Big Sean: O menino bonito da G.O.O.D. Music

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

2017 marca o 10º ano de carreira do rapper Big Sean, período escolhido como sendo o ideal para a edição do seu quarto álbum de originais, I Decided, um dos trabalhos mais aguardados pela crítica, muito graças à afirmação em pleno que conquistou com o lançamento de Dark Sky Paradise, em 2015.

O trajecto de Sean Michael Anderson foi trilhado meticulosamente, de modo a não ir de encontro à sonoridade mais óbvia que fervilhava no seio da G.O.O.D. Music, criando-se assim um precioso espaço dentro da editora para que Big Sean pudesse observar, testar e inovar.

Durante estes 10 anos, o rapper soma 8 trabalhos editados, marcados pelos habituais altos e baixos de um artista em evolução. Não é de estranhar alguma relutância de Big Sean em relação a alguns dos projectos anteriores, conforme demos conta na sua última grande entrevista. É normal para alguém que, na altura, estava ainda em processo de descoberta pessoal e tem a habitual garra de fazer sempre melhor do que da última vez.

Sean Michael está agora mais maduro e promete um novo álbum que o poderá catapultar ainda mais para as luzes da ribalta. Vamos conhecer o trajecto de um rapper que teve a audácia de chamar a atenção de Kanye West com um freestyle e tem sido uma das grandes apostas do fundador da G.O.O.D. Music para trilhar o presente e futuro do rap.

 



Sean Michael Leonard Anderson, nome que consta no documento de identificação do rapper, nasceu a 25 de Março de 1988 na Califórnia. Muda-se cedo para Detroit com a mãe e a avó e é lá que inicia e termina a sua vida escolar. Nos seus últimos anos como estudante, Sean estabelece uma importante ligação à rádio WHTD e dá os primeiros passos enquanto MC. Na estação radiofónica de Detroit, o jovem Big Sean coloca o talento à prova semanalmente num torneio de batalhas de rap organizado pela própria rádio. As suas primeiras prestações começam em 2005 e serviram para o rapper testar as suas capacidades e ganhar a preciosa experiência de ter de superar as expectativas para merecer o apoio dos ouvintes. Aliás, é graças à sua ligação à rádio que estabelece aquele que é o contacto mais importante da sua carreira: Kanye West.

No ano anterior, o aclamado rapper e produtor de Chicago tinha criado a G.O.O.D. Music. Numa visita a Detroit para uma entrevista à rádio, Big Sean teve a audácia de se deslocar até ao local para mostrar o que valia na cara daquele que viria a ser o seu “padrinho” no rap. Com 16 barras captou a atenção de Mr. West, que aceitou levar uma demo sua como recompensa pela boa prestação, acabando por convidá-lo a integrar a sua ainda recente editora, 2 anos mais tarde. Big Sean estava oficialmente “no mapa” e, a partir desse momento, iniciou a sua escalada rumo às luzes da ribalta que pairam sobre as maiores vedetas do hip hop.

 



Os 3 anos que se seguiriam seriam bastante importantes para que Big Sean se pudesse estabelecer na indústria e a começar a ganhar a sua própria fanbase, numa altura em que a Internet já demonstrava ser o palco perfeito para captar as atenções do público. 2007 marca a entrada oficial na G.O.O.D. Music e, ao mesmo tempo, estreia-se com uma primeira mixtape que o coloca no radar das publicações ligadas à música. Finally Famous é o nome que o rapper atribui a esta sua saga e, do primeiro volume, salta o single “Getcha Some” que merece uma abordagem sob o formato de videoclipe pelas mãos do grande Hype Williams.

Os volumes 2 e 3 desta sua fornada de mixtapes são editados em 2009 e 2010, respectivamente, e, além do protagonismo ganho com o trabalho demonstrado nessas edições, vê também a sua popularidade subir ao colocar-se lado-a-lado com algumas figuras de renome da cultura. No total, Big Sean rima 70 faixas espalhadas pelas 3 mixtapes e troca versos com Bun B, Drake, Tyga e Curren$y no seu terceiro acto. O primeiro álbum era inevitável e foi mesmo esse o plano que o rapper traçou para concluir esta primeira trilogia.

 



Aproveitando o mote iniciado pelas suas mixtapes, Finally Famous transita para o nome do primeiro álbum e Big Sean começa a vincar cada vez mais o seu próprio estilo. Kanye West, The Neptunes, Mike Dean ou No I.D. são alguns dos arquitectos nas suas batidas, juntando-se John Legend ou Chris Brown para alinharem nas vozes ao lado do rapper. O álbum de estreia abre-lhe as portas às primeiras nomeações para os prémios BET e MTV VMAs e Sean Michael dá continuidade ao seu trajecto com a edição de uma quarta mixtape: Detroit.

Apesar da boa aceitação por parte do público, reflectindo-se cada vez mais na sua popularidade, o rapper teve algumas dificuldades para se afirmar em pleno. Parte da culpa prende-se ao facto dos seus singles serem divididos com artistas convidados. “My Last” com Chris Brown, “Dance (A$$)” com Nicki Minaj ou “Mula” que o juntou a French Montana. Oportunidades de ouro para poder brilhar mais alto, que o rapper só agarrou mais tarde num projecto onde figurava numa espécie de segunda linha. A compilação Cruel Summer que junta os talentos da G.O.O.D. Music colocou-o a rimar ao lado de nomes de primeira categoria. Veja-se o exemplo de “Clique”, onde Big Sean arranca um bom verso numa faixa onde integravam também dois candidatos à disputa do trono do hip hop: Jay Z e Kanye West.

 



Após Detroit, chegam-lhe os primeiros prémios, todos pela BET. Tudo apontava para um ano de 2013 com ainda mais sucessos graças ao álbum que preparava, mas algo correu de forma inesperada. Big Sean voltou a seguir a mesma fórmula para os seus singles e, no tema que escolheu como o primeiro avanço para Hall of Fame, colocou-se ao lado de Jay Electronica e Kendrick Lamar. Não só teve de dividir o protagonismo como viu a sua quota parte do tema a ser completamente anulada por um K Dot faminto por mais sucesso e glória depois de um arrebatador good kid, m.A.A.d city. “Control” foi o tema mais controverso do Verão de 2013 e uma versão não oficial do tema que isolava o verso de Kendrick conta, ao dia de hoje, quase 5 milhões de reproduções no YouTube.

A estratégia de Big Sean não lhe corria de feição e, como consequência, a data de edição de Hall of Fame sofreu diversas alterações. O álbum é lançado a 27 de Agosto e “Control”, curiosamente, salta para fora da tracklist final devido a “problemas legais face ao sample utilizado no tema”. O trabalho acaba por não ter o alcance desejado e o rapper de Detroit vê o seu mediatismo oscilar mais graças aos seus relacionamentos – Naya Rivera e Ariana Grande foram duas das namoradas conhecidas – do que propriamente pela sua música. É convidado para entrar em Nothing Was The Same e “atira-se” a Naya em “All Me”, canção original de Drake com o companheiro de editora, 2 Chainz. Depois, em 2014, junta-se a um dos seus grandes ídolos, Eminem, para a posse cutDetroit Vs. Everybody”.

 



Os desamores de Big Sean: Naya volta a ser o alvo em “I Don’t Fuck With You” – o primeiro single do último álbum a solo. Apesar da colaboração com E-40, o protagonismo cai todo em cima do rapper da G.O.O.D. Music. Agora era vez de se focar primeiro nele próprio, como podemos observar nos singles que sucederam: primeiro lugar, os vídeos a solo para “Paradise” e “Dark Sky”; em segundo lugar, as faixas com colaborações como “Blessings”, “One Man Can Change The World”, “All Your Fault”, “I Know” e “Play No Games”.

Claro que a qualidade de Dark Sky Paradise está acima dos antecessores, mas, sem uma mudança na forma como geriu o seu protagonismo, o resultado poderia ser bem diferente. No alinhamento do álbum sente-se logo o “estrondo” que Big Sean estava a armar: Mike Will Made It, Boi-1da, Metro Boomin, DJ Mustard, Kanye West, Drake, Jhené Alko… Cabeças mais do que suficientes para gerar um projecto que pudesse colocar o rapper de Detroit na primeira liga do rap made in USA.

 



Embora Big Sean tenha já estabelecido algumas parcerias de sucesso a quem certamente irá recorrer no futuro, o nome de Jhené Alko destaca-se dos outros pela harmonia que encontram em conjunto . Se “I Know” nos dava já aquela sensação de que estávamos a ouvir relatos de um casal de verdade – depois das experiências em “I’m Gonna Be” e “Beware” -, os dois artistas entenderam que valia a pena apostar na forma orgânica que ambos conseguem alcançar enquanto dupla – daí nasceu o projecto Twenty88, que editou o ano passado o EP de estreia homónimo, o último registo discográfico de Big Sean antes de I Decided – que estreia já no dia 3 de Fevereiro. Preparados para receber o menino bonito da G.O.O.O. Music?

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

Latest posts by Gonçalo Oliveira (see all)