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Fotografia: Carolina Ribeiro

A banda actua no próximo mês no CCB.

Beautify Junkyards: “O álbum trouxe-nos muitas coisas boas e estreitou a nossa relação com uma editora que admiramos”

Fotografia: Carolina Ribeiro
O fim do ciclo de The Invisible World of Beautify Junkyards chega ao fim no dia 14 de Fevereiro com um concerto no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Nina Miranda, cantora que fez parte dos Smoke City, entrará, mais uma vez, no espectáculo para, como nos explica João Branco, “adornar os ambientes tropicalistas que os Beautify Junkyards irradiam”. Lançado pela editora de culto Ghost Box, o mais recente disco da banda portuguesa permitiu-lhes apresentarem-se por todo o país, mas não só: tocaram dois dias seguidos no Cafe OTO, em Londres, actuações incluídas numa mini-digressão por Inglaterra. A juntar a isso, o reconhecimento da crítica nacional e internacional e de ilustres como o músico DJ Food ou o crítico musical Simon Reynolds foi a cereja no topo do bolo. João Branco Kyron, vocalista e teclista do grupo, encontrou algum tempo entre preparar o espectáculo e fazer o novo álbum para responder a 10 perguntas do Rimas e Batidas.

Já se sabe que 2020 vai trazer novidades e já te questionarei sobre isso, mas qual o balanço desde a edição de The Invisible World na Ghost Box em 2018 até este concerto com que, presumo, vão fechar este ciclo? A balança levitou, o álbum trouxe-nos muitas coisas boas. Veio estreitar a nossa relação com uma editora que admiramos e que viu algo de especial na nossa música, trouxe-nos reacções muito positivas por parte da imprensa e público, permitiu-nos crescer na estrada, com alguns concertos importantes cá em Portugal e uma mini-tour em Inglaterra onde tocámos dois dias seguidos na emblemática sala Cafe OTO. A cena hauntológica ancorada na Ghost Box nasceu de uma perspectiva muito britânica, presa a referências muito concretas, o Radiophonic Workshop, os Broadcast, o passado folk, etc. Vocês vieram, no entanto, provar que uma perspectiva portuguesa pode igualmente fazer sentido. Que marcas identificam no universo hauntológico português? Realmente, a Ghost Box tem sido um dos pilares da cena hauntológica musical britânica, alicerçada em todo o imaginário televisivo e radiofónico dos anos 60, 70, em que os ingleses irradiaram através dos meios de comunicação fascinantes correntes e sub-correntes de mistério, lendas folk, sobrenatural, ficção científica… O chá das cinco nessa altura devia conter substâncias com propriedades encantatórias. Filmes da BBC, séries, anúncios de serviço público, programas de rádio com bandas sonoras dos BBCRW (Radiophonic Workshop), enfim toda uma multitude de narrativas e música que formou toda uma geração de artistas. Contudo, o conceito da hauntologia pode ser imaginado e interpretado de forma mais genérica, e foi assim que nós, em paralelo a todas essas influências que fomos recebendo da velha Albion, começámos a pesquisar e a buscar inspiração, nas nossas próprias memórias pessoais, no nosso imaginário colectivo local e no futuro que projectávamos, as descobertas em vertigem do pós-25 de Abril, o lirismo poético e pastoral do Zeca, do Fausto, o paganismo, folclore e sátira social da Banda do Casaco, do Quarteto 1111. Também na televisão, mas em muito menor grau que os ingleses, fomos sendo premiados com séries que nos encaminhavam por caminhos misteriosos e que nos despertavam os sentidos para olhar para além do espelho. Talvez marcas de uma hauntologia mais austera e a preto-branco, mas igualmente gatilho de sonhos, a meu ver a hauntologia contém uma grande dose de onirismo e no fundo isso é algo que dilui fronteiras geográficas. Os Beautfy Junkyards tocaram em Londres a convite da Ghost Box: como são recebidos nessas investidas internacionais? São vistos com algum tipo de estranheza pelos seguidores dessa corrente? Sim, tocámos no Cafe OTO, numa noite que teve igualmente concerto da cantora Sharron Kraus e DJ set do Focus Group (de Julian House). Fomos muito bem recebidos e demos um dos nossos melhores concertos de sempre para uma sala lotada. A nossa música contém uma dose muito elevada da influências que são “familiares” aos fãs da editora e depois todas as ramificações pela cultura portuguesa e pela tropicália são vistas pelos ingleses como algo exótico e fascinante, percebem que não nos interessa ser uma reprodução pastiche mas que estamos interessados em trilhar o nosso caminho, mostrar os nossos cruzamentos de influências. Que podemos então esperar do concerto no CCBEAT? Vão ter surpresas? convidados? Novo reportório? Vamos trazer de Londres uma convidada muito especial, a cantora Nina Miranda (Smoke City). Há cerca de uma ano ela juntou-se a nós para uma noite mágica no Musicbox, que acabou por ser um dos momentos marcantes de promoção deste álbum. Para este último concerto, achámos que fazia todo o sentido tê-la connosco em palco, ela tem uma sensibilidade e uma voz fora do comum e tivemos uma grande sintonia desde o momento em que nos conhecemos. Além disso estamos a preparar uma série de versões de músicas que são especiais para nós, algumas já temos tocado nos nossos concertos, mas outras vamos tocá-las pela primeira vez. Os vossos concertos são sempre planeados muito cuidadosamente, inclusivamente do ponto de vista visual. Porquê essa preocupação na construção de um ambiente especial, sentem que a música faz mais sentido assim? Nós achamos que a experiência do concerto deve ser multi-sensorial e não me restrinjo aos cinco sentidos básicos, que o público vá estabelecendo as suas próprias ligações entre a visualização da banda, a música e as imagens, planos de diferentes tempos e espaços a inspirar quem assiste. O concerto deve ter ingredientes de revitalização na energia das pessoas. Mas o núcleo de tudo é sempre a música, a nossa execução, as imagens, tudo a servir a música e não o contrário. Já reparei que partilhas muitos artigos que vos são dedicados na imprensa internacional. Acham que esse tipo de reconhecimento já vos foi dado também dentro de portas? Efectivamente temos tido algum destaque na imprensa musical e em programas de autor por toda a Europa, mais concentrado no período subsequente à edição do álbum, mas de alguma forma sempre constante. Publicações como Shindig, Electronic Sound, Record Collector, Wire teceram elogios muito estimulantes ao álbum e pessoas que respeitamos muito acabaram mesmo por incluir o nosso álbum na sua lista de melhores de 2018, como o músico DJ Food e o escritor Simon Reynolds (que me confessou ter gostado muito de ver o nosso concerto no Sabotage no âmbito do festival MIL). Cá em Portugal temos tido o reconhecimento de alguma imprensa e rádio, talvez aquela que nos interessa que a nossa música chegue, pois a relação é sempre bidireccional, tem que ser sentida dos dois lados. Quanto ao público, sinto que há um caminho a percorrer no sentido de chegarmos a mais pessoas que possam sentir a nossa música e identificar-se com o que fazemos. Não estamos orientados a fazer música dentro de certos cânones vigentes e isso torna a caminhada mais longa. Vamos encontrando pessoas por todo o caminho. A banda teve algumas transformações desde que arrancou. Como estão neste momento? A Helena Espvall é uma “contratação” para manter no plantel ? Sim, a Helena é “beautifiquense” e alcantarense, somos quase uma banda de bairro, quatro elementos da banda moram em Alcântara, onde fica também a nossa sala de ensaios. A Helena, é uma pessoa muito especial que ama a nossa cidade e para nós é um privilégio tê-la na banda, é uma multi-instrumentista reconhecida internacionalmente e com um percurso importante na área da folk e música improvisada. Como estão a correr os trabalhos para o novo álbum? A Ghost Box já fez saber que conta com um novo trabalho de BJ para o corrente ano… Sim, temos planos de edição do novo álbum no segundo semestre de 2020, já há muito material com a composição mais avançada e outros temas mais embrionários. Como sempre cumprimos aquele ritual de nos deslocarmos para o campo e passarmos uns dias em puro improviso, depois houve uma fase de selecção dos melhores trechos e partir daí começámos a criar as músicas. Temos um método de trabalho algo disfuncional, mas resulta e vamos sentindo a evolução. Há muitas sessões a dois ou a três para trabalhar aspectos específicos, rítmicos, melódicos, há muitas horas de samplagem e busca de sons e vamos partilhando tudo na nossa área de SoundCloud. Há mudanças estéticas a assinalar no novo material? Há alguns elementos-base que se mantêm, mas há efectivamente uma intenção de explorar coisas novas, temos músicos excepcionais e versáteis na banda e maquinaria electrónica que vamos acumulando e isso dá-nos oportunidade de explorar certos cruzamentos estéticos que não nos seriam possíveis se fossemos um projecto meramente electrónico ou puramente acústico. Num mini-festival com curadoria BJ que outros artistas teriam lugar? Nacionais e internacionais, do presente ou do passado… Ah, um mini Le Guess Who com características sobrenaturais, são tantos os nomes que torna esta resposta muito difícil, mas vamos lá: Palco Yesterday’s Day: Banda do Casaco, Incredible String Band, Delia Derbyshire, Broadcast e Cabaret Voltaire; Palco Today’s Day: Lula Pena, Vashti Bunyan, Angel Bat Dawid, Moor Mother e Pye Corner Audio.

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