Black Milk // DiVE

[TEXTO] Moisés Regalado

Fever, editado há pouco mais de um ano, não desiludiu mas prometeu para lá do que cumpriu. “Chega a sentir-se falta de uma produção mais solitária, menos orgânica até”, escrevia na crítica publicada pelo Rimas e Batidas em Maio de 2018, num claro sinal de que Black Milk, antes ou depois de Fever, vale essencialmente por si próprio. E pode até parecer que o rapper/produtor leu as palavras que se escreveram sobre ele deste lado do Atlântico.

Depois de um álbum com produção dividida entre Black Milk e músicos como Chris Dave e Daru Jones, responsáveis por baterias e percussão, o nativo de Chicago parece ter reencontrado o traço que sempre o caracterizou, mesmo que DiVE, como Fever, também espreite para lá dos horizontes mais comuns. Volta a haver músicos convidados, que desta vez funcionam como verdadeiras peças da engrenagem montada pelo homem do leme, numa divisão de trabalho que não se reflecte na divisão do protagonismo e que acaba por contribuir positivamente para a dinâmica de DiVE.

As guitarras e as linhas de baixo de Sasha Kashperko ou RoDerrick Gaston, presentes em boa parte das 11 faixas deste EP, andam sempre à boleia dos samples escolhidos e trabalhados por Curtis “Black Milk” Ross, como tão bem ilustram “If U Say”, com BJ The Chicago Kid, ou “DiVE pt. 2” e “Out Loud”, interlúdios sem voz que correspondem exactamente à definição da Mass Appeal para este projecto: “A journey of betrayal, self-forgiveness and maneuvering through life’s toughest lessons”. A melancolia é omnipresente, nas palavras e nos instrumentais esculpidos por Black Milk, mas nem por isso deixa de haver bangers ou momentos contrastantes.

O beat de “Don’t Say”, que serve a narrativa geral — “Never turn your back and think everything is just okay/ Hear ’em talk but still pay attention to what they don’t say” –, podia perfeitamente funcionar como base para uma posse cut dedicada ao egotrip, bem como “Swimm”, tema construído sobre um daqueles instrumentais irrepetíveis e intemporais que só aparecem volta e meia, ou “Black NASA”, onde tudo parece funcionar: o refrão de Sam Austins, a discreta e acutilante entrega de Black Milk mas também o beat assinado (apenas) pelo próprio.

No pólo oposto estarão “Blame” ou “TYME”. Numa espécie de continuação para “Could It Be” ou “Will Remain”, do disco anterior, Black Milk voltou a optar por manobras que não lhe condizem com a habitual naturalidade de movimentos — mas que nem por isso condicionam o resultado final, consideravelmente mais sólido que Fever. DiVE, como Black Milk em si, já terá o seu público à espera, pronto para receber a nova parte de uma coesa discografia, com direito a poucas mas boas surpresas.


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