Baco Exu do Blues e a sua coroação de Afrodite

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Mavi Morais

Três pelo preço de um foi a “promoção” que nos chegou em Agosto por parte de Baco Exu do Blues. O MC baiano entregou-nos nos últimos dias do mês uma trilogia quente: em Salvador, Inverno é coisa que nem se pode dizer que exista. “Banho de Sol”, “Tardes Que Nunca Acabam” e “Última Noite” são faixas gémeas de “Te Amo Disgraça”, hit de 2017, pelo menos no que ao mood diz respeito. Sem pudores, Baco canta cada “transa” com a dedicação que ela merece. De manhã, à tarde e à noite.

Com produção a cargo de DKVPZ (leia-se Deekapz), a primeira dupla de produtores brasileiros a lançar um EP pela norte-americana Soulection, “Banho de Sol” aparece luminosa como o nascer do dia e é aqui que Diogo Moncorvo serve as primeiras taças de uma música-rosé que, a espaços, nos transporta para um mood bem Don L de 2013, quando as beiras de piscinas tinham a sua banda sonora.

Sem a sofreguidão de “Te Amo Disgraça”, “Banho de Sol” reflecte uma paixão que já perdeu as inseguranças dos primeiros dias mas que nem por isso perdeu o calor. Aliás, “Tardes Que Nunca Se Acabam” exala ainda mais o peso desse sentimento, reforçado no sample intercalado de “Besame Múcho”, da mexicana Consuelo Velázquez e no entardecer carregado pela produção de Portugal aka PortugalNoBeat. Se dúvidas existissem sobre aquela que é uma das especialidades de Baco Exu do Blues, a lírica cheia de erotismo e banalidade lapidada da segunda faixa denunciam-no:

“Baby, cê é tão chique
Sua buceta e minha língua precisam de um feat”

Em “Última Noite”, terceira e última faixa também com produção a cargo de Portugal, são perceptíveis as tiradas bem mais nocturnas e agressivas de fim de dia, tanto no beat como na rima. “Cheiro de cigarro e de amor antigo, amo foder contigo, amor fode comigo” não deixa espaço para muito significado escondido. Abre, sim, caminho para um Baco nocturno que não dispensa a Tropicália e que, de uma forma constante e quase inédita, coloca o prazer feminino no centro da sua obra. Para adicionar ao topo da lista das vossas playlists com um emoji on-fire.

Em crescimento descontrolado desde o lançamento de Esú, o rapper acaba de juntar mais um par de nomeações para embelezar o seu currículo: é candidato à vitória nas categorias Canção do Ano (com “Te Amo Disgraça”) e Revelação no Prémio Multishow 2018.

 


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto

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