soa mais livre e orgulhosa do que em qualquer outro momento do registo. O álbum fecha com “Adeus”, uma despedida que é lamento e declaração de intenções em igual medida, num movimento circular entre o lado etéreo do fado e o rap mais desnudado. A regra que guiou a concepção foi simples e radical: fazer apenas o que lhe apetecia, conforme nos revela agora em entrevista.

Pouco dias antes de o disco sair, a Internet rendeu-se a Punch, o macaquinho japonês do Zoo de Ichikawa que, abandonado pela mãe ao nascer, encontrou conforto num orangotango de peluche da IKEA e se tornou um fenómeno global de ternura e resiliência nas redes sociais. É uma coincidência demasiado boa para ignorar: no mesmo mês de Fevereiro de 2026, o mundo acompanhava a saga de uma criatura pequena que aprendeu a pertencer sem nunca ter tido onde pousar, enquanto Blu Samu lançava um álbum alicerçado exatamente nessa procura — a de se sentir inteira num mar de memórias fragmentadas que remontam a diferentes locais e culturas. Poucos dias após o lançamento de (K)NOT, falámos com a artista luso-belga sobre tudo isso numa ligação via Zoom.



Foi em 2016 que vi o teu nome pela primeira vez, no EP NO TIME 4 BAD DAYS do Osémio Boêmio. A primeira música tua que eu descobri foi dois anos depois disso, creio que foi “Sade Blu”. A tua aventura na música começou aí ou já tinhas feito mais coisas?

O Osémio foi mesmo numa época em que eu ainda nem era Blu Samu. Acho que na época estava em Antuérpia e estava a fazer slam poetry. Tinha feito uma residência com uma banda de jazz e estava a começar a pôr os meus pezinhos na música, mas ainda não tinha verdadeiramente uma direção ou pessoas com quem trabalhar. E foi aí que eu acho que calhei com o Osémio. Já nem me lembro como aconteceu, porque já foi há 10 anos, não é? Mas eu estava a fazer a minha poesia em cafés e estava à procura de pessoas com quem trabalhar, ainda não tinha a direção. Nesses cafezinhos, eu encontrei um rapper que se chamava Luís, que também fazia produção. Foi com ele que eu fiz a “I Run”, que é um bocadinho… Eu considero essa a minha primeira experiência com música, pois já era uma coisa que eu gostava mesmo de fazer e que achava que era mais completa. Depois da “I Run” eu vim para Bruxelas e quando fiz o videoclipe houve a necessidade rápida de produzir mais música, porque havia uma grande atenção para a minha música e para o meu clipe. E eu estava a abrir para a IAMDDB e estava a receber ofertas de salas. E então eu decidi fazer um EP com o coletivo com quem estava a viver naquele momento, o Le 77. Foi aí que nasceu a “Sade Blu”. Foi uma das músicas do meu primeiro EP, Moka. Essas foram as minhas bases antes de “Sade Blu”.

Ou seja, tu começaste a testar coisas com a tua voz na música já na Bélgica, depois de saíres de Portugal. Em que altura é que se deu a tua saída de Portugal?

Eu saí muito jovem de Portugal. Acho que tinha 5 ou 6 anos quando vim para a Bélgica. Por isso, cresci em Antuérpia na Bélgica. Antigamente dizia que era afro-luso-belga, porque o meu pai é cabo-verdiano. E é verdade, eu sou mesmo afro-luso-belga. Se calhar mais luso-belga, porque não tenho tanta conexão com as minhas raízes africanas.

Dado que saíste de cá muito cedo, chegou a dar tempo para ficares com memórias de Portugal? Já cá voltaste entretanto?

Sim, sim.

E acompanhas a música?

A música menos. A música que eu acompanhei foi com a minha família. Era o que eu ouvia à minha volta e também o que ouvia em Santa Maria de Lamas. Nós fazíamos karaoke todos os domingos, então lembro-me dessas coisas que ouvia a gente a cantar. Por isso, aquilo que conheço não é muito atualizado.

Lembras-te de nomes?

Xutos e Pontapés! Também me lembro de ouvir Adriana Calcanhoto. E havia uns fados com duas mulheres a cantar. Porra, já me esqueci do nome, mas era algo que eu ouvia bué. Portanto, não estou muito conectada à música portuguesa de hoje, nem em geral, porque fui sempre um bocadinho influenciada pela minha família. Mas tenho muitas memórias de Portugal, porque eu ia todos os verões para Portugal de férias quando era criança e uma das primeiras memórias que eu tenho é de ouvir cães a ladrar na estrada, de sentir o sol a entrar pela janela e de ter a minha avó na cozinha. Essas são das primeiras memórias que eu tenho.

E é engraçado que neste disco é onde se nota uma ligação mais forte a Portugal. Tens desde logo a “Move”, que é um rap em português, e depois no final até meio que te arriscas ali num fado, meio experimental. Sentiste necessidade de reconectar de alguma maneira com este lado?

Eu acho que faz tão parte de mim que não fazia sentido fazer um álbum sem incluir esse meu lado também, porque é algo que vive em mim e na minha família. Ainda para mais com a idade… A gente cresce e percebe que sangue é sangue, há pessoas aí que me conhecem desde que eu sou pequenina, por isso há uma conexão boa e grande lá. E acho que é um álbum onde eu tentei representar tantos lados meus, era mais do que óbvio que tinha que estar lá o lado português e as influências portuguesas também.

E é fácil para ti transitar entre idiomas? Tu cantas muito em inglês, mas já te ouvi cantar em francês, creio que alemão também, não tenho a certeza.

Ainda não cantei em alemão.

Mas tens, pelo menos, algumas frases. Tenho muito essa ideia porque sempre achei impressionante a quantidade de línguas em que te desdobras.

Ah! Em flamengo! Na Antuérpia também se fala flamengo, e em Bruxelas ainda mais, além do alemão e do francês. Depois, há muitas pessoas que não são de Bruxelas e só falam inglês, então eu fui criando o hábito de mudar entre idiomas, até mesmo durante a mesma conversa. Enquanto estou a falar, posso começar em francês e depois, se não me lembro de alguma palavra ou se não sei pronunciar bem, continuo em inglês, por isso foi sempre uma coisa que existiu em mim, já de jovem. Porque quando eu vim para a Bélgica, falava português e já falava um bocadinho de inglês, e depois aprendi flamengo e fui aprendendo francês, por isso acho que tendo tantas línguas na minha cabeça ao mesmo tempo. O cérebro automaticamente faz o switch às vezes.

Mas sentes que certas línguas te podem direcionar para uma certa estética musical ou não tem nada a ver a língua com a preferência musical que tens?

Antigamente eu pensava que era assim, eu tinha essa ideia na minha cabeça de que o inglês era mais assertivo e que o português era só para a melancolia e para as coisas vulneráveis. Mas acho que também já foi uma ideia da qual me fui desfazendo com o tempo, porque como tu disseste ainda agora, eu fiz a canção “Move”, onde não há nada de vulnerável ou de melancólico lá dentro — é mesmo à portuguesa do norte [risos].

Aguerrida.

Exatamente. Por isso, eu acho que com o tempo tudo torna-se um bocadinho mais fluido, vou sentindo uma evolução da ideia que eu tinha do português. Acho que também estou-me a desfazer das minhas outras ideias que tinha com as outras línguas. Antigamente acreditava nisso, mas hoje não acho que é a língua que vai trazer uma determinada emoção. É a emoção que pões dentro e o que estás a dizer que vai trazer isso.

Tu chegaste aqui a este (K)NOT como sendo o teu álbum de estreia, mas tu já tens uma discografia bastante grande. O que é que te fez apelidar este trabalho como sendo o álbum de estreia?

Eu iniciei-me na música, mas não era uma direção que eu pensava que ia tomar diretamente. Foi aos bocadinhos e foi graças ao rap, também, porque eu não achava que era… não tinha muita confiança na minha voz, porque era uma voz um bocadinho “partida”, e eu pensava “oh, não tenho voz da Beyoncé, então não vale a pena fazer música.” Acho que esses primeiros EPs, para mim, foram um tipo de training, de ganhar confiança, ganhar experiência, tentar coisas, ver o que é que eu gosto de fazer, ver o que é que eu não gosto de fazer, ver onde me sinto mais eu. E só foi depois do terceiro EP, o 7, que eu cantei mais e dei-me permissão de usar a minha voz de outra forma. Então foi aí que eu percebi que já tinha a experiência que faltava para verdadeiramente fazer um projeto onde não ponho nenhum limite e que posso chamar de álbum. Aqui eu pude mesmo aprofundar todas as minhas vertentes.



E sentes tiveste alguma preocupação especial durante a criação? Por exemplo, o facto de percorreres tantos estilos de música — do punk à hyperpop — foi premeditado?

Se calhar, não enquanto eu estava a fazer o disco, porque eu entrei mesmo com uma mentalidade radical de “agora vou fazer a música que me apetecer, e depois a gente vê como é que se resolve.” Mas acho que, se calhar, houve um bocadinho… Se calhar não foi tanto uma preocupação, mas gerou um bocadinho de ansiedade o facto de ter começado a pensar se as pessoas me iam compreender. “Maybe this is too much…” E depois eu disse “não, é exatamente isso que estás a tentar desconstruir, essa ideia de ser demasiado ou de não ser compreendida, por isso anda, vamos a isso, e depois o resto vê-se.” Mas claro que houve um momento em que disse a mim mesma: “Ok, vamos mesmo largar um álbum com três ou quatro géneros musicais diferentes.”

E em que contexto é que ele foi criado? Trabalhaste só com um produtor? Foram vários?

Eu trabalhei no álbum durante dois anos e há músicas que eu fiz mais em casa, partes de músicas que eu tinha escrito sozinha, sendo que depois construímos o resto do universo à volta dessas ideias. Também tive instrumentistas. Para “I Hate Myself”, por exemplo, gravámos mesmo um baterista de Antuérpia que normalmente toca muito drum and bass, e eu queria drums de drum and bass nesse tema para unir mais os estilos diferentes. Temos um piano e um clarinete no fim… Há vários instrumentos à volta, mas acho que as grandes âncoras do projeto foram eu e o Sam Tiba. O Sam compreende muito bem quando eu digo: “Apetece-me esta cor. Quero este sentimento.” Ele compreende-me bem quando eu digo estas coisas, por isso foi o Sam e eu que fizemos a maioria da direção artística.

Já tinhas trabalhado com ele ou foi a primeira vez?

Já tinha trabalhado com ele no projeto 7.

E tu também produzes?

Eu agora estou a produzir. Já faz dois anos que estou a produzir, mas agora começo a fazer produções que acho que são boas e com quais também faço as minhas demos. Mas demorou um tempo antes de chegar ao estado de estar satisfeita com isso. Claro que, depois de tanto tempo, a gente também começa a ter vontade de poder vir com uma ideia mais completa do que se tem na cabeça.

Achei piada incluires o drum and bass e cenas de UK Garage. Parece que esse género voltou meio do nada. Na nossa geração, a maior parte das pessoas meio que consumia isso de forma mais passiva, através de videojogos ou de publicidade na televisão. E agora isso voltou e associa-se muito a esta ideia que se tem chamado de hyperpop.

Eu não sei se tivemos a mesma experiência, porque eu aos 16 anos — e até aos meus 21, 23 — saía todos os fins de semana para dançar drum and bass e dubstep aqui em Antuérpia. Essa sonoridade, completamente… como é que se diz takeover? It took over my whole generation because we were all partying on drum and bass. Eu até cheguei a ir à Holanda e Alemanha para ver concertos de drum and bass e dubstep. Um dia até apanhei um avião para ir a Londres e experienciar lá uma festa de drum and bass e dubstep naquela época, porque estava tão obcecada pelas festas, pelo lifestyle, a comunidade que havia à volta… Até hoje, ainda é um género em que, para me divertir, eu não preciso de beber, eu não preciso de fumar… Eu posso dançar drum and bass toda a noite ‘tá-se bem. Agora, com a Pink Pantheress, também foi fixe, porque ela trouxe um bocadinho essa nostalgia de volta para cima, mas na Bélgica ainda não temos drum and bass que chegue e eu acho isso uma pena, porque eu estava com saudades. Houve um momento na Bélgica em que o drum and bass e o dubstep foram trocados pelo techno e isso foi duro, porque de um momento para o outro já não havia essas festas. Agora estou a ver que está a voltar aos poucos na Bélgica, houve uma festa de drum and bass All Stars, que agora tem estado a surgir, mas para mim ainda não é suficiente, ainda podemos ter mais.

E é engraçado que era um género musical que era meio marginal, do underground, da cultura rave, e hoje em dia ascendeu ao mainstream. A música pop apoderou-se dessa cadência e agora é uma sonoridade com muito mais aceitação.

Eu acho que, naquela época, também existiram pessoas que fizeram bons movimentos, como o Mala, que fez temas que se tornaram muito populares e lançou pequenas seeds para o futuro. Agora também tens Nia Archives, que faz um drum and bass muito mais elegante, não tem tanto essa associação com a cultura rave e que é fixe para ouvir a andar de bicicleta, no carro ou num pre-drink. Mas acho que a pessoa que teve mais impacto foi mesmo a Pink Pantheress, que veio e destruiu tudo com o seu drum and bass e a sua voz fofinha em cima disso.

Ainda há umas semanas foi a primeira produtora mulher da história a ganhar o prémio de Produtor do Ano dos BRIT Awards.

Incrível, incrível.

Achei muita piada à descrição que a tua agência Busker fez sobre ti: “uma punk de porcelana”. Descreve bem essa tua dualidade: tens um lado muito duro, raw, mas ao mesmo tempo tens o sentimento, essa saudade que, de certa maneira, também vive dentro de ti.

Absolutamente. O álbum inteiro é sobre isso. É falar desse lado vulnerável, mas também com muita força, porque eu não sei se há muitas pessoas que têm a coragem de admitir o que às vezes pensam. Tipo a “I Hate Myself”. Acho que a maioria de nós já esteve numa posição na sua vida em que pensou, “oh my god, I hate myself.” Essa descrição da agência veio de uma mulher do UK que ouviu a minha música. Nós passámos umas quatro ou cinco horas a falar sobre todas as canções e foi ela que veio com a ideia de chamar isso de “punk de porcelana”. Fiquei imediatamente apaixonada por isso, porque eu quero essa coisa de dualidade, dos contrastes que eu gosto de amplificar e que eu gosto de falar, porque é um bocadinho como eu me sinto na vida. Tipo, sou forte, mas depois de um filme triste eu choro, sabes? Ou mostras-me os vídeos daquele macaquinho [Punch, um recente fenómeno nas redes sociais] que estava a sofrer e eu choro — “O que é que posso fazer para o ajudar?”

Tenho reparado que tens estado com concertos marcados em vários países da Europa. Em Portugal ainda só tocaste uma vez, não é?

Não. Eu acho que toquei três ou quatro vezes em Portugal. Eu fiz o MIL de Lisboa, também já toquei em Braga, em Santa Maria de Lamas para o Basqueiral, em Sines no FMM… E acho que foi isso.

Há previsão para voltares e apresentares este álbum por cá?

Eu adorava apresentar o meu projeto em Portugal. Eu sou muito amiga das pessoas do Basqueiral, porque são da minha terra. É uma cena do tipo, “a minha avó tem de me conseguir ver, portanto vocês têm de me deixar tocar aí!” [Risos] Mas eu agora também estou ligada a uma label, a Animal63, e agora o main focus é em em França e na Bélgica para estabilizar e ter uma audiência segura. Por isso, eles não estão muito focados em Portugal ainda, mas eu estou, e desde que vi que vocês estavam a escrever sobre mim também fiquei logo super entusiasmada e fui-lhes dizer: “Olhem que isto é uma coisa fixe!” Estou sempre a tentar ver quando surge uma oportunidade de fazer um concerto em Portugal. Acho que a gente vai tentar organizar um concerto em Lisboa, nem que seja organizado por nós mesmos, para dar esse first step. Mas a verdade que é um território muito novo para mim, onde eu ainda não tenho muita experiência e não sei quem contactar para fazer isso.


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