Blasph & Beware Jack: “Sem querer ser ‘rua’, O Processo acaba por ser um álbum um bocado ‘rua’”

[TEXTO] Bruno Martins [FOTO] Chikolaev

É um dos discos de hip hop do ano – e não há como dar volta a isso. O Processo, de Blasph e Beware Jack, apareceu no fim de Março carregado de bombos e tarolas boom bap com os dedos do mestre Kilú e os “cuts” do mestre Nel’Assassin e, desde então, sem sido difícil seguir em frente e deixá-lo para trás. Acabámos consumidos pelo enredo de rua que os dois rappers criaram, com histórias extremamente visuais que nos fazem entrar numa “Cidade Vígara”, nos põem a andar de um lado para o outro com o perigoso bandido “Johnny  Crime”, mas que se calhar também tem o coração a bater forte por uma certa rapariga “Vulcânica”.

Foi por causa de todas essas histórias que nos sentámos com os dois rappers. Quisemos saber mais destas histórias e destas personagens. As do disco, mas também aquelas que esta dupla de “Fábios” – um de Odivelas e outro de Almada – criaram para trabalhar enquanto MCs: Beware Jack, Frankie Dilúvio e também Blasph.

A dupla vai estar hoje à noite no Village Underground Lisboa, no Alcântara Toca Discos, com Surma, Keso, Pro’Seeds, Kroniko & SP Deville – mais informações aqui.

 

Vamos à raiz d’O Processo: Já tinham colaborado noutras faixas, estão juntos na mesma editora, a Mano a Mano, mas como é que nasce a ideia de avançarem para este trabalho a dois?

Blasph (B) – O Beware abordou-me há uns anos, para fazermos uma parceria na faixa dele “Modelo Pirata”, do Coisas de 1 Porco. E demo-nos bem. Temos mesmo feeling, até porque não somos gajos muito afirmados e que é só trabalho. E a nossa amizade continuou – não se fechou o capítulo, como acontece muitas vezes, em que a malta junta-se só para o trabalho. Continuámos a dar-nos, fizemos o “Nuvens Cinzentas” para o meu álbum Frankie Dilúvio Vol.1, que saiu um ano depois. Com a música, com os concertos, com os copos… criou-se um laço mais forte.

Beware, e porque é que o convidaste em primeira instância?

Beware Jack (BJ) – Eu comecei a trabalhar em 2011 no Coisas de 1 Porco, e ouvi-o no MySpace, na faixa “Atropelamento e Fuga”. Na altura o digging musical era aí que era feito! Basicamente contactei-o enquanto apreciador da arte dele! Depois começou a criar-se a tal empatia. Talvez já pensávamos em colaborar um com o outro, não de uma forma muito assumida nem parametrizada como um disco destes. Isso só aconteceu mesmo com o convite do [produtor]Kilú que nos quis unir os dois.

B – Eu sempre tive a cena de fazer um projecto “tag team”, a misturar estilos. Eu tenho um estilo autêntico e pessoal e também gosto de trabalhar com outras pessoas assim – que é o caso dele.

Mesmo com tanta autenticidade, tanto a solo como aqui n’O Processo, criam várias personagens.

B – Vêm das pessoas com quem me dou, mas também de mim, da minha personalidade. Como essas pessoas não conseguem contar as suas histórias, eu vejo-me na “obrigação” de encarnar e contar eu! O Frankie Dilúvio ou o Blasph vêm do ambiente onde estou inserido, dessas pessoas com quem me dou, que, muitas vezes, nem percebem as histórias, mesmo que sejam as histórias delas. Algumas nem sequer ligam ao que eu faço e tenho de ser eu a dizer-lhes esta ou aquela história nasceu por causa delas, que foram uma inspiração.

E como é que reagem quando contas isso?

B – Ficam contentes! Até porque não digo nada que os comprometa, ou estou a dar nomes.


 

beware_jack_blasph_bmartins[FOTO] Bruno Martins

O Beware Jack também é uma personagem construída?

BJ – Eu vejo a cena do Beware como a personagem que faz com que eu não tenha de dar justificações a ninguém pela parte mais biográfica –porque estou cada vez mais biográfico. Mas quando quero sair e entrar, literalmente, no modo filme, não tenho que estar a agitar a bandeira diferenciadora a dizer que fui eu que entornei aquele copo no chão ou que fiz um chocolate àquele bacano que está na rua. Ou que, no fundo, também sou um little gangster e cometo os meus pequenos crimes… assim, com o Beware sinto que não tenho de dar justificações a ninguém!

B – Mas tu podes não conseguir distinguir a personagem da realidade! Aliás, é isso que eu quero: dar-te só um mundinho. Não quero distinções, não há dois mundos. N’ “OProcesso” puxamos muito pela personagem, mas está ali muita realidade. Realidade até demais.

Vocês são os dois, à vossa maneira, dois contadores de histórias…

B – Sem querer ser um storyteller, como lhe chamam!

Não. Porque contam várias histórias e até criam novas personagens dentro do disco: seja a do “Johnny Crime” ou a própria “Cidade Vígara”, que se torna também ela numa personagem. Mas existe um lado muito visual no disco, ao ponto de cada uma das faixas poder funcionar como um guião para um videoclip ou o episódio de uma série.

B – E é um meio onde gostamos bué de estar, esse mundo cinematográfico. Gostamos muito desses enredos de filmes e séries com pormenores que nem toda a gente consegue chegar lá.

BJ – Mas esses enredos aparecem de forma natural. Eu como ouvinte – e bom ouvinte de música, como me considero – oiço. Escuto as entranhas – e o Blasph é igual a mim. Este é um disco para ser escutado com relativa atenção, caso contrário vai passar-te um bocadinho ao lado. E não estou a dizer que sou mais profundo que os demais! É só porque a coisa é muito visual.

B – Faz parte dos nossos estilos. Ainda somos aqueles MCs que trazem uma metáforazinha ou um duplo sentido [Beware Jack concorda e diz “Sim!”]. Gostamos dessas… “mariquices”, vá!  Sempre fomos assim.


 

beware

“Este é um disco para ser escutado com relativa atenção, caso contrário vai passar-te um bocadinho ao lado. E não estou a dizer que sou mais profundo que os demais! É só porque a coisa é muito visual”Beware Jack


Vocês não são de uma nova geração nem de uma velha escola. No hip hop português vocês situam-se naquele “meiinho”.

BJ – Somos o Fernando Redondo do hip hop português! (risos)

B – Surgimos numa altura em que ainda se dava algum valor ao skill.

Como é que atingiram esse skill?

BJ – Já há muita música ouvida e feita.

B – Eu não sou gajo que trabalhe em “linha de montagem”, que esteja sempre a fazer coisas. Até porque não tenho sempre a motivação, mas há coisas que mexem comigo e que me fazem escrever. Ainda há pouco estava a dizer ao Beware: “Ando a tentar escrever há uma semana, mas não consigo escrever nada, man!” E ele: “Caga nisso! Quando vier logo se vê.” No meu caso, o skill vem de ouvir muita música. Depois, aquilo de que eu gosto mesmo acaba por ter sempre um bocadinho daquilo que eu faço.

BJ – Acima de tudo já temos um registo nosso, aquele registo que ninguém fundou por nós. São anos e anos a estudar-me a mim mesmo.

B – E tem que se viver um bocadinho. Não sei se é bom, se é mau na minha maneira de fazer as coisas: eu gosto bué de viver, de passar pelas merdas. Às vezes até de uma forma meio masoquista, mas sinto que tenho de viver para depois poder meter na música. Não sou capaz de estar fechado num estúdio a fazer música à pressão durante um mês. Tenho que estar na rua, ou em qualquer lado, com alguém, para me dar um clique para chegar a casa e fazer música.

BJ – Mas atenção que aquela frustração de que o Blasph falava é sempre medida! Até porque já sabemos como é: às vezes um gajo chega a casa, apetece escrever e não sai nada; outras vezes não te apetece escrever, vais escrever e sai.

B – É essa cena! Estás ali a fazer um frete do caraças e querias estar a fazer outra merda qualquer, mas as ideias saem naquele momento! Às vezes não me apetece, boy!

BJ – Tenho uma música, a “Plataforma” – e tem este nome para ser mais directo, porque o nome é “Parabólica”. Às vezes temos viver o efeito “parabólica”: não posso estar um mês dentro de um estúdio a criar um álbum. Posso estar a gravar, mas a criar não. Um gajo tem que andar cá fora, com a parabólica apontada ao céu, a absorver informação para depois a “box” disparar.

B – Já me aconteceu escrever bué rimas e não fazer nada com elas. Mas agora, tudo o que eu escrevo, vai ter de sair.

Deixem-me voltar à ideia da “meia escola”. A vossa ideia não era fazer um disco com os tiques do novo rap, mas sim um puro álbum boom bap.

B – Sim, mas isso vem do produtor que escolhemos para fazer isto. Porque o estilo dele é o puro boom bap.

Mas também o escolheram por algum motivo.

B – Sim, o Kilú é um clássico. É alguém que tem uma personalidade muito forte como nós temos e por isso fazia todo o sentido. O estilo dele é o boom bap, mas se fosse um BeatOven  – um mestre do trap – se nos sentíssemos à vontade para fazer isso, também fazíamos!

BJ – Fomos escolhidos para poder escolher.

B – Surgiu interesse da parte do Kilú em fazer um álbum connosco e nós não podíamos deixar passar esta oportunidade, sabendo o valor que ele tem, o “cromo” – o génio – que ele é! Aliás, há uns anos que não aparecia um álbum assim, com batidas do Kilú a assumir-se como produtor.


 


 

E como é que foi trabalhar com o Kilú?

B – O processo foi longo, mas não houve nada de especial. Juntámo-nos em casa dele, no Martim Moniz, na Rua da Madalena, ouvimos os beats e começámos a escrever logo ali em casa. Por exemplo, o “Vindima” – que é o meu beat favorito do disco – começou a ser desenhada ali!

BJ – Escrevemos e gravámos na hora. É uma faixa que é um verso a cada um. Foi uma coisa meio de rajada: foi tudo gravado ali num período entre o Natal e o Ano Novo.

B – Foi um curto espaço de tempo, mas foi muito importante porque deu para escolher os beats, levar convidados para escolher beats… com o Nerve (“Jorge Palma”) estivemos uma tarde inteira a ouvir beats e sem encontrar nada. Mas o Kilú lá dispara o som, que eu não gostava nada… quer dizer, hoje em dia é o beat que gosto menos no disco (ri-se), mas dou o braço a torcer e, depois de estar feita, digo que está alta faixa.

É uma canção sobre, digamos, intoxicações elíticas. Querem contar a história dessa “Jorge Palma”?

B – Só sabíamos que queríamos fazer uma música chamada “Jorge Palma”. O Nerve encarnou mesmo a personagem, dos três foi o que mostrou um lado menos pessoal. Escreveu mais sobre aquilo com que se identifica com o Jorge Palma… eu e o Beware já contamos cenas mais pessoais! (risos)

Escrever algumas letras mais ou menos de rajada, ali no momento em que escutavam os beats, ajudou a criar o universo visual deste “O Processo”?

B – Acho que sim. Por exemplo, se calhar és capaz de ver o Johnny Crime a viver na Cidade Vígara.

Sim. E as personagens do Jorge Palma a serem os capangas do Johnny Crime em dia de folga.

B – Por exemplo! Se conseguires imaginar isso tudo, melhor! Nós fizemos isso, mas não foi de propósito. Sem querer ser “rua”, este acaba por ser um álbum um bocado “rua”.

BJ – Mas não é um álbum street life.

B – Isto não tem um conceito fora do normal: fomos fazendo faixas, criando  temas e sub-temas. Na “Eu e Tu” e na “Vulcânica” também tens ali um dossierzinho.

Porque os little gangsters também se apaixonam?

BJ – Exactamente! Um gajo não é o campeão do amor! Ninguém tem um coração de ferro ganho nas últimas olimpíadas do amor!


 


 

É certo que criaram personagens diferentes – a do Blasph mais um tipo da rua e que gosta de viver a rua, enquanto a do Beware já viveu na rua, só que hoje tem uma vida diferente: é casado e pai de família. Só que parece que tanto um como o outro, mesmo sendo de locais diferentes, parecem ter crescidos juntos e têm o mesmo fundo. É essa aparente distância pessoal que faz com que não se atropelem um ao outro?

B – Isso é das vivências de cada uma. Mas agora estás a dizer isso… quer dizer, nem pensámos. Nós somos muito parecidos um com o outro, mas o Beware já está noutra cena. Já tem uma família… eu ainda vivo com os meus cotas; não tenho um trabalho certo – vou trabalhando aqui ou ali…

BJ – Mas quando estamos juntos isso não existe nem se coloca!

B – Para fazer rap, estamos na mesma onda.

Qual é o futuro desta parceria? Concertos? Mais discos? Ou querem dar um tempo para os projectos pessoais?

BJ – Eu estou a trabalhar no meu trabalho com cuidado e com calma. Sei que o Frankie Díluvio Vol.2  está bem encaminhado… O Processo 2 há-de nascer, mas agora vamos usufruir destes anos de criação! Também queremos bater mais estrada.


Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.