BK’: “Eu vejo o hip hop como um exercício de auto-estima e o pouco que a gente pode fazer é devolver essa auto-estima”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Wilmore Oliveira

De Castelos e Ruínas a Gigantes, com dois EPs e várias participações pelo meio, o crescimento de Abebe Bikila no panorama hip hop brasileiro é, hoje, impossível de ignorar. Aos 30 anos, o rapper carioca recusa títulos individuais pois é no grupo e nas conquistas colectivas que encontra o fundamento para o caminho que tem vindo a desbravar.

No mais recente trabalho, o MC derruba as barreiras de estilo sónico e passeia-se habilmente pelo boom bap, trap, funk e r&b para passar mensagens de alerta, ambição e auto-estima tão necessárias se quisermos compreender a “vivência preta” do Rio de Janeiro. Uma crónica da cidade onde BK’ se agiganta e de onde parte para novos palcos, ao lado de Sain, El Lif Beatz e JXNVS, nomes incontornáveis do Bloco 7/Pirâmide Perdida.

Ao telefone a partir do Rio, o sorriso fácil é tão perceptível quanto a falta de ingenuidade ou a alegria pelas novas conquistas: as próximas acontecem a 19 e 20 de Abril, no Plano B, no Porto, e no Musicbox, em Lisboa, respectivamente.



A última vez que conversámos foi em 2017: tu já estavas a trabalhar no Gigantes e lembro-me de falarmos sobre ter sido um ano incrível depois de Castelos & Ruínas. Mas corta para este ano e… Meu deus!

A gente está… Está muito maneiro, esse ano! Está muito maneiro.

Como é que tem sido?

A gente já conseguiu fazer alguns sold outs. Com o show novo do Gigantes. E a gente está agora a começar a entrar num circuito novo de festivais. Cantámos no Guaiamum, no Lollapalooza… Estou felizão! Felizão, mesmo. Estava dizendo isso agora, exactamente antes de falarmos, que estava feliz de poder levar pessoas para aquele lugar ali porque estão comigo há anos! Desde quem trabalha comigo até quem é meu amigo. Eu lembro que consegui levar um amigo que me mostrou o som do Kendrick há quase 10 anos! E quem estava comigo na equipa, quem estava fazendo o som, amigos que deram até entrevista para a Vice! Então foi uma vitória minha conseguir fazer da minha vitória uma vitória de tudo o mundo também. A vitória da equipa. Acho que é isso que me deixa mais feliz ainda. E foi isso que o hip hop me ensinou: o lance da comunidade, de você fazer pelo seu ambiente, pelo seu grupo. Acho que aos poucos a gente está conseguindo fazer um pouco disso. Tem muita coisa para ser feita ainda, mas a gente já pode comemorar esses primeiros passos.

Sozinho não tem tanta graça, não é?

Não. Não tem. Mas não só não tem tanta graça como não funciona! Porque sempre que você acha que consegue fazer tudo sozinho, você erra, tropeça, cai e não vai ter ninguém, nem para te ajudar a levantar. 

Isso deve ser uma das melhores coisas a retirar de estar num festival como o Lollapalooza mas existirão outras, claro…

Sim, além do porte. Do facto do Lollapalooza ser um dos maiores festivais do mundo e nós conseguirmos actuar num palco principal. Um palco do tamanho de um prédio! Prenderam um Megazorde naquilo ali e a gente teve que pilotar o Megazorde! [Risos] Mas foi muito maneiro. A gente saiu dali de alma lavada. Vendo o vídeo dá para perceber que a gente está bem emocionada de estar ali. E agora é transformar isso em frutos bons para a nossa carreira. Voltei do Lolla para o estúdio! No dia seguinte fui gravar! Acabei de vir do estúdio agora porque estava gravando uma música nova com o [Filipe] Ret e gravei duas músicas minhas novas. Acho que é isso! A gente já volta querendo trabalhar mais, evoluir e fazer música boa para poder estar tocando em eventos desse porte.

“Se não fosse MC, eu iria querer ser alguém bem-sucedido porque o hip hop fez isso por mim.”

Voltas mais motivado, deixas de ver isso como inatingível?

Sim! E agora é tentar tocar num próximo num horário melhor, com o evento já preparado para isso e evoluir musicalmente também. Rever os shows, perceber o que você fez de errado. Aprender. É hora de aprender, também… São muitas sensações ao mesmo tempo!

Antes disso esgotaste o Circo Voador, no Rio, e tocaste com banda também pela primeira vez. Como é que foi essa experiência? 

Ali já foi mais tenso. A gente fez três ensaios com a banda e com um trampo totalmente novo. A gente nunca tinha feito esse rolê de show com banda. Então era o disco novo e na nossa casa. Circo Voador lotado, todo o mundo cantando. Gritando! Aquela vibe, aquela energia. E foi tenso porque não podia errar nada. Não podia errar nada. No Lolla eu já estava mais tranquilo, apesar da responsabilidade, porque eu acho que no lançamento no Rio a gente tem que fazer tudo perfeito porque está em casa. No Circo Voador a gente tá tocando ali na Lapa. Na nossa área, tem todos os amigos ali, todo o mundo! Mãe, tia, tio, minha família toda ali vendo aquilo… Então a gente tinha que mostrar um espectáculo com essa energia! Mas só que na primeira música já ‘tava todo o mundo cantando tudo… Toda essa tensão acabou na primeira música. Coração pegando fogo… Mas a gente começa a cantar e todo o mundo cantando junto? Relaxou…

Disseste que trabalhavas os álbuns como um todo, no Gigantes só a “Correria” foi pensada especificamente para ser single, pelo que li… Qual é o todo em Gigantes, que história quiseste contar?

O álbum anterior, o Castelos & Ruínas, eu vejo mais como uma expressão do eu lírico. Abebe Bikila, BK’, ali. Em forma de música ou de som. O Gigantes traz uma ideia mais plural até na própria musicalidade do disco. Ele vai desde o boom bapzão raiz até ao trap e dá um rolê no r&b. É mais plural. E é também por mostrar essas histórias do quotidiano e da vivência do homem preto e da mulher preta no Rio de Janeiro. É um disco que é muito da área, ele é muito Rio de Janeiro. Ele é muito a nossa vivência preta no Rio. Não chega a ser introspectivo igual ao Castelos & Ruínas, mas acho que é denso da mesma forma. Se você for analisar aquelas histórias, todo o mundo já viveu aquilo ali. Tudo o mundo já viveu um “Julius” ou conhece um “Julius”. Todo o mundo viveu “Deus do Furdunço”. Não tem como: o Rio de Janeiro é aquilo! “Exóticos”. Todo o mundo já escutou aquelas coisas, infelizmente. É como se fosse uma série em que os episódios dão sentido, mas que não seguem necessariamente uma ordem cronológica. Talvez a “Novo Poder” tivesse que ser a primeira, mas no resto eu poderia botar qualquer faixa em qualquer lugar! Ele não precisava ter aquela linha que teve o Castelos & Ruínas ou que o meu próximo álbum vai ter.

Falaste ali na musicalidade e costumas trabalhar muito com o El Lif Beatz e com o JXNVS. Como é que é o entrosamento entre vocês? O processo de trabalho?

A gente trabalha muito na base da referência musical. O JXNVS estava fazendo o disco dele também, nesse meio tempo, então eu falei: “Mano, não quero te atrapalhar, deixa a sua criatividade para o seu trabalho, o foco tem de ser o teu trabalho”. Então acabou por ter poucos beats do JXNVS mas ele estava sempre ali junto passando um pouco da visão dele nas outras faixas. O El Lif Beatz também, nos beats que não eram dele. A gente sempre faz as paradas juntos. E vai fluindo de forma muito natural como uma equipe. Um passa a bola pro outro, o outro cruza e outro faz o gol! É um time.

Depois há também a tua ligação com o audiovisual, tu já trabalhaste com vídeo, que é um ponto importante…

Sim. Eu trabalhei com vídeo e quis dar uma cara, uma vida aos clipes. Eu quis fazer uma experiência completa no Gigantes: desde a arte da capa à arte dos vídeos e à música. Eu e o meu irmão, a gente tem muitas ideias de clipe. E agora a gente teve mais chance de investir nessa parte. De fazer esse esforço para subir o nível da qualidade e poder dar uma cara. Eu gosto muito daquele lance do street video mas também gosto muito da parte do roteiro. De criar uma história nos vídeos. Gostei muito dos resultados, tanto em “Julius” como no “Deus do Furdunço”.

“A gente não pode não escolher um lado. E eu não falo no lado só político — mesmo sendo político, mas a gente tem que escolher de que lado a gente está porque tem pessoas morrendo. A gente continua morrendo, independente da política que está no poder. A gente continua morrendo.”

É tão estimulante para ti como a parte musical?

Com certeza. Quando eu e o meu irmão fizemos o roteiro do “Deus do Furdunço”, a gente ficou felizão com o resultado. Quando a gente fez o primeiro corte do clipe eu falei: “Tem mais imagem aí, Calebe! Vê aí que dá para a gente contar a história perfeita”. Ele conseguiu fazer isso. Eu fico muito feliz, gosto muito dessa parte, mesmo.

E ainda as artes da capa que têm toda uma representação…

Quem fez a arte da capa foi o Maxwell Alexandre que, inclusive, teve até agora com um exposição em França. Tem um trampo chamado “Pardo é Papel” e outro chamado “Reprovados”. Esse trabalho dele vai falando sobre isso: sobre a visão do homem negro. Na questão da cor da pele no “Pardo é Papel” e, em “Reprovados”, na questão do jovem de periferia, favelado, que é facilmente identificável quando você vê a criança com aquele uniforme da Escola Municipal. Você já sabe que ele é pobre. Ele já tem uma carga ali. Uma marca. O trabalho dele é feito com base nessas histórias e ele conseguiu juntar um pouco dessas personagens. E olhando para a capa você irá perceber que todas as personagens estão com uma máscara minha. Cara de BK’. Porque é isso… É o BK’ contando todas aquelas histórias ali.

Tu és potencialmente qualquer uma daquelas figuras…

Sim. Tal como a gente fez no clipe de “Correria”. O BK’ é uma ideia. Não é bem um personagem do clipe. Não é um MC rimando ali para a câmara. É mais como se fosse uma ideia que vai passando na cabeça das pessoas. Uma ideia para poder fazer coisas acontecer na mente das pessoas.

De que forma é que, como rimas no refrão de “Julius”, “tudo o que tu fazes é guerra”?

A gente vive em tempos de guerra. As pessoas realmente têm que estar atentas ao que está acontecendo. Então a gente não pode não escolher um lado. E eu não falo no lado só político — mesmo sendo político — mas a gente tem que escolher de que lado está porque tem pessoas morrendo. A gente continua morrendo, independente da política que está no poder. A gente continua morrendo. A gente continua sofrendo e acho que a nossa música é meio que uma forma de recrutar pessoas para o nosso lado, sabe qual é? Porque não dá para a gente viver em tempo de guerra: então, quem fecha com o certo, fecha com o certo. Quem não fecha é um potencial inimigo. Não um inimigo que a gente vai atacar mas vão ser pessoas que a gente vai evitar. A gente não vai estar junto e é isso! São os racistas, são os machistas, todos. A gente sabe que isso existe e essas pessoas são nossos inimigos. Eles são nossos inimigos. Acho que a guerra que a gente vive é essa: a gente mostra para as pessoas que é assim. Se você não acredita nisso e você acha que é “mimimi”? Então você é um potencial inimigo.

O Oddissee disse agora numa entrevista que tomar conta da sua narrativa tinha sido uma das coisas mais difíceis da carreira dele. E tu tomares controlo da tua também é também uma forma de fazer guerra?

Isso. A gente mesmo contar a nossa história, sabe qual é? 

Como é que tu convives com isso, pessoal e profissionalmente? Tens aquele verso em que dizes: “Minha eterna guerra interna/ entre mudar isso aqui/ ou tirar minha família daqui”…

Caraca, essa linha… É isso. É a eterna guerra interna! Mas então, eu vejo o hip hop como um exercício de auto-estima. Se não fosse MC, eu iria querer ser alguém bem-sucedido porque o hip hop fez isso por mim. Acendeu em mim essa ideia de que querer me dar bem, fazer as minhas coisas e querer ser uma pessoa bem-sucedida antes de ser rapper. O pouco que a gente pode fazer, na questão da música, é devolver essa auto-estima, é trabalhar essa auto-estima. Fazer os nossos irmãos e as nossas irmãs terem vontade de ocupar os lugares. Acho que a nossa música se trata disso. E agora naquela acção, aquela coisa física mais próxima, a gente vai ter que virar um Jay-Z pra poder fazer, entendeu? Eu uso o Jay-Z como exemplo porque ele foi um cara que foi muito criticado como uma cara que era vendido mas ele é um cara que hoje consegue fazer pela comunidade porque ele tem o quê? Dinheiro.

Certo…

Para a gente começar a fazer política de verdade, essa coisa mais física, a gente tem que ter dinheiro. Ocupar os espaços, ganhar grana para a gente poder devolver isso para a comunidade de forma física. E a questão da auto-estima já é um trabalho muito grande: acho muito maneiro a gente conseguir representar pessoas e pessoas se sentirem realmente representadas. De uma mina chegar para mim e falar: “BK’, sua música me deu vontade de crescer!” Isso já é maneiro. Mas há outras coisas que dependem de mais ainda. Tem muito lugar em que a gente canta e fica pensando: “Mano, quase não tem um preto no público.” Mas é porque o preto ainda não tem a condição de consumir. Ele ainda não é o povo que consome porque não tem grana. A gente tem essa consciência de que coisas têm que ser feitas que dependem disso. Eu tento resgatar um pouco dos meus amigos e pessoas próximas a mim porque eu tenho que, primeiro, tentar salvar o meu mundo. Vou-me organizando com o Bloco 7, Pirâmide Perdida, tentando de facto que um vá puxar o outro. E outro, e outro e outro… A gente sabe que a política do Brasil é racista, o sistema do Brasil é racista e que para a gente conseguir mudar isso na urna é meio difícil. A gente sabe que tem que ser um movimento nosso. Então a gente tem que ganhar dinheiro. É isso! [Risos]

“Foi isso que o hip hop me ensinou: o lance da comunidade, de você fazer pelo seu ambiente, pelo seu grupo. Acho que aos poucos a gente está conseguindo fazer um pouco disso.”

[Risos] Resumindo.

Sim, a gente tem que ganhar dinheiro para poder meter a cereja no topo do bolo que a gente faz! Para poder contratar amigo preto para poder fazer isso, entendeu? Devolver para a comunidade.

Eu dei por mim a pensar muito no Jay-Z e nesse disco enquanto ouvia Gigantes. A “Story of OJ” foi muito “abre-olhos” para a importância dessa liberdade financeira e do dinheiro a circular dentro da comunidade preta.

Essa música é demais e esse disco é demais… O exemplo é bem esse. Esse disco todo trabalha muito isso!

Entretanto, vens fazer uma série de concertos aqui… Quais são as tuas expectativas? Mais um degrauzinho, né? [Risos]

É isso! Já abri outro sorriso aqui! [Risos] Eu espero que os shows aí sejam bem legais e que a gente consiga passar um pouco dessa visão daqui, entender a visão de vocês e trocar essa energia. Fazer mais essa conexão. A gente tem que se aproximar mais já que a gente fala a mesma língua. Trazer mais galera para cá e mais daqui para aí. E expandir o mercado e a vivência, também!

Por onde vais andar?

Vou fazer Porto, Lisboa e depois vou para Barcelona. Barcelona já é outro rolê! Mas vou conhecer lugares novos pela música. Um amigo meu me falou: “BK’, tenha noção de onde você tá indo!” É a primeira vez que eu saio do Brasil. E por causa da minha música, sabe qual é? É uma parada maneira, uma conquista. Fazer laços, fazer contactos, aproximar.

Recebes feedback de pessoal daqui?

Sim! A gente recebe! Ainda agora no Instagram, pessoal falando que estava esperando a gente aí. Bem maneiro! Eu sei que vou chegar aí como se fosse um novo começo e a gente vai estar semeando o nosso trabalho. Quem sabe a gente consegue fazer boas conexões e boas amizades.

Já vi que vais ter uma mãozinha no álbum do Praso, não é? 

Isso. A gente fez uma faixa, eu e o Sain. Está maneira! E eu quero fazer uma coisas: quero chegar aí, conhecer um pessoal, gravar uns clipes. Quero fazer umas coisas… [Risos]

BK’, muito obrigada! Foi um prazer falar contigo.

Estamos juntos!


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto